Metodologia permite extrair conhecimento a partir de modelos complexos.
por Universidade de Coimbra
O avanço acelerado das soluções baseadas em Inteligência Artificial (IA) tem levantado um dos maiores desafios atuais: a confiança humana nos modelos de alto desempenho, sobretudo pela dificuldade em compreender como tomam as suas decisões. Esta questão é particularmente crítica em ambientes industriais, onde é imperativo que os sistemas sejam não só exatos, mas também transparentes e explicáveis para garantir a segurança e eficácia das operações.
Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) propôs uma metodologia inovadora que permite extrair conhecimento interpretável a partir de modelos complexos de IA, tornando-os acessíveis aos operadores industriais. A abordagem baseia-se na utilização de sistemas de lógica difusa (fuzzy systems), para representar as dinâmicas dos processos industriais de forma simples, mas eficaz.
«Este método foi desenvolvido com base numa arquitetura do tipo “professor-aluno” (knowledge distillation), onde um modelo complexo (NFN-LSTM), que combina redes neuronais do tipo Long Short-Term Memory com lógica difusa, serve de referência para treinar um modelo mais simples e interpretável (NFN-MOD). Este último recorre a funções com entradas atrasadas para simular a memória temporal do processo, aliando desempenho à compreensibilidade», explica Jorge S. S. Júnior, aluno de doutoramento do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (DEEC) da FCTUC.
De acordo com a equipa de investigadores, esta investigação demonstrou a eficácia da metodologia em dois casos de estudo com dados reais: uma unidade de recuperação de enxofre e um processo de moagem na indústria cimenteira. Em ambos, o modelo NFN-MOD conseguiu replicar o comportamento do modelo professor com elevada precisão, ao mesmo tempo que oferecia explicações claras sobre os fatores que influenciam eventos críticos, como picos de emissões de gases nocivos ou variações na concentração de resíduos.
«Além disso, o modelo introduz uma nova forma de análise contextual, permitindo aos operadores compreender melhor os diferentes cenários industriais e apoiar a tomada de decisões. O método promete, assim, aumentar significativamente a confiança nos sistemas de IA e otimizar o controlo de processos em ambientes industriais exigentes», conclui a equipa de investigadores.
Este trabalho foi desenvolvido no âmbito da tese de doutoramento de Jorge S. S. Júnior, sob orientação de Jérôme Mendes, investigador do Centro de Engenharia Mecânica, Materiais e Processos (CEMMPRE), e coorientação de Cristiano Premebida, investigador do Instituto de Sistemas e Robótica (ISR), em colaboração com Francisco Souza (imec-NL, OnePlanet Research Center, Países Baixos).
O artigo “Distilling Complex Knowledge Into Explainable T–S Fuzzy Systems”, publicado na revista IEEE Transactions on Fuzzy Systems, pode ser consultadoaqui. Esta publicação foi destacada na IEEE Computational Intelligence Society (CIS) Newsletter como “Research Frontier”.
Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto "Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa", promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.
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Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Andrea DiP, Ricardo Terto, Stela Diogo e Rafaela de Oliveira, com edição de Thiago Domenici, disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
O Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, citado pela agência WAFA (Agência de Notícias da Palestina), divulgou dados alarmantes na última terça-feira, 17 de junho: mais de 55 mil mortos e 130 mil feridos desde 7 de outubro de 2023. Uma guerra que já ultrapassa os 600 dias, com raízes históricas profundas, e que se expande com novos ataques a outros países do Oriente Médio, como os recentes bombardeios de Israel ao Irã.
Para analisar os conflitos em Gaza e as consequências globais do genocídio contra os palestinos, o Pauta Pública da semana recebeu o jornalista Ramzy Baroud. Descendente e refugiado palestino, Baroud viveu na pele perdas irreparáveis. Ele relata ter parado de contabilizar seus familiares mortos após a perda de 56 pessoas, incluindo sua irmã, uma médica assassinada por um drone israelense enquanto tentava salvar vidas. “Ela morreu em um massacre, depois de ver corpos mutilados implorando ajuda. Na última ligação que fez, me disse que seu corpo estava ali, mas seu espírito tinha morrido”.
Ao longo da conversa, Ramzy recorda as dores e denuncia o apagamento e a omissão global diante das mortes de civis inocentes. “Não é possível dizer que não sabíamos. Isso está acontecendo ao vivo, há mais de 600 dias. E ainda assim, seguem fornecendo armas, apoio político e legitimidade”, critica. Para ele, o que ocorre em Gaza não é um conflito: “Estamos lidando com psicopatas que chegaram a um ponto, em que não só deixaram de ver qualquer fragmento da humanidade de suas vítimas, como também perderam sua própria humanidade.”
Leia os principais trechos da entrevista e ouça o podcast completo para aprofundar a compreensão sobre este tema crucial.
A saga de uma família refugiada: vítimas de um genocídio em curso
Ramzy Baroud reflete sobre a complexidade de sua posição como intelectual e jornalista ao relatar uma história que afeta diretamente sua comunidade. “Isso cria não exatamente um dilema, mas te puxa emocionalmente pra dentro da história”. Ele menciona o conceito acadêmico de posicionalidade, onde se fala não apenas como narrador, mas como ator na história. Contudo, jamais imaginou que sua família seria vítima ativa de um genocídio.
O jornalista revela ter perdido “centenas, sem exagero, 56 membros da minha família direta” antes de interromper a contagem. “Não valia a pena continuar”, desabafa. Ele descreveu a angústia de receber mensagens de familiares no sul de Gaza perguntando sobre o destino de parentes no norte, a poucos quilômetros de distância, sem comunicação. A dificuldade de reportar sobre as perdas enquanto tenta humanizar as vítimas, ao mesmo tempo em que precisa fornecer números e estatísticas para dimensionar a tragédia, é um desafio constante. “É mais do que inacreditável e eu nem estou mais lá. Imagine estar em Gaza e viver essa experiência, sendo jornalista e sendo alvo do exército israelense.”
O sacrifício de uma médica: a história da irmã de Ramzy
Perguntado sobre sua irmã, Ramzy Baroud a descreve como muito mais do que uma médica comum. “Minha irmã foi um exemplo do empoderamento das mulheres em Gaza. Ela era uma líder comunitária”, contou. Ela mobilizava a comunidade para lidar com doenças e angariar fundos para hospitais. Entre cinco irmãos e uma irmã, ela era a única que permaneceu em Gaza, tornando-se a representante da família para aqueles que tiveram que partir.
Com o início da guerra, seu papel como médica e mãe se intensificou. Poucos meses antes de seu martírio, seu marido, chefe do departamento de direito da Universidade Al-Azhar e intelectual respeitado, foi morto. Ele tinha dificuldades de locomoção devido a um problema nervoso e era cuidado por ela. Quando o exército israelense atacou o sul de Gaza, ele se recusou a fugir, mas cedeu à insistência da família. Ele saiu com os filhos, mas foi atingido na cabeça por uma bala ou projétil de drone e morreu no local, implorando para que os filhos fugissem.
