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Podemos fazer mais para ajudar a Ucrânia

Para começar, podemos levar a sério as sanções à Rússia.

GlobalVoices

Por GlobalVoices

FOTO: Ministério de Defesa da Ucrânia/armyinform.com.ua [CC BY 4.0 DEED]

Quase dois anos e milhares de sanções depois, a capacidade de guerra de Moscovo permanece intacta e a Rússia continua a bombardear a Ucrânia do mesmo modo, se não mais, como naquela manhã fatídica de 24 de fevereiro de 2022, data em que começou a invasão em grande escala. O Kremlin continua as suas operações militares, lançando centenas de drones e mísseis contra a população e cidades ucranianas. A economia da Rússia recuperou para os níveis anteriores à guerra e continua a crescer, devido a aumentos maciços nas despesas militares. A maioria dos russos comuns, especialmente aqueles que vivem em áreas economicamente importantes como Moscovo e São Petersburgo, ainda encaram a guerra como uma espécie de reality show, torcendo pelos agressores que atacam os lares ucranianos.

No entanto, a Rússia não alcançou os seus objetivos militares devido, principalmente, ao esforço heroico de muitos ucranianos que arriscam muito e sacrificam as suas vidas pelo seu país. Eles impediram que a Rússia expandisse a guerra para outras partes da Ucrânia e para os países europeus vizinhos. O Ocidente ajudou ao fornecer armas e apoio financeiro e humanitário para a Ucrânia se defender. A ajuda dos países democráticos tem sido crucial para reforçar a resistência da Ucrânia e permitiu que o país recuperasse alguns dos territórios perdidos e libertasse a população da ocupação russa.

Apesar disso, muito mais pode (e deve!) ser feito para ajudar a Ucrânia, dadas as dificuldades da contraofensiva, o fornecimento insuficiente de armas e os ataques crescentes do lado russo, especialmente à medida que armas e dinheiro continuam a entrar no Kremlin.

Como é que é possível que, após a imposição de abrangentes sanções ocidentais, um apelo internacional a um boicote à Rússia e ao isolamento do Kremlin no cenário global, a Rússia ainda seja capaz de continuar a travar a guerra como antes?

O Ocidente tentou prejudicar a capacidade bélica da Rússia, impondo sanções que proíbem a venda de armas, limitam os lucros provenientes das exportações de energia e interrompem os fluxos financeiros para a Rússia. Mais de 26 mil sanções no total. No começo, as coisas pareciam funcionar: o rublo entrou em colapso, as empresas estrangeiras começaram a sair e os analistas previram uma queda acentuada no PIB do país. No entanto, a Rússia recuperou, e bastante rápido, encontrando alternativas às proibições ocidentais e confiando em aliados autocráticos e especuladores para continuar a enviar armas e equipamento para a linha de frente.

Embora o Ocidente tenha aplicado um número sem precedentes de sanções, não fez o suficiente para fazer cumprir estas medidas, deixando muitas lacunas e caminhos para a evasão. As sanções no domínio da energia - que visavam as exportações mais lucrativas da Rússia - só entraram em vigor ao décimo mês da invasão e não visavam todo o comércio. A União Europeia, o principal consumidor de gás russo, comprou quatro vezes menos gás de gasodutos russos. Porém, aumentou em 40% a compra de gás natural liquefeito (GNL) russo, ou seja, embora os lucros energéticos tenham diminuído, permanecem elevados devido a esta substituição.

O Ocidente não agiu rápido o suficiente para impedir a Rússia de encontrar mercados alternativos para as exportações de energia. Quando os estados ocidentais aplicaram um limite de preço de 60 dólares por barril ao petróleo russo, esperavam que essa medida fosse facilmente aplicada, uma vez que a Rússia transporta o seu petróleo maioritariamente em navios de propriedade ocidental. No entanto, a Rússia está a comprar petroleiros para criar a sua própria frota independente, muitas vezes provenientes de países ocidentais como a Grécia. No ano passado, os russos compraram mais de 100 petroleiros a diferentes vendedores. Muitas vezes, são navios velhos, sem seguro, que apresentam elevados riscos ambientais. Esta frota torna a venda do petróleo a um preço de mercado mais elevado. E mesmo quando os russos utilizam barcos ocidentais, que exigem que o preço máximo seja aplicado, o preço continua demasiado elevado.

Muitos setores lucrativos, como o do ouro ou os dos diamantes, não foram sancionados, principalmente devido a lobbies empresariais e a empresas poderosas nos países que aplicam as sanções e que não querem perder os lucros que obtêm com o comércio com a Rússia. Elas têm pressionado os governos a adiar as restrições.

As sanções não conseguiram impedir o comércio ilícito de armas e artigos do setor militar, como chips, tecnologia e drones, que entram na Rússia através de países terceiros ou de empresas que violam as sanções de forma ilegal. Durante mais de um ano, a Rússia tem conseguido comprar produtos abrangidos pelas sanções a empresas ocidentais, às vezes negociando abertamente com a Rússia, devido à falta de mecanismos de aplicação adequados. A Rússia também continua a obter armasdrones e tecnologia militar da China, do Irão e da Coreia do Norte.

É claro que as sanções tiveram alguns efeitos. As receitas energéticas diminuíram e a Rússia tem de ser mais criativa para encontrar as armas de que necessita. Isso complica a vida ao Kremlin, mas não reduziu a sua capacidade de fazer a guerra como antes. A Ucrânia está a ficar sem recursos, enquanto a Rússia pode comprar e produzir tudo o que precisa com as receitas que continua a gerar.

Tudo isso leva-nos à necessidade de fazer mais para ajudar a Ucrânia, bloqueando as vias de evasão das sanções. São necessários maiores esforços para melhorar as medidas de execução. As empresas nos Estados sancionadores que efetuem comércio ilegal com a Rússia devem estar sujeitas a sanções e ser proibidas de fazer negócios nos EUA e na Europa. As empresas fora da coligação sancionadora que facilitam o comércio alvo de sanções também deveriam ser proibidas de aceder aos mercados ocidentais. Os países que nunca aplicaram sanções à Rússia e permitiram o comércio relacionado com a guerra e com o Kremlin deveriam ser pressionados e persuadidos a deixar de lucrar com essa prática. As sanções financeiras deveriam ir além do congelamento dos principais bancos russos, passando a utilizar ativos russos congelados para ajudar a Ucrânia.

Os governos ocidentais têm sido fortes na ajuda à defesa da Ucrânia, mas têm sido fracos na implementação de sanções contra a agressão contínua da Rússia. As democracias desenvolvidas devem agir em conjunto para endurecer as sanções contra a Rússia.

Licença Creative Commons

Este artigo, escrito por Anna Romandash e David Cortright e traduzido por Juliana Stroebel, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n'o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

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