Lego, hip-hop e deepfakes: como o Irão usa inteligência artificial para moldar a opinião ocidental

O conflito que envolve o Irão está a revelar novas lições sobre a forma como a inteligência artificial está a ser utilizada como arma na guerra moderna e na política internacional.
BlackWhaleMedia

Este artigo é uma tradução para português de Portugal de um artigo em inglês da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL).

Desde vídeos virais ao estilo Lego e faixas de hip-hop geradas por Inteligência Artificial (IA) até imagens fabricadas de campos de batalha, a guerra no Irão está a revelar como a IA tem sido convertida numa arma tanto na guerra como na diplomacia modernas.

Para analisar esta rápida mudança, a RFE/RL falou com Max Lesser, analista sénior de ameaças emergentes no Centro de Inovação Cibernética e Tecnológica da Foundation for Defense of Democracies (FDD).

RFE/RL: Tem acompanhado de perto as operações de influência iranianas. Quão sofisticado se tornou o Irão no espaço online? Estamos a assistir ao desenrolar da primeira verdadeira guerra de IA do mundo no Irão?

Max Lesser: O Irão tem-se tornado cada vez mais sofisticado nas suas operações de influência online. Houve, sem dúvida, uma mudança significativa. Os vídeos de Lego criados por IA são, provavelmente, um dos esforços de propaganda mais bem-sucedidos que já vi sair do Irão com o objetivo de atingir públicos estrangeiros. No entanto, este é apenas um tipo de operação de influência iraniana. Já realizaram operações de roubo e fuga de informação (hack-and-leak) bem-sucedidas, por exemplo, contra a campanha de Donald Trump na preparação para as eleições de 2024, e têm um longo historial de operações agressivas de influência direcionadas a públicos externos.
Não diria, pessoalmente, que esta é a primeira guerra de IA. Em conflitos anteriores, como durante a guerra de 12 dias [em junho de 2025], o Irão já criava e disseminava deepfakes nos meios de comunicação estatais e canais semelhantes.
O que distingue o momento atual é que, apesar do longo historial do Irão no uso da IA em operações de influência dirigidas ao exterior, creio que até agora não o tinham feito com particular sucesso. Neste momento, estão a ter um impacto maior porque descobriram como usar a IA para comunicar com os norte-americanos de formas que geram empatia, através de música hip-hop e vídeos Lego. Aparentemente, até existem americanos simpatizantes a sugerir-lhes o que devem incluir no próximo vídeo.
Portanto, não é a primeira vez que o Irão utiliza IA em propaganda e operações de influência, nem é a primeira vez que o faz em tempo de guerra. Contudo, considero que é a primeira vez em que vemos a sua utilização de IA causar um impacto tão evidente.

“A Guerra Psicológica é fundamental”

RFE/RL: Para compreendermos a real dimensão desta situação: quando as pessoas no Ocidente navegam nas redes sociais durante este conflito, que percentagem do que veem poderá ser efetivamente falsa?

Lesser: É difícil quantificar, uma vez que o feed de cada pessoa é diferente, consoante as preferências e os algoritmos. Mas, no que toca a falsificações e deepfakes especificamente, sempre que as pessoas veem vídeos que alegam mostrar ataques ou imagens de combate, devem verificá-los antes de acreditarem. Por vezes, há imagens reais de ataques bem-sucedidos, mas há também muitas técnicas a ser utilizadas para fabricar ou manipular imagens.
E não é apenas o Irão que o faz. Na verdade, comecei a monitorizar este tipo de comportamento há anos, quando os Houthis, um grupo aliado do Irão, usavam imagens geradas por IA de navios em chamas durante os ataques no Mar Vermelho.
Existe, inequivocamente, um precedente para este tipo de comportamento. Isto acontece há anos. Sempre que as pessoas se deparam com esse tipo de imagens, devem ter cautela e procurar fontes de verificação fora das redes sociais.

RFE/RL: O Irão está a utilizar a IA maioritariamente para disseminar propaganda ou para criar, de forma deliberada, confusão e pânico no Ocidente? O que procuram, exatamente, comunicar através destas campanhas?

Lesser: Uma grande parte passa por contar a sua versão da história e espalhar narrativas, como a de que os EUA são imperialistas e de que o Irão representa a resistência a essa opressão. Muitas das mensagens tentam alinhar o governo iraniano e a sua luta contra a América com as causas progressistas nos Estados Unidos.
Num dos seus vídeos de Lego recentes, mostraram um homem iraniano à conversa com um ativista liberal anti-Trump em Portland. Também fizeram referências aos protestos do movimento Black Lives Matter e a manifestações anti-Trump.
Há um vasto volume de mensagens concebido para apelar a públicos específicos na América: pessoas que são contra a guerra e contra Trump. Surpreendentemente, viu-se até a utilização de imagens com as cores do arco-íris, apesar de o Irão ser um país que persegue fortemente a homossexualidade. Estão a usar narrativas e imagens de forma estratégica, as quais acreditam que irão ecoar junto dos públicos ocidentais.
Outro tema central é [o financeiro norte-americano e abusador de menores condenado, Jeffrey] Epstein. Frequentemente, referem-se às elites americanas e israelitas como a “classe Epstein” e tentam retratar-se como parte de um movimento global de resistência contra as elites corruptas. Mais uma vez, o fator mais poderoso é a narrativa. É isso que atrai os cliques.

RFE/RL: Sabe-se quem, dentro do sistema iraniano, está a coordenar estas campanhas? E até que ponto é que isto é automatizado, envolvendo bots, influenciadores sintéticos, contas geradas por IA, etc.?