Os filhos se recusaram a deixar a área, mesmo em meio a massacres, na esperança de recuperar o corpo do pai. Essa busca se tornou uma obsessão para a irmã de Ramzy nos últimos meses de sua vida, mas ela não conseguiu dar um enterro digno ao marido. Ela vivenciou o massacre de Nuseirat, um campo de refugiados atacado pelo exército israelense com apoio americano.
Ramzy recorda a última ligação com a irmã: “Ela me disse que tinha morrido naquele dia, que ela só existia no corpo, mas sua mente, seu espírito, estavam em outro lugar.” Ela descreveu ter visto “centenas de corpos mutilados nas ruas”, implorando por ajuda. “Como eu reconstruo corpos mutilados quando não há recursos, nem assistência médica, nem nada? Eu simplesmente congelei”, conta Ramzy sobre o que disse a irmã. Ela percebeuque as pessoas continuavam morrendo em suas mãos. “Ela disse que morreu naquele dia.”
Após o trauma, a irmã de Ramzy buscou refúgio nos destroços de sua casa, onde dormiu por dias. Em uma de suas idas e vindas para o hospital Nazer, em Yunis, um drone israelense a perseguiu e a matou. “Foi claramente um ato de assassinato”, afirma Ramzy, explicando que Israel visava eliminar médicos palestinos que trabalhavam em áreas que desejavam destruir. “Mataram centenas de médicos e profissionais de saúde, e queriam ter certeza de que ela também fosse embora, e foi assim, sabe, que ela foi embora.”
O papel da comunidade internacional, dos governos e dos media
Ramzy Baroud critica a inação da comunidade internacional, governos e mídia diante do genocídio em Gaza. Ele argumenta que, embora em outras disputas a inação possa ser compreensível, no caso palestino, “todos sabiam o que estava acontecendo”. O discurso genocida, segundo ele, sempre fez parte do sionismo israelense por 100 anos, culminando na fala aberta de expulsar e eliminar palestinos. A desumanização, comparando palestinos a “bestas” ou “baratas”, é um discurso racista familiar em outros massacres históricos.
Para Ramzy, Israel não é o único responsável pelo genocídio. “Cada editor, cada jornal, cada autoridade, cada político, cada humanitário, cada pessoa que conhece o discurso vindo de Israel e o marginalizou intencionalmente, sem noticiar, também é responsável pelo genocídio.”
Aqueles que tentaram encobrir os crimes israelenses no início do genocídio também são cúmplices. Agora, até a grande mídia e líderes como Emmanuel Macron falam abertamente sobre genocídio e crimes de guerra. Baroud sugere duas razões para esse “súbito despertar moral” do Ocidente: primeiro, a tentativa de proteger seus legados históricos de uma mancha duradoura; segundo, a percepção de que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu não conseguiu “concluir o trabalho” após mais de 600 dias, levando-os a tentar “salvar” a situação.
Tortura em direto e conteúdo para redes sociais
Um novo e perturbador componente deste genocídio é a transmissão ao vivo da tortura e assassinato de civis, aliada à criação de conteúdo para redes sociais, critica Ramzy Baroud. Ele descreve vídeos de soldados israelenses dançando entre ruínas, destruindo casas, vestindo roupas de vítimas e jovens israelenses cantando sobre queimar vilas. Ele questiona como isso influencia a visão do mundo sobre o conflito.
Segundo ele, historicamente, a relação entre palestinos e israelenses era vista como um “conflito”. Embora se pudesse apoiar os palestinos e reconhecer a ocupação israelense, a ideia de “conflito” ainda prevalecia. No entanto, o que se vê agora “vai além de qualquer contextualização racional”. Ramzy descreve os perpetradores como “psicopatas” que não só perderam a capacidade de ver a humanidade de suas vítimas, mas também a sua própria humanidade. Ele argumenta que, se um psicopata não percebe sua condição, e é capacitado com armas e bombas por outros, permitindo-lhe “mutilar os mortos”, a situação se torna ainda mais grave.
Para ele, este genocídio difere de outros no passado por sua natureza contínua e pela impossibilidade de fuga para milhões de pessoas em um local já cercado e desnutrido. “Você está falando de um grupo de milhões de pessoas que estão vivendo em um local já cercado, já desnutridas, e não têm como escapar”, enfatiza. Mesmo as “zonas de segurança” se tornam locais de morte. “Estamos lidando com um tipo de genocídio que você nem sabe como processar mentalmente. Isso ocorre diariamente, e qualquer pessoa pode ser morta a qualquer momento e sem motivo algum.”
Este artigo foi originalmente publicado no site da Agência Pública e republicado na íntegra n’o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY-ND 4.0.
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O Conselho Superior de Magistratura foi alvo de um ataque informático este sábado, colocando o seu site indisponível. Segundo a CNN Portugal, a origem do ataque ainda não foi identificada.
O ciberataque focou-se apenas no site institucional, não havendo, atualmente, indícios de que outros sistemas com dados pessoais tenham sido atacados, até porque, ao contrário destes, o site está alojado num servidor externo e disponibiliza apenas informações públicas. Aos meios de comunicação social, o Conselho confirma o ataque e refere que o seu "Serviço de Informática está a proceder à análise e à reposição da plataforma a partir de cópias de segurança".
O site esteve a encaminhar os visitantes para um site indonésio de venda online de medicamentos até que a equipa informática conseguiu recuperar o controlo da plataforma. Atualmente, quem visitar a página verá um erro genérico, indicando a indisponibilidade da plataforma. A recuperação total poderá demorar alguns dias.
O ciberataque já foi comunicado às autoridades.
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Anúncio foi feito pelo presidente numa publicação na redes sociais.
por Radio Free Europe/Radio Liberty
Este artigo é uma tradução para português de um artigo da Radio Free Europe/Radio Liberty, a partir do original em inglês.
- em atualização -
O Presidente dos Estados Unidos da América Donald Trump referiu que os militares estadunidenses atacaram três instalações nucleares no Irão - Fordow, Natanz e Esfahan - e que os aviões que realizaram a missão já estão a regressar aos EUA.
“Concluímos o nosso ataque muito bem sucedido às três instalações nucleares no Irão, incluindo Fordow, Natanz e Esfahan”, escreveu Trump este sábado numa publicação nas redes sociais. "Todos os aviões estão agora fora do espaço aéreo do Irão. Uma carga completa de BOMBAS foi lançada no local principal, Fordow. Todos os aviões estão a caminho de casa em segurança", escreveu
A emissora pública israelita KAN citou um funcionário israelita que afirmou que os ataques foram efetuados em plena coordenação com Washington.
As autoridades iranianas não comentaram imediatamente o anúncio.
Trump estava a ponderar o envolvimento militar direto dos EUA na guerra entre Israel e o Irão e tinha previsto reunir-se com a sua equipa de segurança nacional este sábado. Agora diz que vai fazer um comunicado ao país às 22h00, hora local.
O anúncio foi feito apenas dois dias depois de Trump ter afirmado que decidiria “dentro de duas semanas” se se juntaria a Israel no ataque ao Irão no seu esforço para destruir as instalações nucleares iranianas.
Este sábado foi noticiado que os bombardeiros stealth B-2 dos EUA - capazes de transportar as chamadas bombas destruidoras de bunkers - estavam a sair dos Estados Unidos e a atravessar o Oceano Pacífico.
