Bloqueio digital de Moscovo: falhas na internet móvel atingem capital da Rússia

Residentes deparam-se com constrangimentos no acesso a serviços essenciais, como pagamentos eletrónicos, aplicações de transporte e ferramentas de navegação.
Mehaniq41/Envato Elements

Este artigo é uma tradução para português de Portugal de um artigo em inglês da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL).

Uma vaga de cortes na internet móvel atinge Moscovo há mais de uma semana, causando fortes constrangimentos no dia a dia da cidade e avolumando receios sobre até que ponto o governo de Vladimir Putin estará disposto a ir para reforçar o controlo sobre a atividade online.

Habitantes e empresas desta cidade com mais de 12 milhões de pessoas enfrentam dificuldades no acesso a um vasto leque de serviços, desde pagamentos digitais a aplicações de táxis e sistemas de navegação. Numa cidade tecnologicamente avançada e que concentra grande parte da riqueza da Rússia, as vendas de artigos analógicos, como pagers e mapas em papel, dispararam.

Desde o início de grande parte dos cortes, a 7 de março, a situação tem vindo a agravar-se. Até mesmo as páginas incluídas na “lista branca” do governo — plataformas alinhadas com o Estado que, em teoria, estariam isentas destas restrições — ficaram inacessíveis.

Oficialmente, o Kremlin atribui estas falhas a um reforço das medidas de segurança, sem, no entanto, adiantar grandes pormenores.

“Kiev está a utilizar métodos de ataque cada vez mais sofisticados, pelo que a Rússia necessita de medidas de proteção com uma exigência tecnológica crescente”, justificou o porta-voz da presidência russa Dmitry Peskov a 12 de março. A declaração surge no contexto das retaliações ucranianas à invasão russa em grande escala, um conflito que entrou agora no seu quinto ano.

Os críticos do regime alertam que as autoridades estatais invocam frequentemente questões de segurança como pretexto para restringir a vida e as liberdades dos cidadãos.

“A liderança da Rússia é, pura e simplesmente, muito cobarde. Tão cobarde que as liberdades civis, a economia ou o bem-estar das pessoas lhe são indiferentes. Não se importa absolutamente nada com isso”, acusa Mikhail Klimarev, ativista e diretor da organização Internet Protection Society.

Embora outras regiões do país já sofram interrupções há vários meses, os bloqueios na capital estão a gerar maior repercussão.

“A internet móvel tem sido cortada na Rússia desde junho de 2025. E só agora é que tudo isto chegou a Moscovo”, explicou Klimarev à Current Time.

De acordo com os residentes, a rede móvel tem estado inoperacional em praticamente toda a cidade de Moscovo, afetando tanto as zonas centrais como os bairros periféricos.

“Trabalho como freelancer e preciso de uma boa ligação à internet. Tive de fazer um desconto a um cliente porque não consegui cumprir o prazo de entrega”, relatou Alina, habitante de Moscovo, à RFE/RL Siberia.Realities.

Há anos que o governo de Putin procura controlar e limitar o acesso dos russos à internet. As autoridades têm visado gigantes ocidentais como o Facebook, a Google, a Apple e a Amazon, impulsionando simultaneamente alternativas nacionais, sobre as quais exercem maior controlo.

Ativistas e outros observadores suspeitam que o bloqueio da rede em Moscovo esteja a servir como balão de ensaio para o sistema de “listas brancas” de páginas autorizadas.

Este diretório restrito de recursos, disponível durante os apagões digitais, começou a ser testado no verão passado. A lista inclui sites de operadoras de telecomunicações, órgãos de comunicação social pró-Kremlin, agências governamentais, plataformas de comércio eletrónico e redes sociais como a Odnoklassniki e a VK (ex-VKontakte).

O Telegram, a aplicação de mensagens mais popular na Rússia, também tem registado problemas de acesso, à semelhança do que acontece com o WhatsApp.

“A acessibilidade ao Telegram caiu 80%”, escreveu Klimarev a 16 de março, numa comparação com o dia anterior.

No ano passado, a Rússia lançou o Max, a sua própria aplicação de mensagens com o apoio do Estado, mas a iniciativa enfrenta forte contestação por parte dos críticos, que a encaram como uma ferramenta de vigilância estatal. A imprensa oficial desvaloriza estas preocupações, garantindo que se trata de uma plataforma segura e independente.

A 20 de fevereiro, Putin assinou uma lei que obriga as operadoras de telecomunicações a suspenderem os serviços a pedido do Serviço Federal de Segurança (FSB). Paralelamente, as autoridades isentaram as empresas de qualquer responsabilidade perante os clientes caso a interrupção decorra do cumprimento das exigências dos serviços de informações.

A censura de conteúdos online para reprimir a oposição, a monitorização do tráfego na internet em nome da segurança e o controlo apertado sobre os meios de comunicação social são práticas antigas do governo russo. A repressão estatal sobre a liberdade de expressão, de reunião e outras garantias fundamentais ganhou força com o regresso de Putin à presidência em 2012, e sofreu um novo agravamento desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022.

Copyright (c)2024 RFE/RL, Inc. Used with the permission of Radio Free Europe/Radio Liberty, 1201 Connecticut Ave NW, Ste 400, Washington DC 20036.

Total
0
Shares
Artigo anterior

RFI Noticiário - 1.ª edição (18 de março de 2026)

Artigo seguinte

RFI Noticiário - 2.ª Edição (18 de março de 2026)

Há muito mais para ler...
Ler +

O Caos com o Max, o Telegram e não só: a paciência dos russos posta à prova pelos problemas online

As autoridades passaram anos a testar ferramentas, a desenvolver aplicações e a tentar restringir a forma como os russos utilizam a Internet. As falhas generalizadas na rede e a confusão em torno das aplicações de mensagens estão a testar a paciência da população.