Gamers de regiões russas passam horas a jogar Tetris para ganhar torneios internacionais

O Tetris faz 40 anos este ano, mas a comunidade russa do jogo é bastante recente.
Gamers de regiões russas passam horas a jogar Tetris para ganhar torneios internacionais
Tom Tang/Unsplash

Este artigo foi publicado pela primeira vez na revista Novaya Vkladka em russo. Uma versão traduzida e editada é republicada pela Global Voices com permissão.

No dia 6 de junho de 2024, o famoso jogo de computador Tetris fez 40 anos. Inventado pelo programador soviético Alexey Pajitnov, o jogo há muito que ultrapassou o estatuto de amador. Em 2010, realizou-se o primeiro Campeonato Mundial de Tetris Clássico (em inglês, “Classic Tetris World Championship”, CTWC). Hoje, pessoas em todo o mundo jogam Tetris de forma profissional e existe também uma comunidade de Tetris na Rússia, com a qual falámos no aniversário do lançamento do seu jogo favorito. Apesar da comunidade russa ser muito mais pequena do que a ocidental, os jogadores conseguem participar em torneios internacionais.

O “Classic Tetris Russia”, uma analogia do CTWC americano, foi criado em 2020 por Viktor Sergeev, de 39 anos, que se interessou pelo jogo depois de ter visto um vídeo do campeonato durante uma viagem de negócios, alguns anos antes. Começou por estudar as regras e descarregou o jogo, dedicando inicialmente até quatro horas por dia à prática. Começou então a transmitir os seus jogos no Discord, onde conheceu outros fãs de Tetris.

Sergeev ansiava por participar em competições, mas não conseguia encontrar nenhum campeonato russo, pelo que decidiu ele próprio organizar um torneio online. Os primeiros participantes foram os seus novos conhecidos que se juntaram às suas transmissões. Em 2019, ele próprio ganhou a competição, com apenas dez pessoas a competir. Agora, o número de participantes aumentou ao ponto de ele duvidar que consiga manter o seu lugar entre os melhores jogadores.

De acordo com o atual responsável pela organização do Campeonato Russo de Tetris Clássico, Mikhail Yerukhimovich, o número de participantes varia e pode chegar até às 16 pessoas. Ele explica este número relativamente pequeno de jogadores devido ao elevado critério para a entrada. Na altura em que participam no torneio, todos os jogadores estão “imersos no jogo” há mais de um ano e apresentam resultados elevados.

Yerukhimovich refere que raramente se juntam novas pessoas à comunidade. “Poder-se-ia dizer que não as encontramos, mas que as pescamos e as convidamos para se juntarem a nós. Penso que isto é um problema para qualquer comunidade com um foco restrito, especialmente uma comunidade de jogos”, afirma, acrescentando que ainda têm esperança de popularizar o Tetris competitivo na Rússia.

Sergeev acredita que o pequeno número de jogadores na Rússia pode dever-se à complexidade do jogo, que desencoraja muitos recém-chegados a jogar profissionalmente: “O Tetris é um jogo astuto. Parece fácil, mas quando se começa a aprender, há muitas nuances. Além disso, é preciso ter tempo para praticar e não há muita gente que se possa dar a esse luxo. É como um desporto”.

Atualmente, há 235 membros no grupo de aficionados do Tetris no VKontakte, incluindo estudantes. Sergeev afirma que a maioria dos jogadores de Tetris são homens. Durante todo o tempo que passou a jogar o jogo, nunca viu raparigas a participar em competições russas ou estrangeiras e diz que as mulheres que seguem o seu grupo são sobretudo apoiantes.

Os jogadores mais ativos do grupo confirmam que o Tetris profissional pode ocupar muito tempo e exige grande persistência. Maxim, um estudante de Yakutsk, dedica cerca de quatro horas por dia à preparação para os campeonatos, e pelo menos uma hora nos dias normais para “manter a forma”. Ele afirma que não há mais do que vinte jogadores de verdade entre os seguidores do grupo “Classic Tetris Russia”.

