Este artigo é uma tradução para português de Portugal de um artigo em inglês da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL).
O WhatsApp está a sofrer fortes limitações de velocidade. O Telegram está prestes a ser bloqueado. Os soldados estão furiosos. O Max, uma aplicação de mensagens com o apoio do Estado, está a ser imposto a todos. Os comandantes alertam que o Max não é seguro. O cidadão russo comum tenta evitá-lo.
Ah! E, como se não bastasse, a Internet móvel está a ser desligada em todo o lado, pelo que, na moderna Moscovo do século XXI, não é possível chamar um táxi, encomendar entrega de comida ou sequer consultar um mapa online.
Na capital russa, uma cidade hiperconectada e dependente das redes móveis — para não falar de muitas outras vilas e cidades pelo país fora —, a Internet, juntamente com as aplicações de que os russos dependem para o seu quotidiano, está a colapsar.
Se perguntarmos ao Kremlin como está a lidar com a situação:
“Estamos a usar telefones fixos”, afirmou o porta-voz Dmitry Peskov.
Mas se perguntarmos ao cidadão russo comum:
“Eles têm todos carros com luzes prioritárias da polícia e nós nem sequer conseguimos chamar um táxi ou reservar um veículo partilhado”, desabafou Maksim, que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, referindo-se aos pirilampos intermitentes, amplamente detestados pela população, que os governantes utilizam para contornar o infame trânsito de Moscovo.
No início deste mês, contou Maksim, chegou atrasado ao trabalho na sua deslocação desde o subúrbio de Zelenograd, devido aos cortes de Internet no centro de Moscovo.
“Não havia absolutamente qualquer rede. Por isso, apanhei um comboio suburbano, depois o metro, e ainda tive de andar quase dois quilómetros a pé até ao nosso armazém”, relatou à RFE/RL Siberia.Realities. “Nem sequer consegui pagar o aluguer de uma trotineta elétrica.”
O mundo digital russo está a ser agitado por uma série de tensões cruzadas, na sua maioria resultantes da tentativa dos reguladores governamentais e das principais agências de segurança do país em impor um controlo mais apertado sobre os cidadãos comuns: o que leem, o que veem, o que partilham, o que encomendam, como pagam.
Basicamente, tudo o que fazem online.
“Uma parte significativa dos moscovitas está habituada a uma experiência de Internet muito confortável, habituada a viver em canais acolhedores do Telegram e a comunicar através de uma aplicação de mensagens muito prática. Agora, os moscovitas estão a ser expulsos desse ambiente bastante confortável”, explicou Igor Yakovenko, sociólogo russo, ao Serviço Russo da RFE/RL.
“O Kremlin está a tentar transformar a Internet russa num ecossistema fechado, em que todos os serviços importantes são controlados e acessíveis” ao Serviço Federal de Segurança (FSB), escreveu a comentadora russa Maria Kolymchenko num artigo para o Carnegie Russia Eurasia Center, com sede em Berlim. “Se existem plataformas estrangeiras que ainda não foram bloqueadas, é apenas porque ainda não há uma alternativa nacional viável.”
O que se passa?
Estas convulsões derivam de uma série de medidas políticas lideradas pelo regulador estatal de tecnologia, o Roskomnadzor, com o apoio do Kremlin.
A primeira está relacionada com as aplicações de mensagens.
Há vários anos que os reguladores têm vindo a trabalhar com líderes da indústria tecnológica russa para desenvolver alternativas às duas aplicações de mensagens mais populares entre os russos: o WhatsApp, detido pela empresa-mãe do Facebook, e o Telegram, propriedade de Pavel Durov, empresário tecnológico exilado.
O Roskomnadzor tem vindo a estrangular gradualmente as duas aplicações, reduzindo a sua velocidade para as tornar inutilizáveis. A agência tem adotado medidas semelhantes com o YouTube, o serviço de transmissão de vídeo mais popular no país, detido pela empresa-mãe da Google.
A imprensa russa avança que o Telegram poderá ser totalmente bloqueado no país a partir de 1 de abril.
Paralelamente, as autoridades têm promovido uma aplicação de mensagens alternativa desenvolvida pela VK, a gigante das redes sociais cujos quadros superiores incluem figuras ligadas ao Kremlin.
Essa aplicação, batizada de Messenger Max, foi lançada no ano passado com o apoio público do presidente Vladimir Putin. Desde então, os órgãos de comunicação estatais e alinhados com o Estado têm feito uma promoção agressiva da mesma.
As autoridades locais também têm exercido uma forte pressão sobre os russos para fazerem a transição. A partir de setembro, os novos dispositivos móveis adquiridos na Rússia terão de trazer o Max pré-instalado. Na semana passada, uma universidade de Moscovo anunciou que não entregaria os diplomas aos alunos finalistas a menos que estes instalassem o Max.
“A Rússia está a restringir o acesso ao Telegram para forçar os seus cidadãos a aderirem a uma aplicação controlada pelo Estado, criada para a vigilância e censura política”, acusou Durov numa publicação na rede social X no mês passado.