As autoridades estadunidenses e israelitas tinham dito anteriormente que os EUA eram o único país com capacidade para atacar as instalações nucleares iranianas enterradas no subsolo.
Trump repostou um post nas redes sociais no X pela Open Source Intel que dizia: “Fordow foi-se”.
Israel e o Irão têm trocado várias ondas de ataques devastadores desde que Israel lançou uma campanha aérea a 13 de junho, afirmando que Teerão estava prestes a desenvolver uma arma nuclear. O Irão nega que o seu programa nuclear vise a construção de uma bomba atómica.
O Presidente do Irão Masoud Pezeshkian afirmou ainda este sábado que o Irão não iria suspender o seu programa nuclear “em nenhuma circunstância” e o Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano Abbas Araqchi avisou que o envolvimento militar dos EUA no programa nuclear “seria muito, muito perigoso para todos”.
Falando à margem de uma reunião da Organização de Cooperação Islâmica na Turquia, Araqchi disse que o Irão estava aberto a mais diálogo, mas sublinhou que o Irão não tinha interesse em negociar com os EUA enquanto Israel continuasse a atacar.
Numa chamada telefónica com o Presidente francês Emmanuel Macron, Pezeshkian disse que o Irão estava “pronto para discutir e cooperar para criar confiança no campo das actividades nucleares pacíficas”.
“No entanto, não concordamos em reduzir as atividades nucleares a zero em nenhuma circunstância”, acrescentou, de acordo com a agência de notícias oficial iraniana IRNA.
Israel disse este sábado que matou mais três comandantes iranianos na sua ofensiva, enquanto o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do Irão anunciou que uma “vasta” onda de “drones suicidas” tinha sido lançada contra “alvos estratégicos” em Israel.
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"Nos últimos 20 anos fecharam mais de metade dos títulos regionais"
por José Vieira
No seguimento dos artigos onde falei e continuarei a falar sobre o jornalismo regional, temos que, sem sombra de dúvida, dedicar um capítulo para falar da forma como os órgãos de comunicação social regionais se formam e gerem, bem como também escamotear o que de facto está mal e devia ser corrigido, no que concerne ao financiamento das empresas que gerem os títulos de comunicação.
Primeiramente, temos de entender que os órgãos de comunicação regionais, antes de o serem, em primeiro lugar são empresas, ou outra qualquer forma jurídica fiscal, devidamente legal e autorizada. Depois de devidamente constituído o veículo comercial e fiscal, inicia-se o processo de registo junto à ERC, do novo órgão de comunicação pretendido. Após a aprovação, pode-se iniciar o trabalho de comunicação, seja em que formato for, através de texto, áudio, som, televisão, no online, impresso, ou em ambos.
O problema começa após 6 meses, em que e por via da dimensão da maior parte dos órgãos de comunicação regionais existentes, (arrisco dizer talvez mais de 80%), não existe capacidade financeira para criar uma estrutura comercial que traga retorno para a empresa detentora do título em atividade (salvo obviamente alguns títulos que o conseguem, felizmente). A parca publicidade angariada depressa se esgota, e o jornalismo regional não sendo apoiado estatalmente ou localmente, pelo trabalho que faz, sendo a primeira linha de uma democracia sã (dizem os entendidos), na minha opinião cada vez mais instável, não resta outra hipótese que é a de começarem a criar buraco financeiro, fechando a atividade algum tempo depois, ou mesmo emagrecerem o título para os serviços mínimos, ansiando que alguma coisa vá mudar no futuro.
Isto, caros leitores e colegas, advém da má regulação do setor por parte do estado, bem como de uma política de apoios financeiros, quase em exclusivo para os órgãos nacionais, em detrimento dos regionais. Aplaude-se o trabalho do jornalismo regional, no levantamento de questões fundamentais, na divulgação do que de melhor se faz, semanalmente, nos concelhos, mas depois não se criam mecanismos de apoio financeiros. Pede-se que façamos gratuitamente este trabalho, sem pensarem que existem custos e nem sempre a publicidade angariada cobre os custos de exploração (ordenados, equipamento, rendas e gestão diária).
A publicidade nacional privada, raramente baixa aos regionais, fruto de e mais uma vez, uma má regulação do setor. Eu percebo que não caiba ao governo dizer às empresas que tem de gastar determinado valor no jornalismo regional, pois sendo empresas privadas, não se pode, de modo algum, condicionar a liberdade de escolha dos veículos publicitários que usam para divulgar os seus produtos, mas o governo também pode recusar determinadas adjudicações, mediante determinados posicionamentos. Ou não? Conhecem o regulamento que obriga as rádios (públicas ou privadas) a passarem uma determinada percentagem de música portuguesa, em função da que não é? Neste caso, e a bem da música portuguesa, o governo impõe esta condição. Porque não e em defesa do jornalismo regional, também impor-se que as empresas que trabalhem para o estado (central ou local), e nos seus orçamentos de marketing, terem de cativar uma verba para apoiar a imprensa regional? É assim tão censurável? Penso que não e resolveria uma grande parte dos problemas neste setor.
A somar ao problema de uma prática já enraizada, de que raramente as marcas nacionais estão presentes nos órgãos regionais, pelo menos com alguma expressão, é o próprio governo que não dá o exemplo. O valor que cativa anualmente para adjudicar publicidade no setor regional da comunicação, raramente tem uma execução que ultrapassa metade do previsto, simplesmente porque os ministérios e as secretarias de estado estão-se nas tintas. É mais confortável e rápido negociar com 4 ou 5 grupos que detém 80% dos órgãos nacionais, a terem de construir uma plataforma que vise trabalhar com o setor regional. O mais caricato é que a verba para o regional, em larga medida, nada tem a ver com as verbas para o nacional (falo apenas de publicidade, nada mais). Ou seja, se determinado ministério não gastar a verba afeta ao setor regional, simplesmente essa verba não transita para outra rúbrica, dando-se, no final do exercício, como não executada, figurando nas contas do governo, na rúbrica da não execução orçamental, no final do ano. Interpelando-se estes senhores dos ministérios, sobre a razão destes procedimentos em relação ao setor regional, têm a devida lata de dizer que os jornais regionais é que não se aproximam e não enviam propostas. Em 2022,2023, 2024 e 2025, tive o cuidado de contatar 8 ministérios e 4 secretarias de estado, bem como 23 institutos públicos (fiz isto todos os anos), que dependem do orçamento de estado, nomeadamente e no que concerne à rúbrica da publicidade. Em 4 anos de contatos, em mais de 150 e-mails e 65 chamadas feitas, o resultado foi ZERO. Nem uma adjudicação, nem um pedido de orçamento, e a taxa de ausência de respostas por parte dos destinatários, ronda os 95%.
Com isto não digo que não existam órgãos regionais que fazem adjudicações ao estado, mas são muito poucos, contando-se pelos dedos. Nas adjudicações ao poder regional (quase em exclusivo às câmaras), existe uma inversão de 180 graus. As câmaras continuam a ser ainda o maior cliente da imprensa regional, embora, na minha opinião, terá de se regular o acesso a essas adjudicações, no sentido de permitir uma maior clareza que possa tornar mais independente a relação de certos órgãos com o poder local. Mas isto dá outro artigo!