Lesser: Um ator importante é a Basij, a força paramilitar voluntária do Irão. A Basij dispõe de unidades focadas especificamente em propaganda e operações psicológicas. Muito desse trabalho destina-se ao plano interno. A Basij utiliza as operações de influência como uma ferramenta de controlo interno contra a população iraniana.
Eles inundam as redes sociais iranianas e as plataformas ocidentais, como o X, com propaganda em língua persa dirigida aos iranianos e à sua diáspora. Na FDD, documentámos centenas destas contas, embora acreditemos que existam provavelmente milhares envolvidas nesta atividade.
Depois, existem diferentes unidades no interior [do Corpo da Guarda Revolucionária do Irão], bem como o Ministério de Informações e Inteligência do Irão, conhecido como MOIS. Todos estes grupos têm estado envolvidos em operações de influência, ciberataques e guerra de informação.
A emissora estatal do Irão, a IRIB, também desempenha um papel, semeando propaganda a nível interno que, mais tarde, se espalha para o estrangeiro. Porém, existe também uma zona cinzenta onde civis pró-regime participam de forma independente ou semi-independente.
Por exemplo, os criadores dos vídeos em Lego negaram, numa fase inicial, terem ligações ao governo iraniano, mas mais tarde admitiram que o executivo era um dos seus clientes. O que continua por esclarecer é se recebem ordens diretas de Teerão ou se produzem simplesmente conteúdos que o governo distribui posteriormente.

RFE/RL: Para além do X e do TikTok, existem plataformas específicas que o Irão esteja a usar como arma contra o Ocidente, como o Telegram, o Instagram ou outras?

Lesser: Sem dúvida. O Telegram é amplamente utilizado para coordenação, visto que é menos popular entre os americanos e oferece menos restrições. Temos observado operações de influência iranianas a recorrer ao Telegram para recrutar e coordenar participantes.
A Meta também divulgou um relatório no início do conflito a explicar que agentes iranianos se faziam passar por americanos no Facebook e no Instagram para interagirem diretamente com o público dos EUA.
Criavam também meios de comunicação e organizações noticiosas fictícias. Plataformas como a Meta tendem a aplicar as suas políticas de forma mais agressiva, sendo essa a razão pela qual o Irão recorre frequentemente a táticas mais dissimuladas nessas redes.

RFE/RL: Tem alertado para os ecossistemas de influência autoritária. Quão estreita é, atualmente, a colaboração online entre o Irão, a Rússia e a China?

Lesser: É muito difícil provar uma coordenação operacional direta. Pessoalmente, não vi provas concretas de que troquem mensagens nos bastidores e coordenem campanhas de propaganda em conjunto. No entanto, utilizam inequivocamente os conteúdos uns dos outros, refletem as mesmas narrativas e copiam táticas entre si.
A Rússia foi, na verdade, uma das pioneiras neste espaço com contas falsas, operações de pirataria e divulgação de dados, e campanhas de influência ocultas. O Irão e a China aprenderam com esses modelos e desenvolveram as suas próprias versões.
Por exemplo, a Rússia levou a cabo a [operação] hack-and-leak contra a campanha [presidencial] de [Hillary] Clinton em 2016, enquanto o Irão conduziu uma operação semelhante e de grande visibilidade, tendo como alvo a campanha de Trump em 2024.
Embora não possa afirmar que exista uma coordenação confirmada, estão claramente a aprender uns com os outros, a reproduzir-se e, por vezes, a copiarem-se diretamente.

RFE/RL: Os Estados Unidos estão preparados para este tipo de guerra psicológica impulsionada pela IA?

Lesser: Não me parece. Basta olhar para o que aconteceu com os vídeos em Lego. Não existiu uma resposta propriamente dita e significativa por parte dos Estados Unidos. Mas também é difícil saber qual deveria ser a resposta. Não podemos simplesmente retirar estes vídeos da Internet. Temos uma Internet livre e aberta, bem como leis que protegem a liberdade de expressão.
Mesmo que os eliminem de uma plataforma, reaparecerão noutro lado: no Telegram ou noutras plataformas com menos moderação. Portanto, a solução não passa apenas pela remoção de conteúdos. A América tem de educar a sua própria população sobre quem é o regime iraniano, como oprime a sua população e como utiliza a propaganda de forma estratégica. Em última análise, é isso que tornará as pessoas menos suscetíveis a estas campanhas.

RFE/RL: As redes de influência iranianas estão a focar-se nos públicos americano e europeu de forma diferente de modo a explorarem a polarização política dentro das democracias ocidentais?

Lesser: Adaptam, sem dúvida, a mensagem. Por exemplo, promoveram narrativas de independência da Escócia através de contas encobertas que visavam o público escocês. Criaram igualmente meios de comunicação franceses falsos e campanhas direcionadas na Europa.
Mas muitas das narrativas que utilizam na América também geram eco na Europa: as mensagens anti-Trump, a retórica anti-guerra e as narrativas contra o sistema estabelecido. No fundo, o que estão a dizer é: “És contra o Trump? Nós também somos. És contra esta guerra? Nós também somos contra esta guerra.” Depois, embalam essas narrativas em vídeos de Lego emocionalmente envolventes e com músicas cativantes, o que faz com que as pessoas se comecem a sentir emocionalmente alinhadas com eles.
O governo norte-americano precisa de fazer um trabalho melhor na forma como informa o público sobre a real brutalidade do regime iraniano, como trata a sua própria população e há quanto tempo apoia o terrorismo e a repressão.
O Irão está a contar uma história. Os Estados Unidos precisam de responder, contando uma história mais forte e verdadeira.

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