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02.09.21

Khaby Lame expõe falhas de cidadania em Itália e a situação dos criadores negros no TikTok

"Talvez possa mudar as leis com a minha popularidade", diz


por Redação o largo.

@LinaVeresk via Twenty20

Licença Creative Commons
Este artigo é uma tradução de um artigo original de Njeri Wangari com a contribuição de Abdoulaye Bah, publicado originalmente na versão inglesa do site "Global Voices", e é republicado em português pel'o largo. sob uma Licença Creative Commons - Atribuição 3.0 Não Adaptada.

Khabane Lame, mais conhecido como Khaby Lame, um senegalês de 21 anos que vive em Chivasso, Itália, tornou-se o primeiro criador TikTok na Europa e o segundo no mundo a atingir 100 milhões de seguidores a 10 de agosto. A ascensão de Lame destaca a situação dos criadores negros de conteúdo e expôs a fragilidade da cidadania italiana e das leis de imigração.

Lame começou a usar o Tiktok no ano passado, em março de 2020, depois de ter perdido o seu emprego como operário fabril devido à pandemia de COVID-19. Nos seus vídeos, normalmente não diz uma única palavra. Em vez disso, ele utiliza expressões faciais e gestos para se divertir com outras estrelas da Internet. Isso tem sido reconhecido como, talvez, a chave do seu sucesso porque os seus movimentos e expressões ultrapassam as barreiras culturais e linguísticas, tornando as suas mensagens universais.

Numa entrevista ao The New York Times, em junho, Lame, popularmente conhecido como "o TikToker italiano", revelou que ainda usa o seu passaporte senegalês, apesar de viver em Itália desde o primeiro ano de vida. 

 

@khaby.lame

Could be the new Khaby ?🤣🤣 👩🏿‍🦱 🤲🏾 Potrebbe essere il nuovo Khaby? ##learnfromkhaby ##imparacontiktok ##stitch

♬ suono originale - Khabane lame

Rendimentos e apropriação cultural

A ascensão de Lame ao estrelato acontece depois de, em julho, os criadores negros do TikTok terem entrado em greve, alegando apropriação de conteúdos e falando da sua luta para ganharem o devido crédito. Muitos Tiktokers negros relatam poucos ganhos para as tendências online que produzem, enquanto os seus colegas brancos apostam nas mesmas tendências para alcançarem grande sucesso.

Embora os criadores de conteúdos não obtenham uma parte das receitas publicitárias do TikTok, os melhores ganham grandes quantias na plataforma. De acordo com o "Influencer Marketing Hub", a forma mais óbvia é através do chamado marketing influente, que exige que os criadores construam um número suficiente de espetadores dedicados e, depois, se comercializem eles próprios às marcas para venderem produtos ao seu público.

A plataforma criou um nicho como o principal destino para as tendências da dança e vídeos engraçados. Muitas das danças mais populares provêm de jovens criadores negros. No entanto, muitas não recebem o devido reconhecimento ou compensação pelos seus vídeos virais. Do outro lado, frequentemente, quando os TikTokers Brancos reproduzem as mesmas tendências, desafios ou movimentos de dança, não só recebem fama como, por vezes, seguem-se logo grandes fortunas.

Foi o caso do movimento de dança "Renegado", criado por Jalaiah Harmon, 14 anos, de Atlanta, Geórgia, que lutou para obter o crédito dos influentes meios de comunicação social que fizeram da dança um fenómeno viral, não só no Tiktok mas também através do Youtube e Instagram.

A hashtag #BlackTikTokStrike, criada em junho, já foi vista mais de 6,5 milhões de vezes na aplicação e, desde então, tem conseguido ser tendência no Twitter e noutras plataformas. Os utilizadores negros estão a promover a hashtag para chamar a atenção para o que dizem ser um tratamento preferencial.