No governo anterior, iniciou-se um trabalho com o ex-secretário de estado (agora Ministro) e mesmo com o Ministro da tutela da altura (agora candidato à CM do Porto), e embora não seja ainda a solução perfeita, é um começo. Mas como já referi em artigo anterior, receio que esse trabalho seja para meter na gaveta, se o setor regional não se mexer, organizar-se e começar a fazer algum barulho.
Tem de se perceber que ao governo em exercício (qualquer um), não interessa reforçar os poderes dos jornalistas. Governos caem e são eleitos em Portugal e no mundo, muito devido à ação de um verdadeiro jornalismo independente, que denuncia o que mal está e consequentemente faz cair secretários de estados, ministros e governos. Como os governos não podem tocar nos nacionais, exercem uma espécie de vingança nos regionais. Vão dando umas migalhas de vez em quando (e às vezes uns doces), mas o verdadeiro manjar dos deuses é sempre para os mesmos.
Há que rapidamente alterar esta política. Nos últimos 20 anos fecharam mais de metade dos títulos regionais e neste momento mais de 80% do que existe ainda em atividade encontra-se com grandes dificuldades de solvência.
Há que fazer um trabalho urgente de sensibilização da opinião pública. Somente com quem nos lê, vê e ouve, podemos ter força. Quem nos lê, vê e ouve diariamente, são os que votam, são os que têm opinião na sociedade e são aqueles que serão a nossa força futura. Há que os trazer para o problema, explicar o que está mal e fazer dessas pessoas parte da solução.
Por outro lado, temos de unir o setor, identificar os pontos fracos, apresentar propostas e traçar estratégias. Basta de falarmos para dentro e muitas vezes entre os dentes, com a boca meio fechada.
No nosso setor, infelizmente, também temos indivíduos que não prestam, que se vendem ao poder em troca de algumas benesses exclusivas, para que paralisem o nosso setor e incrementem uma política de demagogia estruturada, adiando dessa forma posicionamentos que há muito deveriam estar no terreno. Esses indivíduos têm de ser também postos fora das estruturas associativas, denunciados e se for caso disso processados judicialmente. O setor do jornalismo regional tem de se purgar para renascer.
Somos muito pequenos separados, mas muito fortes juntos.
Os artigos publicados na secção "Tribuna Livre" são artigos de opinião, sendo os seus autores responsáveis pelas opiniões e posições espelhadas nos seus textos.
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Investigação Universidade de Washington e do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa foi publicado na revistaPain Medicine. Este explora a forma como cultivar a crença numa vida com um propósito, apesar dos desafios da dor crónica, pode promover melhorias ao nível psicológico.
“A dor crónica é um problema generalizado que tem o potencial de impactar negativamente o bem-estar e a qualidade de vida”, explica Alexandra Ferreira-Valente, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social do Iscte (CIS-Iscte).O estudoteve como objetivo explorar de que forma as crenças sobre ter uma vida com significado estão associadas a um melhor ajustamento em adultos com dor crónica.
A equipa de investigação realizou um questionário a uma amostra diversificada de 164 participantes com dor crónica. Avaliaram um conjunto de variáveis psicológicas, incluindo sintomas de perturbação de stress pós-traumático (PSPT), ansiedade, depressão, crenças pessoais e estratégias para lidar com a dor crónica e a sua interferência na vida quotidiana. Os resultados indicaram que a capacidade de encontrar um sentido para a vida, mesmo no meio da adversidade, estava associada a uma menor interferência da dor e a sintomas menos graves de PSPT, ansiedade e depressão. Isto reforça a ideia de que a promoção de um sentido de propósito é fundamental para o bem-estar emocional de uma pessoa, apesar das adversidades. As intervenções psicológicas fenomenológicas existenciais que se centram no significado e no sentido de objetivo, juntamente com os tratamentos físicos, podem ser um instrumento poderoso para este fim.
“Os nossos resultados revelaram que as pessoas que mantiveram uma forte crença na sua capacidade de viver com significado, apesar da dor, apresentaram melhores níveis de funcionamento e resiliência”, explica Alexandra Ferreira-Valente. Segundo a investigadora, este resultado sugere que as crenças e atitudes pessoais podem servir como fatores críticos na gestão do impacto psicológico da doença crónica.
Entre as implicações mais abrangentes do estudo, a equipa de investigação salienta a necessidade de integrar a resiliência psicológica e a criação de significado nos planos de tratamento da dor crónica. Isto porque, segundo o estudo, a compreensão de que é possível ter uma vida com significado apesar da dor e o reforço do sentido de propósito de uma pessoa pode levar a melhores abordagens terapêuticas. “Para isso, é necessária uma abordagem multidisciplinar nos serviços de saúde para a dor crónica”, conclui Alexandra Ferreira-Valente.
A equipa de investigação, constituída por David E. Reed II (Universidade de Washington; VA Puget Sound Health Care), Melissa A. Day (Universidade de Washington; Universidade de Queensland), Alexandra Ferreira-Valente (CIS-Iscte) e Mark P. Jensen (Universidade de Washington), deixa ainda a sugestão de que estudos futuros se devem centrar na exploração das relações causais entre os sistemas de crenças e os impactos na saúde.
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A estudante é uma voz conhecida de esquerda na internet brasileira e recebeu mensagens de ódio antes
por Agência Pública
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Amanda Audi, com edição de Mariama Correia, e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
Na manhã de 14 de março, uma sexta-feira, a influenciadora Laura Sabino estudava em seu quarto, em Belo Horizonte (MG), quando sofreu uma tentativa de assassinato. Ela estava debruçada sobre um livro quando ouviu um barulho na sala de casa. Pensou que poderia ser o seu gato e levantou a cabeça para olhar. Mas o que ela viu, pela fresta da porta, iria assombrar a sua vida para sempre.
Nos 20 minutos seguintes, Sabino seria atingida com pelo menos nove golpes de faca desferidos pelo próprio irmão, que ainda tentou queimá-la viva. As facadas perfuraram seu abdômen, braços e ombros. Não se trata, porém, de um episódio isolado de violência doméstica, mas sim o resultado de anos de ameaças sistemáticas que misturam misoginia, perseguição política e falhas crônicas do Estado, segundo ela relata.
Documentos obtidos pela Agência Pública revelam que nem mesmo os cinco boletins de ocorrência, a inclusão no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos e uma medida protetiva concedida cinco dias antes do ataque foram suficientes para livrar a influenciadora da agressão que quase a levou à morte.
Com quase 1 milhão de seguidores nas redes sociais, Laura Sabino é uma das vozes mais conhecidas da esquerda na internet. Aos 25 anos, a estudante de História produz conteúdo sobre política desde 2019, e vários de seus posts “furaram a bolha” e viralizaram para fora do seu público – como quando fez um vídeo rebatendo argumentos do deputado bolsonarista Nikolas Ferreira sobre o escândalo do INSS.