Maxim começou a interessar-se pelo Tetris em 2022 e, quando soube que o jogo era considerado um e-sport, começou a levá-lo a sério. Nunca perde o campeonato russo, que se realiza duas vezes por ano, durante o inverno e o verão. Também participa mensalmente em torneios internacionais online.

As comunidades russa e ocidental usam a versão de Tetris lançada pela empresa japonesa Nintendo, em 1989. Poucos são os que conseguem ganhar dinheiro com a participação nos campeonatos. Na Rússia, não existem quaisquer prémios em dinheiro, enquanto que, no CTWC havia um prémio total de pouco mais de 20 mil dólares 1cerca de 18 500 euros, em 2023, com cada jogador a pagar uma taxa de inscrição de 50 dólares2cerca de 46 euros. Os jogadores a partir dos 13 anos podem qualificar-se para o torneio mundial, mas têm de passar nas difíceis competições de qualificação. A maioria dos vencedores do CTWC são oriundos dos EUA.

Existe também uma secção europeia do campeonato (CTES), com competições locais a decorrer na Finlândia, Alemanha, Singapura e Hong Kong. À medida que os jogadores atingem novos recordes, o jogo torna-se mais desafiante. Em 2024, por exemplo, Blue Scuti, um estudante de 13 anos dos EUA, completou o jogo, aumentando o nível máximo de 29 para 39.

Muitos jogadores russos esforçam-se por participar em competições internacionais. Um deles, Andrey Kosenko, de 29 anos, ganhou fama em 2023. Nesse ano, o jogador de Volgodonsk tornou-se o vencedor do torneio mensal “Classic Tetris Monthly” (CTM). Depois de dezenas de meios de comunicação social o terem apelidado de primeiro campeão mundial, Kosenko explicou rapidamente nas redes sociais que, apesar de se ter tornado o primeiro participante russo a ganhar este torneio, não se tratava “de um campeonato mundial global”, mas de uma competição mensal. Kosenko afirma que “os convites para entrevistas nos jornais e na televisão já são demasiados”.

O grupo russo de entusiastas do Tetris atrai seguidores que não jogam de facto, mas que ocasionalmente seguem as competições online. Andrey, de Novosibirsk, diz que se interessou pelo Tetris graças aos vídeos do canal de YouTubeYuri The Professional“. “Ver duas pessoas desconhecidas do estrangeiro a jogar é difícil sem um comentador”, explica Andrey. O locutor Yuri Ivanov, que é responsável pelo canal, tem comentado os campeonatos de Tetris desde 2016.

Como guia turístico no Museu da Tecnologia Informática em Novosibirsk, o trabalho de Andrey está também ligado aos jogos de vídeo retro. Entre as peças em exibição estão muitas consolas do século passado, nas quais também se pode jogar Tetris. Andrey jogou pela última vez em 2020 no “Tetris 99”, onde 99 jogadores podem competir em simultâneo. O acompanhamento dos torneios tornou-se especialmente interessante, diz ele, quando apareceu o primeiro jogador russo, por quem Andrey “torceu e vibrou”.

Enquanto outros atletas russos não estão autorizados a participar em torneios internacionais devido à guerra na Ucrânia, os jogadores russos de Tetris não enfrentam tais restrições: pelo menos oito jogadores continuam a participar em competições internacionais e a manter um elevado nível de desempenho, tendo alguns até estabelecido recordes mundiais. Em 2024, um jogador com o username “Portalll” ganhou um prémio de 700 dólares 3cerca de 650 euros no torneio “Mega Masters”, organizado pela comunidade CTM. Afinal, salienta Yerukhimovich, é difícil imaginar como é que os torneios de um jogo feito na Rússia seriam realizados com restrições para os russos.

Licença Creative Commons

Este artigo, escrito e publicado pela revista Novaya Vkladka, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n’o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

Total
0
Partilhas
Artigo anterior
RFI Noticiário (2.ª Edição) – 08/07/2024

RFI Noticiário (2.ª Edição) - 08/07/2024

Artigo seguinte
Airplay40 Rewind (13/07/2024)

Airplay40 Rewind (13/07/2024)

Há muito mais para ler...