A “Gaza Humanitarian Foundation” (GHF), uma nova e controversa iniciativa apoiada pelos Estados Unidos da América (EUA), surgiu para controlar o fluxo de ajuda a Gaza, gerando preocupações de que ela possa servir como uma ferramenta para consolidar ainda mais a ocupação israelita.
Este desenvolvimento aconteceu após um cerco severo de mais de 70 dias que deixou o território em condições catastróficas, com o coordenador de segurança alimentar da Oxfam em Gaza a afirmar que as pessoas estão a morrer de fome.
A GHF está a ser apresentada como uma alternativa segura e eficiente aos canais de ajuda tradicionais, geridos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por outras organizações não governamentais (ONG), os quais têm sofrido ataques sistemáticos e tentativas de desmantelamento por parte de Israel. Com uma equipa formada por veteranos militares dos EUA, ex-funcionários e financiadores corporativos, a GHF tem como objetivo fornecer ajuda a 1,2 milhões de palestinianos através de centros de distribuição privados e seguros, com planos de expansão até mais de 2 milhões de pessoas.
No entanto, uma análise mais detalhada dos documentos de apresentação da fundação revela uma intenção diferente. A Equipa Humanitária para Território Palestiniano Ocupado [“Humanitarian Country Team” (HCT)], que é composto por um conjunto de organizações, cada uma trabalhando numa determinada área de especialização, incluindo autoridades locais, ONG e agências da ONU, divulgou uma posição em que adverte que a Gaza Humanitarian Foundation “contraria princípios humanitários fundamentais e parece ter sido criada para reforçar o controlo sobre itens essenciais à sobrevivência como tática de pressão — conforme parte de uma estratégia militar”.
Além disso, a HCT deixou clara a sua posição, demarcando-se de qualquer plano que viole os princípios humanitários universais de humanidade, imparcialidade, independência e neutralidade.
Centros de ajuda blindados e controlo biométrico
O projeto da GHF propõe criar quatro centros de ajuda fortificados em Gaza, cada um deles concebido para atender cerca de 300 mil pessoas e a funcionar sob a supervisão de empresas privadas de segurança.
De acordo com o plano, os comboios de ajuda passarão por corredores rigorosamente controlados e monitorizados para entregar refeições pré-embaladas, água e mantimentos nos designados “Locais de Distribuição Segura”. Nesses centros, centenas de milhares de gazenses formarão filas para receber ajuda sob a vigilância de guardas armados.
O embaixador dos EUA em Israel Mike Huckabee afirmou que o único envolvimento das tropas israelitas seria garantir a segurança do perímetro desses centros, enquanto as empresas privadas seriam as responsáveis pela segurança dos trabalhadores que entram nessas instalações e pela entrega dos própriosalimentos. No entanto, o próprio documento da GHF indica que todos os movimentos serão coordenados com o exército israelita e com a unidade de Coordenação das Atividades Governamentais nos Territórios (COGAT) para “acesso e resolução de conflitos”.
Apesar da GHF afirmar, no documento apresentado, que a distribuição de ajuda dentro dos centros não terá “quaisquer requisitos de elegibilidade” e que será “baseada exclusivamente na necessidade”, foi noticiado de que o acesso a esses centros exigirá que os beneficiários da ajuda passem por um rastreio biométrico e tecnologia de reconhecimento faci, ambos efetuados por soldados israelitas para determinar quem pode passar.
Outros relatórios indicam que o plano mais amplo de Israel permitirá a entrada de apenas 60 camiões de ajuda por dia em Gaza, uma redução drástica em relação aos 600 camiões que entravam diariamente durante umo breve cessar-fogo no início deste ano. Jens Laerke, do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (ENUCAH), afirmou que as propostas de Israel “não cumprem o mínimo exigido para um apoio humanitário pautado em princípios”.
Uma estrutura estrangeira sem participação local
A GHF é liderada inteiramente por agentes estadunidenses e internacionais, incluindo vários oficiais militares e diplomáticos dos EUA, sem qualquer envolvimento palestiniano na liderança ou na supervisão do projeto, o que, basicamente, retira qualquer poder de ação das autoridades locais e da sociedade civil.
Formalmente registada em Genebra, a GHF foi constituída com um advogado suíço, um consultor jurídico sediado nos EUA e um financiador armnio no seu conselho de administração — nenhum deles aparenta ter experiência pública ou histórico em trabalho humanitário.