Naquela sexta-feira, a influenciadora havia comprado um bolo e preparado suco para receber o pai, que estava voltando de um pós-doutorado em Portugal. Sabino tem uma profunda admiração por ele, que foi o primeiro da família com formação superior, depois de vender salgados na rua para ajudar na renda da família. Ele trabalhou como professor da rede pública mineira por duas décadas e, hoje, dá aulas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde a filha também estuda.
Violência anunciada
Dois dias antes do ataque, um influenciador de direita com milhares de seguidores publicou uma fake news sobre Sabino, em que a associava a drogas e a acusava de maltratar funcionários de um prédio na Zona Sul de Belo Horizonte (onde ela nunca morou). Ela desmentiu e anunciou medidas judiciais contra o autor do post, mas ainda assim, a mentira se espalhou como rastilho de pólvora.
Nas 48 horas seguintes, a influenciadora recebeu uma montanha de mensagens de ódio e sofreu a tentativa de assassinato. Para ela, os fatos podem estar relacionados. Durante o ataque, de acordo com a influenciadora, o irmão fez menções que remeteram à notícia falsa. “Ele disse que eu era um personagem da internet, que defendo patifarias, que por isso eu estava me fodendo na internet”, afirma.
Há anos a influenciadora é atacada nas redes sociais pelos seus posicionamentos políticos, o que quase sempre descamba para agressões e ameaças. Uma das situações traumáticas foi quando usuários anônimos viralizaram um vídeo pornô como se fosse ela nas imagens – na verdade, era apenas uma outra mulher ruiva.
Sabino registrou três boletins de ocorrência relatando as ameaças, mas nada aconteceu. Com medo de os ataques ultrapassarem o ambiente virtual e ameaçarem a sua integridade física, ela decidiu sair de casa e passou a alternar hospedagens em casas de parentes e amigos. Foi neste contexto que Sabino passou a também ser constrangida e ameaçada pelo irmão, cujo nome não será divulgado a pedido da família.
Áudios e mensagens a que a reportagem teve acesso mostram que ele ligava para a irmã várias vezes por dia, a chamava de “vagabunda” e outras palavras de baixo calão, dizia que iria para casa dela pegar “tudo o que tinha dentro” e fazia ameaças com tom violento.
Em 4 de setembro do ano passado, Sabino participou de uma audiência pública sobre violência de gênero contra mulheres ligadas à política em Minas Gerais, em que relatou como as ameaças nas redes sociais se aproximavam cada vez mais de sua vida privada. Em dezembro, ela foi incluída no Programa de Proteção a Defensores dos Direitos Humanos.
A influenciadora também pediu uma medida protetiva com base na Lei Maria da Penha contra o irmão, que foi autorizada em 10 de março – apenas cinco dias antes da tentativa de feminicídio. No entanto, ele foi notificado pela Justiça apenas na semana seguinte ao crime.
Com medo do que poderia acontecer e se sentindo desamparada, Sabino escondeu facas e objetos cortantes de sua casa, passou a evitar espaços abertos em eventos, reduziu a participação no cursinho comunitário que atua e diminuiu sua presença online.
"Alguém podia tanto te matar"
No áudio a que a reportagem teve acesso e que consta na medida protetiva, o agressor reproduz falas sexistas e homofóbicas. “Você paga simpatia para todo mundo, para essas bichas, essas pessoas aí. Você desde pequena sabe que eu não colo com esse povo, com essas patifarias, e vem me abraçar”, disse o irmão de Sabino. “Você é uma vagabunda que nem minha mãe falou”.
Sabino se recorda que, na ocasião, ela estava feliz porque o cursinho popular que ajudou a idealizar estava para começar a funcionar. Animada, deu um abraço no irmão. Ele se trancou no quarto e mandou um áudio a chamando de “filha da puta” e “desgraçada”, seguido das críticas ao cursinho e a culpando pelo seu quadro depressivo.
Nas semanas seguintes, depois de ligar diversas vezes para a irmã, que evitava atender, ele mandou uma mensagem ameaçadora. “Mas alguém podia tanto te matar, vei. Na moral. Vagabunda”, escreveu.
Nos meses anteriores ao crime, Sabino e seu pai procuraram formas de lidar com a situação. Eles pagavam por tratamento especializado para o irmão, mas perceberam que o seu quadro de saúde mental se deteriorava. Pediram ajuda a unidades de saúde que pudessem oferecer internação, mas não encontraram vaga pelo sistema público e os preços de clínicas particulares passavam das dezenas de milhares de reais, o que é incompatível com o orçamento da família.
Com a relação impossível dentro da casa do pai, o irmão foi morar com uma tia na metade do ano passado. Depois, no fim de 2024, se mudou para a casa da mãe, que, segundo a família, deixou o convívio com os filhos quando eles ainda eram crianças, sem participação emocional ou financeira durante o crescimento deles.
A Agência Pública tentou contato com a defesa do irmão de Sabino mas, segundo a Defensoria Pública de Minas Gerais, ainda não houve designação de um defensor para o caso.
A tentativa de feminicídio
Segundo Sabino, o agressor saiu cedo da casa onde estava morando nos últimos meses e foi de ônibus até onde a irmã estava. Chegando lá, por volta das 10h, ele pulou o muro [o barulho que Sabino escutou] e pegou o que encontrou na cozinha: duas facas de serra. Se encaminhou ao quarto de Sabino e imediatamente começou a golpeá-la.
Ela só teve tempo de levar os braços para a frente do rosto, no intuito de se defender. Ela inicialmente achou que estava recebendo socos, até começar a sentir uma ardência incomum e algo quente escorrendo. Foi então que olhou para baixo, viu o chão cheio de sangue e entendeu que na verdade estava sendo esfaqueada. “Pensei que ia morrer. Sentia meu corpo ficando mais fraco. Esse episódio aconteceu em uns 20 minutos, mais ou menos, mas na minha cabeça foram duas horas”, diz.
Entre luta física e desmaios, a influenciadora sentiu algo gelado em sua perna e um cheiro forte. Nesse momento, ela percebeu que ele tinha jogado álcool gel em seu corpo e estava tentando a matar queimada. “Senti que a cama deu um desnível, como se ele tivesse se levantado. Abri o olho e vi ele indo na mochila dele pegar o fósforo. Nessa hora saí correndo, consegui pegar o celular e corri”, conta ela. “Quando passei da porta do quintal, liguei pro meu namorado e falei: “Ele me matou. Ele conseguiu. Eu vou morrer”.
O autor foi preso em flagrante, que depois foi convertida em prisão preventiva. Hoje ele segue preso em Belo Horizonte, enquanto aguarda julgamento.
“Vou ficar doce igual caramelo”
A família diz não saber ao certo o que levou o agressor a cometer um ato tão extremo. O relacionamento era marcado por conflitos e episódios de agressividade, mas ninguém imaginava que a situação pudesse chegar a uma tentativa de feminicídio. No entanto, eles levantam algumas hipóteses.
Segundo Sabino, o irmão apresentava piora na saúde mental e nos episódios violentos, e o tom ameaçador teria se agravado com a notícia do pós-doutorado de seu pai. As intimidações também teriam aumentado depois que ele se mudou para a casa da mãe e interrompeu o tratamento psiquiátrico.
