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29.01.19

Censura: escola norte-americana proíbe alunos de fazerem cobertura da prisão de um colega para revista


Bruno Micael Fernandes

BuzzFeed News/Luke Sharrett/Direitos reservados

Uma escola secundária, no estado norte-americano do Indiana, terá proibido os estudantes responsáveis da revista escolar de realizar a cobertura da prisão de um estudante acusado de vários abusos sexuais. 

A história é contada pelo portal BuzzFeed News. Durante três semanas, na Plainfield High School, ninguém soube o que teria acontecido a Levi Stewart. Falava-se de suspensão mas ninguém da administração falava sobre o caso. A ausência era notada porque "ele era um rapaz proeminente na escola", diz Kyra Howard, estudante de jornalismo. 

Colaboradora na revista mensal da escola, a Quaker Shaker, Kyra quis analisar o caso mais a fundo. Afinal, todos os media locais e vários nacionais estavam a fazer a cobertura do caso. Stewart, com 17 anos, ia ser julgado como adulto devido às acusações de abuso sexual por parte de quatro raparigas. 

O acompanhamento foi iniciado... mas rapidamente interrompido. A administração do estabelecimento escolar chamou a atenção do docente responsável pela revista de que aquele era um assunto "muito sensível" para os alunos. Então, os estudantes tiveram outra ideia: em vez de acompanharem o caso de Stewart, iriam escrever artigos sobre formas de prevenir agressões sexuais na escola.

Resultado: a administração também rejeitou a ideia. 

A antiga aluna de Plainfield diz que a escola "é muito preocupada com a imagem" na comunidade e está mais interessada nisso do que em parar as agressões sexuais. "Sempre foi assim. Não percebo por que é que a direção não nos deixa escrever sobre algo que é  factual", sustenta. 

Quando contactada pelo portal, a porta-voz distrital da educação, Sabrina Kapp, diz desconhecer a proibição de escrever sobre este assunto mas diz que o diretor e o conselho geral da escola estão indisponíveis para uma entrevista. Apesar de tudo, o portal pediu registos ao conselho distrital sobre a decisão e as discussões que levaram à proibição de artigos sobre o caso.  Por fim e por carta, o distrito lá respondeu que não havia registos de email "relevantes" para divulgar. 

Diretores acham correto censurar artigos controversos

No país liderado por Donald Trump, a situação de Kyra não é única. Nos últimos anos, e com a chegada em força do movimento "#MeToo", a situação escalou para um nível nunca antes visto. Em declarações à BuzzFeed News, Mike Hiestand, advogado da associação sem fins lucrativos Student Press Law Center, diz que o movimento "chegou em grande aos campus universitários e de ensino secundário".

Apesar dos jornalistas estarem mais atentos à conduta sexual, o que é certo é que o encerramento dos jornais locais tem levado muitos estudantes de jornalismo a pegar em assuntos que, de outra forma, não teriam eco na comunicação social mais mainstream. Casos de falsificação de credenciais por parte de docentes ou queixas de má conduta sexual contra professores e que foram arquivadas vieram a lume graças ao jornalismo estudantil. 

Um dos exemplos dados pela revista é o caso da escola secundária de Herriman, no Utah, em que o estabelecimento fechou o site do jornal escolar, bem como todas as páginas nas redes sociais. Motivo: o facto do jornal ter noticiado que um professor ter sido despedido por "abraços e outros toques não consentidos", para além de ter enviado mensagens de texto inapropriadas para uma estudante. Apesar dos documentos que levaram à publicação da notícia terem sido obtidos de forma legal e estarem disponíveis publicamente, a administração, sem quaisquer explicações, quiseram retirar a história do professor da internet. 

BuzzFeed News/Direitos reservados

Para que a notícia saísse, bem como todos os desenvolvimentos do caso, Conor Spahr, redator da notícia, e Max Gordon, editor-chefe do jornal, criaram um jornal alternativo online  que se tornou a fonte do caso para jornais locais e nacionais. "Nas escolas públicas, a direção tem o controlo completo a toda a hora", descreve Conor Spahr, (agora) caloiro universitário. O estudante diz que os adminsitradores "podem fazer o que quiserem, inclusive censurar histórias". 

Por seu turno, as instituições alegam que, se pagam a publicação, é correto censurar. JT Coopman, presidente da Associação de Superintendentes da Escola Pública do Indiana, disse, num comité legislativo em 2018, que as "publicações patrocinadas pelas escolas são uma ferramenta de relações públicas" e que, "sem a supervisão das direções escolares", uma publicação deste tipo "pode-se tornar um pesadelo de relações públicas". Os diretores reservam-se no direito de censurar artigos que podem levar ao suicidio dos visados, criar falsas alegações ou ser controversos e criar desacatos dentro da escola. 

Esta justificação foi usada na escola secundária de Burlington, no estado de Vermont. Quatro estudantes obtiveram legalmente documentos da Agência de Educação do estado norte-americano e escreveram um notícia sobre uma investigação a um conselheiro da instituição. As conclusões eram claras: Mario Macias teria falsificado registos, humilhado colegas do sexo feminino e afastar um professor. Noel Green, o diretor da escola, obrigou à retirada da notícia. Em causa estaria o facto da notícia ter criado "um ambiente de trablaho hostil" para o conselheiro. 

No entanto, a escola "bateu em retirada" uns dias mais tarde. Os estudantes chamaram a atenção da escola para o facto de que aquele ato ser contra as leis estaduais de proibir uma notícia apenas e só porque o assunto é controverso ou porque é crítico da adminsitração escolar. A notícia foi republicada e os estudantes continuaram a acompanhar o assunto. 

Halle Newman, uma das redatores do artigo, refere que "ser censurada é realmente fustrante" mas, "ao mesmo tempo, quando algo é censurado, tu percebes que o foi porque é sobre algo importante". 

Censura ganha terreno

Num momento em que o poder político norte-americano, encabeçado por Donald Trump, trava uma guerra sem quartel com a imprensa, a censura (ou mesmo a auto-censura) começa a ganhar terreno por entre os estudantes de verem os seus trabalhos censurados pelas direções. 

O impacto maior é nas raparigas. Segundo um questionário citado pela BuzzFeed News, dos 461 inquiridos, 38% deles já receberam ordens de um funcionário escolar para não fazer escrever sobre determinado assunto. Do mesmo modo, metade das raparigas inquiridas têm receio de escrever sobre determinados assuntos com medo da reação da escola, assim como 27% dos rapazes. "O que se pode tirar disto é que o que os diretores queriam relamente é que os media escolares fossem todos cheerleaders" da escola, brinca Genelle Belmas, professora na Universidade do Kansas e coordenou este estudo. No entnato, a conclusão é mais séria. "Eles não querem que assuntos difíceis sejam alvo de análise: querem que isso seja varrido para debaixo do tapete", indica. 

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