Ao Washington Post, o criador Erick Louis, que ajudou a organizar a greve, referiu que "mesmo nos espaços que conseguimos criar para nós, as pessoas (não-negras) infiltram-se violentamente e ocupam esses espaços sem qualquer respeito pelos arquitetos que os construíram". Num vídeo amplamente partilhado na plataforma, o criador acrescentou: "A greve é sobre reconhecimento e creditação onde é devida". Já um porta-voz da plataforma, quando questionado pelo mesmo jornal sobre a greve dos criadores de conteúdos e as práticas de moderação do TikTok, indicou que a empresa se preocupa "com a experiência dos criadores negros na plataforma" e que incute "uma cultura onde o crédito aos criadores é a norma, promovendo um ambiente comunitário seguro e de apoio". 

Olhando para os ganhos potenciais da criação de conteúdos para a plataforma de vídeos, é compreensível por que é que os criadores negros estejam ressentidos: segundo o "TikTok Influencer Engagement and Earnings Calculator" do Influencer Markting Hub, a tiktoker e bailarina norte-americana Charli D'Amelio, com 122 milhões de seguidores, pode ganhar entre 56 e 94 mil dolares (entre 47 e 79 mil euros, aproximadamente). Lame é a segunda pessoa a atingir os cem milhões de seguidores depois de D'Amelio. 

O crescimento brutal do TikTok em África

Em abril de 2020, o TikTok substituiu as apps do Facebook como a aplicação mais descarregada no mundo. 

A plataforma tem sido particularmente bem-sucedida em África, e especialmente no Senegal, o país de origem de Lame. O TikTok ocupa atualmente o terceiro lugar como a aplicação social mais descarregada na Google Play da Nigéria e o sexto lugar na loja queniana. 

Em julho, a empresa anunciou uma verba para vinte criadores sul-africanos. No entanto, muitos argumentam que é necessário fazer mais para assegurar um ambiente inclusivo e o "fair play" onde as práticas injustas, como a apropriação cultural e ou os casos de discriminação racial denunciados são tratados de forma categórica. 

O site Afrotech.com mostrou-se cauteloso sobre o sucesso de Lame: "Embora precisemos de, certamente, celebrar vitórias como as do Lame, precisamos também de nos manter vigilantes quanto ao fosso salarial entre os influenciadores negros e brancos, especialmente numa aplicação tão popular como o TikTok. 

Um senegalês em Itália

Instagram Khaby Lame

A fama de Khaby Lame também chamou a atenção para o seu estatuto de cidadania em Itália, que ele descreve como um processo longo e difícil. Embora tenha vivido no país desde que a sua família imigrou para o país, quando tinha um ano, ele ainda não é um cidadão reconhecido. O país mediterrânico tem leis de naturalização manifestamente rigorosas. A lei estabelece que uma pessoa pode obter a cidadania italiana, desde que "tenha residido legalmente em Itália pelo menos dez anos (...) se não tiver registo criminal e dispuser de recursos financeiros. O requisito de residência é reduzido para três anos para netos de cidadãos italianos e para estrangeiros nascidos em Itália, quatro anos para nacionais de Estados-Membros da União Europeia, cinco anos para refugiados ou sem-pátria, e sete anos para alguém que tenha sido adotado em criança por um cidadão italiano". 

O tiktoker espera que a sua nova fama e reconhecimento encoraje os agentes italianos a, finalmente, o reconhecerem como um dos seus, enquanto ele conquista o estrelato. Como referiu ao The New York Times, a falta de cidadania nunca foi um problema, até que começou a receber convites de outros influenciadores para visitar os Estados Unidos. Lame é agora uma estrela internacional, e esta falta de cidadania europeia é susceptível de inibir as suas hipóteses de obter apoios internacionais e parcerias com marcas globais além Itália. "Talvez consiga mudar as leis com a minha popularidade", referiu, de forma otimista. 

Lame, referido como o "TikToker italiano" pelos seus fãs e seguidores, é a personalidade mais seguida no TikTok e Instagram em Itália com 100 milhões de seguidores e cerca de 33 milhões de seguidores (em junho, tinha cerca de 25 milhões), respetivamente.

 

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