No boletim de ocorrência registrado no dia do crime, o agressor disse a sua versão. “Segundo o autor, ele pulou a janela e foi para matá-la e posteriormente cometer autoextermínio, utilizando álcool e fogo. Ele alega que queria fazer isso para atingir o pai e deixá-lo com remorso, pois alega que o pai tem o hábito de tomar o seu dinheiro”, diz o documento.
Alguns áudios enviados pelo irmão a Sabino reproduzem termos misóginos típicos de grupos extremistas, como os que ela recebe no ambiente online. Ainda não se sabe exatamente qual o nível da participação do agressor nestes grupos.
A vida após a sobrevivência
Ribeirão das Neves, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte em que Sabino cresceu, figura entre os piores lugares do país para ser mulher segundo um levantamento do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), que avalia o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) feminino. Criada na periferia, ela atua desde adolescente em coletivos de acolhimento a vítimas de violência doméstica — mesmo quando, paradoxalmente, hesitava em reconhecer-se como uma delas. “Queria manter minha dignidade e ajudar outras mulheres”, diz.
Retomando a rotina, o que inclui os estudos e o trabalho nas redes e em movimentos sociais, Sabino afirma que suas convicções seguem firmes. “Essa violência foi apenas um episódio de uma vida inteira de luta”, ela diz, frisando que não se vê como uma vítima.
Ela só resolveu falar sobre o episódio agora, quase três meses depois da tentativa de feminicídio, após receber mensagens perturbadoras nas redes sociais. “Comecei a ver comentários como: ‘Laura, você devia fazer mais vídeos de corte, ouvi dizer que você é boa com cortes’, no Twitter e Instagram”, relata. “Prefiro contar minha história a um veículo sério, que apure os fatos com justiça, antes que a extrema direita distorça tudo. Não quero que tratem isso como mero furo jornalístico”, afirma.
Os números mostram que a violência que Sabino sofreu não é um caso isolado. Segundo o estudo “Violência Política e Eleitoral no Brasil”, das organizações Terra de Direitos e Justiça Global, quase metade dos ataques políticos entre 2022 e 2024 tiveram mulheres como alvo – a maioria começa pelas redes sociais, e, depois, pode migrar para o “mundo real”, como parece ter sido o caso da influenciadora.
“A luta de Laura simboliza mais do que resistência: ela escancara a urgência de políticas efetivas de proteção a defensores e defensoras de direitos humanos. É preciso garantir que ativistas como ela possam continuar seu trabalho sem medo, com dignidade, segurança e respeito”, disse, em nota, a equipe do Programa de Proteção a Defensores dos Direitos Humanos de Minas Gerais, que Sabino faz parte.
Aos poucos, ela e o pai retomam suas atividades e tentam processar o trauma. “Alguns dias são mais leves, outros são pesados. Quando deito na cama, tudo volta na minha cabeça. É como um luto”, ela desabafa.
Este artigo foi originalmente publicado no site da Agência Pública e republicado na íntegra n’o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY-ND 4.0.
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"É uma leitura essencial para quem deseja ir além dos soundbites da mídia"
por António Piedade
“Humano, Demasiado Humano” de Neil D. Lawrence, apesar do título que evoca a obra filosófica de Nietzsche, mergulha numa exploração cativante e acessível do panorama daInteligência Artificial (IA). Longe de ser um tratado filosófico denso, o livro posiciona-se como um guia esclarecedor para qualquer pessoa interessada em compreender o impacto multifacetado da IA nas nossas vidas.
Este livro, “Humano, Demasiado Humano”, foi publicado entre nós em Fevereiro de 2025, pela editora Gradiva, inserido na sua prestigiada coleção “Ciência Aberta” com o número 251. Recorde-se que a coleção “Ciência Aberta” é atualmente coordenada por Carlos Fiolhais, que também fez a revisão científica deste livro. A tradução do original em inglês esteve a cargo de Jorge Pereirinha Pires.
Lawrence, um proeminente especialista em IA, consegue a proeza de desmistificar conceitos complexos, tornando-os compreensíveis até mesmo para leitores sem formação técnica. A sua escrita é clara e envolvente, pontuada por analogias perspicazes e exemplos do mundo real que ilustram as capacidades e limitações da IA. O autor evita o sensacionalismo, optando por uma abordagem equilibrada que reconhece tanto o potencial transformador da IA quanto os seus desafios inerentes.
Um dos pontos mais fortes do livro reside na sua capacidade de traçar um panorama abrangente da IA, desde os seus fundamentos históricos até às suas aplicações mais recentes. Lawrence discute a evolução da aprendizagem de máquina, as redes neuronais e o processamento de linguagem natural, sem sobrecarregar o leitor com jargões técnicos excessivos. Em vez disso, ele foca-se nos princípios subjacentes e nas implicações práticas de cada tecnologia.
Além da dimensão técnica, “Humano, Demasiado Humano” destaca-se pela sua análise dasramificações sociais e éticas da IA. Lawrence aborda questões cruciais como a privacidade de dados, o viés algorítmico, a automação e o futuro do trabalho, e a responsabilidade na tomada de decisões por sistemas autónomos. O autor convida os leitores a refletir criticamente sobre estas questões, promovendo um diálogo necessário sobre como podemos moldar um futuro onde a IA seja uma força para o bem.
Apesar do seu tom geralmente optimista em relação ao progresso tecnológico, Lawrence não ignora os perigos potenciais. Ele sublinha a importância de uma governança robusta e de uma regulamentação cuidadosa para garantir que a IA seja desenvolvida e implementada de forma responsável e ética. O livro não oferece soluções fáceis, mas sim um quadro para pensar sobre os desafios e oportunidades que a IA nos apresenta.
Em suma, “Humano, Demasiado Humano” é uma leitura essencial para quem deseja ir além dossoundbitesda mídia e obter uma compreensão mais profunda da IA. É um livro que informa, provoca a reflexão e capacita os leitores a participar da discussão sobre o futuro da tecnologia. Neil D. Lawrence entregou uma obra que é tanto um guia prático quanto um convite à contemplação sobre o nosso lugar num mundo cada vez mais moldado pela inteligência artificial.
Este autor não escreve segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1990.
Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto "Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa", promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.
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"Muda-se o governo, mudança nas pastas ministeriais. Afinam-se estratégias pessoais, gostos
por José Vieira
Ainda este governo acaba de tomar posse e já temos o caldo entornado, no que e importa ao setor da comunicação social regional.
O anterior governo, com a pasta da comunicação social entregue a Pedro Duarte, candidato pelo PSD agora à Câmara do Porto, e a Pedro Abreu Amorim, ex.- Secretário de Estado da Comunicação Social, agora Ministro dos Assuntos Parlamentares, desdobrou-se, em 2024, em reuniões com o setor da comunicação social, conseguindo aprovar, em sede de executivo, algumas propostas que visavam apoiar o jornalismo, nomeadamente um maior apoio ao setor regional, que desde sempre tem vivido com migalhas e ao que parece, nem isso vamos ter daqui para a frente. Mas com a queda do anterior governo, quase tudo transitou para o próximo. Quase tudo, disse eu, porque a mama da RTP e o apoio às assinaturas digitais dos jornaisdados apenas aos jornais nacionais, esses passaram entre os pingos da chuva. Clarinho, sem se molharem. Só aqui, já é motivo para que o setor da comunicação regional faça mesmo um grande manguito ao nosso Primeiro-Ministro. Isto é ou não é compadrio e corrupção?