Porém, os russos estão a resistir à mudança e a procurar formas criativas de evitar a sua instalação nos telemóveis.
Por seu turno, o Telegram é amplamente utilizado não só pelos civis russos, mas também pelos soldados destacados para a Ucrânia, bem como pelos chamados Z Bloggers, que utilizam o Telegram para amplificar a propaganda de guerra e angariar fundos para si próprios e para as unidades militares.
O estrangulamento do Telegram — agravado pelas notícias de que os comandantes ordenaram a sua eliminação total dos telemóveis dos soldados — provocou um descontentamento aberto entre as tropas e os seus apoiantes públicos.
“Quem é que está a abrandar o Telegram?”, questionou Sergei Mironov, um proeminente deputado, num discurso indignado no mês passado. “Vão para a frente de batalha, para a [guerra]. Os rapazes que estão a derramar sangue — a única ligação que têm com as suas famílias e amigos é através do Telegram. O que é que estão a fazer, idiotas? Eu chamo os bois pelos nomes. Idiotas! O que é que estão a fazer?”
Aumentando ainda mais a frustração, os comandantes russos proibiram a utilização do Max nos telemóveis dos soldados, invocando preocupações de segurança com a aplicação, de acordo com vários canais pró-guerra proeminentes do Telegram.
“Toda esta cacofonia em torno do Telegram é ridícula. Ridícula. Estamos simplesmente a trabalhar contra o nosso próprio povo, a piorar-lhes a vida”, afirmou Andrei Bezrukov, um conhecido ex-agente “adormecido” das secretas russas que agora leciona numa universidade de Moscovo.
“Durante um período bastante difícil para o país, estamos a tentar — como poderei dizer? — aborrecer uma grande percentagem da nossa população, que naturalmente está a favor da vitória [na guerra da Ucrânia] e só quer o melhor”, considerou numa entrevista em vídeo.
Em fevereiro, os legisladores aprovaram nova legislação que confere ao FSB e a outras agências policiais e de segurança o poder de ordenar aos operadores móveis o corte do serviço a qualquer cliente, caso seja necessário.
“Eu nem sequer consigo contactar os meus entes queridos” – utilizador russo
Para agravar todo este cenário, somam-se as falhas na internet móvel, que começaram a causar transtornos a milhões de moscovitas por volta de 6 de março.
Noutras regiões fronteiriças, as autoridades justificaram os cortes temporários como medidas necessárias para travar os drones ucranianos, que frequentemente dependem das redes móveis locais para se orientarem. Vários dias após o início das perturbações em Moscovo, Peskov afirmou que as medidas foram tomadas “no interesse da segurança”, sem adiantar detalhes.
Alguns russos desabafaram a sua indignação com os cortes no Dia Internacional da Mulher, publicando diretamente na página da VK do Roskomnadzor, abaixo das felicitações da agência para o feriado que é amplamente celebrado na Rússia.
“Obrigado por desligarem a Internet no dia 8 de março — que belo presente! Nem sequer consigo contactar os meus entes queridos para os felicitar”, escreveu um utilizador.
O impacto económico das falhas foi considerável, de acordo com o jornal Kommersant, que estimou perdas para as empresas de Moscovo entre os 3 e os 5 mil milhões de rublos (cerca de 32 a 53 milhões de euros) durante os primeiros cinco dias de cortes. Os mais afetados foram os retalhistas, os serviços de entrega de comida e estafetas e as empresas de carsharing.
Noutras grandes cidades, os russos já sofrem cortes nas redes móveis há meses. Em Petropavlovsk-Kamchatsky, uma cidade numa península da costa do Pacífico que fica a mais de 7 200 quilómetros da Ucrânia, registaram-se falhas em junho passado, tal como em Irkutsk, na Sibéria, onde os habitantes locais demonstraram pouca simpatia para com os moscovitas.
“Bem, agora vão sentir a nossa dor”, atirou uma mulher de Irkutsk que se identificou apenas pelo primeiro nome, Natalya.
“Em junho, começaram a abrandar a nossa Internet, no final do ano houve um bloqueio total, e agora a situação é tal que pode ser bloqueada a qualquer momento, durante vários dias ou semanas”, disse à RFE/RL Siberia.Realities. “Mesmo quando a rede está a funcionar, a velocidade é muito lenta — não conseguimos enviar vídeo ou áudio.”
A confusão e a frustração suscitaram reações irónicas por parte da Ucrânia, onde o Telegram, o I e a Internet não sofrem restrições.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, antigo ator de comédia na sua carreira anterior, provocou Putin por causa dos apagões na Internet.
“Isto é, sabem, um passo atrás, um recuo de 100 anos”, disse aos jornalistas na semana passada. “Qualquer dia, mais vale passarem para o correio em papel, telegramas e cavalos. É este o tipo de civilização que eles têm. Talvez o Putin até goste. Talvez seja assim que ele se volta a sentir jovem.”
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