Em 2010, criei a rádio kapa. Não havia plano, não havia orçamento, não havia audiência garantida. Havia música — muita música — e a vontade de a partilhar com quem quisesse ouvir.
Seis anos depois, quando fui despedido injustamente, a resposta natural foi criar. Não por terapia, não por impulso — mas porque sempre acreditei que era possível fazer jornalismo independente, sério e factual, sem pedir autorização a ninguém. O Largo do Beco nasceu assim, em agosto de 2017, numa plataforma de blogues que entretanto está para encerrar. Mais tarde passou a chamar-se o largo.. O ponto final era intencional.
Quinze anos depois, o projeto ainda existe. Isso não é pouco.
Nesse tempo, atravessei plataformas que encerraram, migrações forçadas, períodos de silêncio e de dúvida. Acumulei custos do meu próprio bolso, sem retorno financeiro. Mantive uma rádio a emitir 24 horas por dia com uma grelha de programação que inclui nomes como Robin Schulz, DJ Chus e Ori Uplift — e que todas as semanas leva aos ouvintes o Airplay40, o top 40 europeu apresentado pelo locutor britânico Spencer James. Estabeleci parcerias formais.
Fiz tudo com diversas pessoas sensacionais que se foram cruzando no meu caminho e fizeram dos vários projetos uma experiência única e intensa. Mas muito do trabalho foi solitário, com noites mal dormidas ou com um trabalho permanente e dedicado a resolver problemas que surgiam, enquanto o tempo que tinha se foi esvaindo para outras necessidades.
Não escrevo isto para impressionar. Escrevo porque só recentemente percebi que o problema nunca foi o projeto — foi a clareza. o largo. tentou ser demasiadas coisas ao mesmo tempo: gastronomia, moda, sustentabilidade, entretenimento. Perdeu-se na tentativa de agradar a todos e acabou por não ser reconhecível para ninguém.
Em janeiro de 2026, o SAPO Blogs anunciou o encerramento. o largo. regressou à sua plataforma própria — o endereço mantém-se: olargo.pt. E dessa vez, em vez de apenas migrar o conteúdo, decidi migrar também o foco.
A partir de agora, o largo. organiza-se em torno do que sempre foi o seu coração: música, media e cultura portuguesa. O menu está a ser simplificado. As categorias que não faziam sentido estão a ser removidas. A rádio passa a ter mais destaque — porque é o elemento que mais nos distingue de qualquer outro projeto independente português.
Não faço promessas sobre o que vai ser o largo. amanhã. Quinze anos ensinaram-me que os projetos não se constroem com declarações — constroem-se com consistência. Com a honestidade de dizer o que somos e o que não somos.
O que somos: uma publicação digital independente com foco em música, media e cultura portuguesa, com uma rádio que emite 24 horas por dia.
O que não somos: um meio de comunicação generalista, uma redação com recursos ou um projeto que cresce depressa.
O que queremos ser: uma voz reconhecida. Com tempo.
Mas mantenho uma certeza: queremos continuar a ter o mundo num blogue.
