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22.11.18

França: "Coletes amarelos" insultam e agridem jornalistas


Bruno Fernandes

Franceinfo/Direitos reservados

O movimento popular dos "Coletes Amarelos", apesar do cansaço, está longe do fim: o braço de ferro entre os automobilistas franceses e o governo de Emmanuel Macron está a pôr o "hezagono" europeu em estado de sítio. Mais de 287 mil pessoas estão envolvidas em bloqueios de estrada, estações de serviço e outros locais contra o aumento dos preços nos combustíveis. O último balanço dá conta de um morto e dezenas de feridos e o objetivo é uma grande manifestação nacional no próximo sábado, em Paris, manifestação que não será autorizada pelas autoridades. 

Sendo que os manifestantes não podem comunicar diretamente com o Presidente da República francês, estão a virar-se para o que parece ser o elo mais fraco: os jornalistas. Dezenas de reporteres queixaram-se de insultos, acusações de censura, humilhações ou mesmo agressões. Em declarações citadas pela Franceinfo, a jornalista Gwen Saulnier, criadora do grupo de Facebook "#PayeToiUnJornaliste", refere que estava "cansada" dos relatos constantes de violência sobre os seus colegas. Sob o pseudónimo "Paulette, la pigiste" (Paulette, a "freelancer"), Saulnier diz que começou a publicar os relatos porque "não aguentava mais. Estes atos de violência gratuita sobre os jornalistas não são mais permitidos". 

Para além de Saulnier, a equipa que gere o grupo é composta por sete colegas de Montpellier e convida outros jornalistas a denunciar as agressões de que são alvo quer neste protesto popular, quer noutros eventos com o objetivo de "pôr a descoberto estas agressões e criar um diálogo com aqueles que não têm confiança em nós". O grupo, criado no dia 18, já conta com perto de 2500 membros e mais de 200 mensagens publicadas. 

"Mentirosos! Tu pertences ao poder! Tu censuras! Tu és uma lambe-botas do Macron!" 

Franceinfo/Direitos reservados

O caso que "fez clique" na cabeça de Gwen Saulnier é o da jornalista Céline Durchon. A também "freelancer", e que colaborou com as estações de televisão BFM TV M6,  foi "atacada" numa manifestação em Montpellier. "O editor chamou-me ao meio-dia para fazer um retrato cruzado destes "coletes amarelos"", explica Durchon à Franceinfo. No entanto, quando chegou ao local, o ambiente era "tenso". Num bloqueio controlado pelos manifestantes, a jornalista é interpelada por um deles. "Ele viu-me e, literalmente, gritou-me a vinte centímetros da cara. 'Mentirosos! Vendidos! Corruptos!' Ele estava a latir para mim!", descreve a reporter. 

Mesmo com este ambiente, Céline ainda tentou fazer o seu trabalho, e dirigiu-se na mesma a "um grupo de 100 a 200 pessoas" que a cercou. "Gritavam para mim da mesma forma que uma criança está a ser intimidada na escola primária. ' Mentirosos! Tu pertences ao poder! Tu censuras! Tu és uma lambe-botas do Macron!' (tradução livre). Apesar de tentar explicar o que vinha ali fazer, o grupo continuou a violência: "Recebi muitas cuspidelas", para além de "uma senhora quase derrubou a câmara". 

Só ao fim de algum tempo é que o organizador da manifestação conseguiu tirar a jornalista do meio do grupo. Apesar de pedir desculpas pelo comportamento dos manifestantes, tentou desculpabiliza-los. "Explicaram-me que não era contra mim mas contra o que eu represento". 

O caso de Céline não é o único. A jornalista Stéphanie Roque da estação de televisão LCI também sofreu a ira dos manifestantes, no dia 17 de novembro, em plena Praça da Concordia. A reporter e a sua colega foram "insultadas, tratada de mentirosas, de médias corruptos... impossível de fazer um direto". No dia seguinte, novo caso de violência. A jornalista foi enviada para a Normandia onde "alguns dezenas de pessoas trataram-nos de "putas"". Depois destes ataques, a redação tomou a decisão de enviar um agente de segurança com os jornalistas por forma a que possam continuar a trabalhar. "Justifica-se plenamente. Eu sinto que são necessários" em terminadas manifestações, precisa a jornalista. 

Mas outros não têm essa sorte! 

Um fotojornalista da Radio Bip foi agredido em Besançon (Doubs) com dois golpes na cara, tendo partido o osso zigomático, também conhecido como "osso da bochecha". Emma Audrey, colega do fotojornalista, alega que foi "claramente premeditado. Era-lhe dirigido: ele tinha um capacete onde estava escrito 'PHOTO'. Eles sabiam que ele era reporter", considera. 

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