Muda-se o governo, mudança nas pastas ministeriais. Afinam-se estratégias pessoais, gostos e ambições. E dá-se a troca de cadeiras. Pedro Duarte, como já referido, segue para o Porto e Abreu Amorim é promovido a Ministro, mas de outra área completamente diferente do que estava no anterior governo. E o que vai acontecer com a pasta da comunicação social, e no que ao setor da regionalidade interessa? Provavelmente, vai ser metida na gaveta e vamos já perceber porquê.
Leitão Amaro é o novo Ministro que passa a tutelar a área da comunicação social, e o secretário de Estado vai ser João Valle e Azevedo. Não, não é o anterior Presidente do Benfica. Felizmente. Sobre Leitão Amaro, tenho toda a certeza de ser uma pessoa competente, com provas dadas, e o rosto da comunicação ao país, quando vivemos o recente apagão energético. Diria mesmo que tem possibilidades de, a seu tempo, chegar mais longe na sua ambição política. Mas a pergunta que se impõe fazer neste momento é: quem é este senhor João Valle e Azevedo, o novo Secretário de Estado da Comunicação Social? Que competências na área da comunicação social tem? Que formação existe no seu currículo que o permita ter uma leitura mais alargada dos problemas da comunicação social? Dele, só se conhece cargos políticos ao género do “Jobs for the Boys”. Possivelmente, teve nota máxima na colagem de cartazes com o logotipo do partido ou com a cara do iluminado de serviço, e agora vai tutelar uma área tão sensível para o país, como a comunicação social? Bom, sabe-se que em 2023, em rutura com Mário Centeno, Governador do Banco de Portugal, saiu da instituição e passado uns meses foi experimentar o que era isto de ser deputado da nação, sendo logo promovido a Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PSD. Com um currículo de uns dias apenas na Assembleia, mostrou qualidades acima da média, indo dirigir deputados com largos anos de experiência. Mas estas nomeações são políticas e estou-me a afastar do pretendido, pois na casa do PSD, manda o PSD. Mas importa referir e seguindo esta linha de pensamento, bastou-lhe menos que um ano de atividade mais política, e agora dando a cara como deputado, para ser promovido a Secretário de Estado e um dia destes vai subir de novo. Neste país sobe-se rapidamente, mas não pela competência ou currículo, como se pode perceber.
Continuando a responder à pergunta, de quem é este senhor e que competências tem nesta área ou noutras, chega-se rapidamente à conclusão de que e na área da comunicação social, só lhe reconheço que talvez leia alguns jornais diários, e duvido mesmo que leia os regionais. Nas outras áreas, e também analisando o seu currículo, deduzo que passou metade da sua vida profissional a trabalhar (apetece-me dizer brincar) às comissões do PSD, participando em reuniões e grupos de apoio, sendo convidado para dar umas aulitas (talvez na universidade de verão do seu partido), conseguindo depois entrar no Banco de Portugal, mas como andava a ajudar o PDS em simultâneo noutras tarefas, o Mário Centeno correu com ele, tendo o Luís Montenegro de lhe dar emprego como deputado no ano seguinte.
Entende-se rapidamente que é para meter na gaveta as alterações que dizem respeito a alguns apoios ao setor da imprensa regional. Este senhor não tem craveira suficiente para liderar as alterações que são urgentes fazer. Nem currículo, nem experiência ou autoridade intelectual para enfrentar este setor, que o vai comer vivo nos primeiros meses, e fazer com que ele se afaste rapidamente. Pode até vir com boas intenções, mas não tem a envergadura que necessita para fazer as reformas necessárias. E o nosso Primeiro-Ministro sabe disso. No falhanço deste novo secretário de estado, Luís Montenegro lava as mãos e desculpa-se com os outros, atingindo também de raspão Leitão Amaro, que vai ficar assim no amarelo avermelhado, servindo como aviso para uma eventual reprise da “Revolta na Bounty”.
Em suma, estamos de novo entregues aos bichos. Serão mais dois anos (pelo menos) de negociações e reuniões, para não dar em nada. Os diários e os grandes grupos continuam a mama, pois com esses ninguém se mete, senão levam, (parafraseando Sócrates – o nosso, note-se). E nos próximos artigos, prometo explicar mais ao detalhe, como funciona a mama dos grandes grupos económicos da área da comunicação social, com algum detalhe. É necessário e urgente desmascarar esta promiscuidade para que estes senhores do governo (da direita à esquerda), tenham alguma vergonha na cara, e que parem de brincar com setores que são essenciais e fundamentais à qualidade da nossa democracia.
O caricato é que antes de serem poder, adoram a comunicação social (regional incluída), mas quando assumem cargos de governação, essa energia positiva e esse estado de namoro inebriante, logo desaparece. O namoro continua com os grandes grupos (pois com esses não se brinca, pensam eles), mas os regionais levam logo com um grande par de cornos e se se puserem a jeito, umas marradas não estão fora do pensamento destes…senhores (para não usar outro termo e ser de novo acusado de ser deselegante).
Mas a culpa também reside nos órgãos de comunicação social regionais. E faço também a “mea culpa”. Reconheço que me coloquei a jeito estes últimos anos, mas acabou-se a paciência. Há que endurecer o discurso, tomar medidas e ir à luta. Mas a este assunto, voltarei brevemente, também com mais algum detalhe.
Agora, o momento seguinte é o de ir convencer alguns patrocinadores a apoiarem com migalhas o nosso trabalho, enquanto continuo a assistir ao desbaratar de milhares de euros em órgão de comunicação social nacionais, pelas entidades vizinhas (câmaras, juntas e outras entidades que gerem os nossos impostos regionais). E é assim a vida de um órgão regional sério e isento. Trabalhar em prol da sua comunidade, sem ser valorizado por de quem de direito. Resta apenas mais outra via para se ganhar dinheiro no setor regional. O compadrio e a corrução ativa dos gestores públicos e partidários. Mas pessoas de bem não corrompem nem se deixam corromper. Como considero-me uma pessoa de bem, venham as migalhas.
Os artigos publicados na secção "Tribuna Livre" são artigos de opinião, sendo os seus autores responsáveis pelas opiniões e posições espelhadas nos seus textos.
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O Airplay40 Chart é o top apresentado pelo locutor britânico Spencer James. Todas as semanas, são compiladas as quarentas músicas mais tocadas em estações de rádio FM e online em todo o mundo.
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Esquema apoiado pelos EUA arrisca consolidar a ocupação sob capa de ajuda humanitária
por GlobalVoices
A "Gaza Humanitarian Foundation" (GHF), uma nova e controversa iniciativa apoiada pelos Estados Unidos da América (EUA), surgiu para controlar o fluxo de ajuda a Gaza, gerando preocupações de que ela possa servir como uma ferramenta para consolidar ainda mais a ocupação israelita.