Logística, segurança e princípios humanitários
A GHF afirma que o seu modelo foi desenvolvido para ser independente, auditável e livre de interferências de agentes armados ou de governos. A proposta do grupo enfatiza o compromisso rigoroso com os quatro pilares do trabalho humanitário – humanidade, neutralidade, imparcialidade e independência — como base das operações da fundação, afirmando que sua única lealdade é para com “aqueles que sofrem e estão em necessidade, independentemente de sua identidade ou circunstância”.
Os mantimentos seriam transportados por meio de “corredores humanitários seguros” utilizando veículos blindados, com a segurança do perímetro garantida por profissionais que anteriormente atuaram na proteção do Corredor de Netzarim durante a breve cessar-fogo ocorrida em janeiro deste ano.
As três empresas privadas de segurança conhecidas por terem operado anteriormente no Corredor de Netzarim são a UG Solutions, a Safe Reach Solutions e a Sentinel Foundation. Jameson Gonolvini é sócio-gerente da UG Solutions e cofundador da Sentinel Foundation. Ele também é um ex-oficial das Operações Especiais do Exército dos EUA. Glenn Devitt é o outro fundador da Sentinel, tendo servido também no Exército dos EUA como oficial dos serviços secretos militares, com destacamentos tanto no Iraque quanto no Afeganistão. Já a Safe Reach Solutions foi fundada por Philip Reilly, outro oficial reformados dos serviços secretos dos EUA e que desempenhou diversos cargos na CIA, incluindo o de oficial paramilitar sénior da agência no Afeganistão.
A proposta afirma que cada local de distribuição seguro pode tornar-se uma área de apoio para outras atividades de ONG e a GHF considera a possibilidade de oferecer “alojamento seguro, chuveiros, casas de banho e espaços operacionais” para organizações de ajuda que optem por se instalar nas proximidades. A longo prazo, eles preve-se que “líderes comunitários de confiança” sejam treinados para atuar dentro destes sistemas.
Controlo e exclusão
Apesar de se descrever como “neutra”, a estrutura da GHF estabelece um regime logístico paralelo em Gaza. Toda a ajuda encaminhada através do seu sistema deve passar por corredores aprovados por Israel — Ashdod ou Kerem Shalom — e seguir os protocolos internos de controlo, segurança e auditoria da GHF. Esse sistema ignora a UNRWA, ONG palestinianas e redes de ajuda há muito estabelecidas e que antes serviam a população de Gaza.
A proposta da GHF inclui uma discriminação de custos de 1,31 dólares por refeição [cerca de 1,15 euros] : 0,58 dólares [cerca de 0,51 euros] para aquisições e 0,67 dólares [cerca de 0,59 euros] para logística, transporte blindado, segurança e administração.
Em termos de financiamento e supervisão, a GHF está inserida numa infraestrutura financeira ocidental de elite. Tem como bancos o Truist e o JP Morgan Chase, além de uma afiliada suíça apoiada pelo Goldman Sachs. A Deloitte também é mencionada como responsável pela auditoria.
Um projeto de governo sombra?
A GHF insiste que o seu único objetivo é salvar vidas e apresenta-se como uma solução pragmática diante de um sistema de ajuda em colapso. Contudo, a sua estrutura — composta por funcionários dos EUA, protegida por empresas privadas ligadas ao exército dos EUA, coordenada com o exército israelita e financiada por meio de redes financeiras ocidentais — representa uma mudança total sobre quem controla a ajuda em Gaza.
Não há supervisão de autoridades locais ou da ONU. A ajuda que esta iniciativa distribui passa por sistemas concebidos por e para atores estrangeiros — sob cerco, sob vigilância e sob ocupação.
O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu descreveu recentemente o objetivo das operações intensificadas em Gaza como a ocupação do território e o estabelecimento de uma presença duradoura. Nesse contexto, os centros de ajuda e o aparelho de segurança da GHF correm o risco de se tornar não numa infraestrutura emergencial, mas a plataforma de uma presença estrangeira de longo prazo disfarçada em linguagem humanitária.
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Este artigo, escrito por Saher, foi originalmente publicado no site Global Voices Lusofonia e republicado com adaptações para melhor compreensão n’o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0. |