No entanto, uma análise mais detalhada dos documentos de apresentação da fundação revela uma intenção diferente. A Equipa Humanitária para Território Palestiniano Ocupado ["Humanitarian Country Team" (HCT)], que écomposto por um conjunto de organizações, cada uma trabalhando numa determinada área de especialização, incluindo autoridades locais, ONG e agências da ONU, divulgou uma posição em que adverte que a Gaza Humanitarian Foundation "contraria princípios humanitários fundamentais e parece ter sido criada para reforçar o controlo sobre itens essenciais à sobrevivência como tática de pressão — conforme parte de uma estratégia militar”.
Além disso, a HCT deixou clara a sua posição, demarcando-se de qualquer plano que viole os princípios humanitários universais de humanidade, imparcialidade, independência e neutralidade.
Centros de ajuda blindados e controlo biométrico
Oprojetoda GHF propõe criar quatro centros de ajuda fortificados em Gaza, cada um deles concebido para atender cerca de 300 mil pessoas e a funcionar sob a supervisão de empresas privadas de segurança.
De acordo com o plano, os comboios de ajuda passarão por corredores rigorosamente controlados e monitorizados para entregar refeições pré-embaladas, água e mantimentos nos designados “Locais de Distribuição Segura”. Nesses centros, centenas de milhares de gazenses formarão filas para receber ajuda sob a vigilância de guardas armados.
O embaixador dos EUA em Israel Mike Huckabee afirmou que o único envolvimento das tropas israelitas seria garantir a segurança do perímetro desses centros, enquanto as empresas privadas seriam as responsáveis pela segurança dos trabalhadores que entram nessas instalações e pela entrega dos própriosalimentos. No entanto, o próprio documento da GHF indica que todos os movimentos serão coordenados com o exército israelita e com a unidade de Coordenação das Atividades Governamentais nos Territórios (COGAT) para “acesso e resolução de conflitos”.
Apesar da GHF afirmar, no documento apresentado, que a distribuição de ajuda dentro dos centros não terá “quaisquer requisitos de elegibilidade” e que será “baseada exclusivamente na necessidade”, foinoticiado de que o acesso a esses centros exigirá que os beneficiários da ajuda passem por um rastreio biométrico e tecnologia de reconhecimento faci, ambos efetuados por soldados israelitas para determinar quem pode passar.
Outrosrelatóriosindicam que o plano mais amplo de Israel permitirá a entrada de apenas 60 camiões de ajuda por dia em Gaza, uma redução drástica em relação aos 600 camiões que entravam diariamente durante umo breve cessar-fogo no início deste ano. Jens Laerke, do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (ENUCAH), afirmou que as propostas de Israel “não cumprem o mínimo exigido para um apoio humanitário pautado em princípios”.
Uma estrutura estrangeira sem participação local
A GHF é liderada inteiramente por agentesestadunidenses e internacionais, incluindo vários oficiais militares e diplomáticos dos EUA, sem qualquer envolvimento palestiniano na liderança ou na supervisão do projeto, o que, basicamente, retira qualquer poder de ação das autoridades locais e da sociedade civil.
Formalmente registada em Genebra, a GHF foi constituída com um advogado suíço, um consultor jurídico sediado nos EUA e um financiador armnio no seu conselho de administração — nenhum deles aparenta ter experiência pública ou histórico em trabalho humanitário.
Logística, segurança e princípios humanitários
A GHF afirma que o seu modelo foi desenvolvido para ser independente, auditável e livre de interferências de agentes armados ou de governos. A proposta do grupo enfatiza o compromisso rigoroso com os quatro pilares do trabalho humanitário - humanidade, neutralidade, imparcialidade e independência — como base das operações da fundação,afirmandoque sua única lealdade é para com “aqueles que sofrem e estão em necessidade, independentemente de sua identidade ou circunstância”.
As três empresas privadas de segurança conhecidas por terem operado anteriormente no Corredor de Netzarim são aUG Solutions, a Safe Reach Solutionse aSentinel Foundation.Jameson Gonolvinié sócio-gerente da UG Solutions e cofundador da Sentinel Foundation. Ele também é um ex-oficial das Operações Especiais do Exército dos EUA.Glenn Devitté o outro fundador da Sentinel, tendo servido também no Exército dos EUA como oficial dos serviços secretos militares, com destacamentos tanto no Iraque quanto no Afeganistão. Já a Safe Reach Solutions foi fundada porPhilip Reilly, outro oficial reformados dos serviços secretos dos EUA e quedesempenhou diversos cargos na CIA, incluindo o de oficial paramilitar sénior da agência no Afeganistão.
A proposta afirma que cada local de distribuição seguro pode tornar-se uma área de apoio para outras atividades de ONG e a GHF considera a possibilidade de oferecer “alojamento seguro, chuveiros, casas de banho e espaços operacionais” para organizações de ajuda que optem por se instalar nas proximidades. A longo prazo, eles preve-se que “líderes comunitários de confiança” sejam treinados para atuar dentro destes sistemas.
Controlo e exclusão
Apesar de se descrever como "neutra", a estrutura da GHF estabelece um regime logístico paralelo em Gaza. Toda a ajuda encaminhada através do seu sistema deve passar por corredores aprovados por Israel — Ashdod ou Kerem Shalom — e seguir os protocolos internos de controlo, segurança e auditoria da GHF. Esse sistema ignora a UNRWA, ONG palestinianas e redes de ajuda há muito estabelecidas e que antes serviam a população de Gaza.
A proposta da GHF inclui uma discriminação de custos de 1,31 dólares por refeição [cerca de 1,15 euros] : 0,58 dólares [cerca de 0,51 euros] para aquisições e 0,67 dólares [cerca de 0,59 euros] para logística, transporte blindado, segurança e administração.
Em termos de financiamento e supervisão, a GHF está inserida numa infraestrutura financeira ocidental de elite. Tem comobancoso Truist e o JP Morgan Chase, além de uma afiliada suíça apoiada pelo Goldman Sachs. A Deloitte também é mencionada como responsável pela auditoria.
Um projeto de governo sombra?
A GHF insiste que o seu único objetivo é salvar vidas e apresenta-se como uma solução pragmática diante de um sistema de ajuda em colapso. Contudo, a sua estrutura — composta por funcionários dos EUA, protegida por empresas privadas ligadas ao exército dos EUA, coordenada com o exército israelita e financiada por meio de redes financeiras ocidentais — representa uma mudança total sobre quem controla a ajuda em Gaza.
Não há supervisão de autoridades locais ou da ONU. A ajuda que esta iniciativa distribui passa por sistemas concebidos por e para atores estrangeiros — sob cerco, sob vigilância e sob ocupação.
O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu descreveu recentemente oobjetivo das operações intensificadas em Gazacomo a ocupação do território e o estabelecimento de uma presença duradoura. Nesse contexto, os centros de ajuda e o aparelho de segurança da GHF correm o risco de se tornar não numa infraestrutura emergencial, mas a plataforma de uma presença estrangeira de longo prazo disfarçada em linguagem humanitária.
Este artigo, escrito por Saher, foi originalmente publicado no site Global Voices Lusofonia e republicado com adaptações para melhor compreensão n’o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.
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