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o largo.

o mundo num beco. a rádio num coreto. a cultura num blogue. Notícias sobre música, entretenimento, artes, rádio.

25.06.24

Rússia bloqueia quatro meios de comunicação social portugueses no seu território

Medida inclui outros meios de comunicação europeus e é uma retaliação contra o bloqueio de meios rus


por Bruno Micael Fernandes

rfaizal707/Envato Elements

São "medida de retaliação contra as restrições da União Europeia (UE) contra os media Russos". É desta forma que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros Seguei Lavrov descreve os bloqueios de diversos meios de comunicação social europeus, colocado em prática em território russo esta terça-feira, e que inclui quatro meios de comunicação social portugueses.

Os sites da RTP, Público, Expresso e Observador estão assim bloqueados em território russo, assim como o de mais 77 órgãos de comunicação europeus, incluindo órgãos de serviço público de rádio e televisão.

Segundo a nota de imprensa publicada ao início desta tarde, o bloqueio é uma resposta à decisão do Conselho Europeu em bloquear os meios de comunicação social russos. Na nota, Lavrov considera que os meios agora bloqueados "divulgam sistematicamente informaçoes falsas sobre a operação militar especial", termo usado pelas autoridades russas para descrever a guerra que o país trava contra a Ucrânia, e acusa os países da UE de escalar a situação: "Ao imporem mais uma proibição ilegítima, obrigaram Moscovo a introduzir contramedidas simétricas e proporcionais. A responsabilidade por estes desenvolvimentos cabe exclusivamente à direção da UE e aos países desta associação que apoiaram esta decisão", acrescenta. Lavrov acrescenta que a medida segue-se a um aviso repetido "a vários níveis" de que "a perseguição politicamente motivada de jornalistas russos e as proibições injustificadas de meios de comunicação social russos na UE não ficariam sem resposta", mas que o bloqueio seria "revisto", se as restrições impostas aos meios de comunicação social forem levantados.

O bloqueio dos 81 órgãos de comunicação social estende-se aos seus sites e acesso às respetivas edições online e emissões, incluindo às emissões via satélite, e teve como alvo todos os meios de comunicação públicos a nível da UE.TVE, RAI, NOS ou Radio France são alguns dos meios de comunicação também alvo do bloqueio.

A medida russa surge depois da UE ter proibido a atividade de meios de comunicação ligados ao KremlinVoz da Europa, sediada nos Países Baixos, a agência de notícias RIA Novosti e os jornais Izvestia e Rossiyskaya Gazeta, por estarem "sob o controlo permanente, direto e indireto" do estado russo.

Desde fevereiro de 2022 que a Federação Russa tem proibido vários meios de comunicação nacionais e estrangeiros de operar ou emitir no país, acusando-os de "propaganda" e espalharem informações falsas.

25.06.24

Amazon Prime Video aposta em documentário sobre a vida de Maria Cerqueira Gomes

“Maria” estreia em setembro na plataforma de streaming.


por Bruno Micael Fernandes

Amazon Prime Video/YouTube/Divulgação

Vai mostrar "o lado mais pessoal e desconhecido da vida da apresentadora, assim como a sua grande família de oito irmãos, a avó Dulce, por quem sente um carinho muito especial, as amigas de infância, a relação com Francisca, a filha mais velha, dando também a conhecer o filho mais novo, João".

É desta forma que a Amazon Prime Video descreve a sua nova aposta em conteúdos portugueses: "Maria" é um documentário sobre a apresentadora portuguesa Maria Cerqueira Gomes e que chega à plataforma em setembro.

Produzido pela produtora espanhola ¡HOLA! Media, detido pelo mesmo grupo de media da revista ¡HOLA!, o documentário vai debruçar-se sobre a carreira da apresentadora da TVI, contando com testemunhos de Cláudio Ramos, Cristina Ferreira, Manuel Luís Goucha e Rúben Rua, além de se focar no lado mais pessoal, revelando como Cerqueira Gomes começou a relação com o toureiro espanhol Cayetano Rivera, "o que mais gosta no toureiro e se gostaria de ser mãe novamente", refere a plataforma.

"Maria" vai estar disponível na plataforma de streaming "como parte da subscrição Prime", estando também prevista a sua transmissão numa das plataformas da TVI.

O documentário junta-se ao portfólio de produções portuguesa da plataforma, como as novas temporadas de "Morangos Com Açúcar", "A Lista", "Operação Maré Negra" ou "Senhor Presidente - O Campeonato de Uma Vida".

 

24.06.24

Extrema-direita sabe capturar insatisfação global com o sistema político, diz docente universitário

Investigador David Magalhães fala sobre a ascensão da extrema-direita nas eleições europeias em entr


por Agência Pública

Element5 Digital/Unsplash

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Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Andrea Dip, Clarissa Levy, Ricardo Terto e Stela Diogo e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.

O crescimento da extrema direita no Parlamento Europeu após as eleições deste ano, com partidos extremistas como o espanhol Vox, o alemão AfD e o português Chega!, indica uma insatisfação dos europeus com a política, analisa o professor David Magalhães. Doutor em relações internacionais, Magalhães tem concentrado suas pesquisas no tema da transnacionalização da direita radical e na política externa de governos ultradireitistas. 

Em entrevista ao podcast Pauta Pública, Magalhães discute a capacidade da direita de conseguir capturar o sentimento de insatisfação com o sistema, não só na Europa, mas também no Brasil e nos Estados Unidos. Para ele, apesar das diferenças nas plataformas eleitorais em cada país, as eleições europeias “impactam e dão uma certa revitalidade aos grupos de extrema direita brasileira que comemoraram a vitória dos europeus no Parlamento”. 

Na discussão, Magalhães ressalta que, do ponto de vista das “direitas”, a Europa é historicamente muito distante do Brasil. Por isso, desde a redemocratização, o movimento brasileiro tem se espelhado na direita americana. Atualmente, essa tendência continua, com o alinhamento a Donald Trump e ao movimento nacional populista, buscando replicar a sua forma e conteúdo. 

Leia os principais pontos da entrevista e ouça o podcast completo abaixo.

[Andrea Dip] Aqui, na Alemanha, percebemos nitidamente como a questão migratória tem sido significativa para o avanço da extrema direita. Ao menos desde 2014, essa xenofobia foi intensificada e deu mais poder para a extrema direita. Nas minhas investigações, eu tenho percebido como esses discursos xenófobos têm se tornado cada vez mais violentos. Como, por exemplo, os discursos do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. Como esse aumento do discurso violento e anti-imigração interfere nessas eleições? 

No caso da Alemanha, a AfD foi fundada em 2013 por ex-membros do partido da ex-primeira-ministra Angela Merkel, a União Democrata Cristã (CDU). Esse momento, segundo o cientista político holandês Cas Mudde, é chamado de “quarta onda”, onde houve uma normalização das ideias e práticas da ultradireita. Tudo aquilo que era visto como marginal foi trazido para o centro, moldando o comportamento dos partidos tradicionais de direita. Já na Espanha, o partido Vox foi fundado por ex-membros do Partido Popular (PP), que é historicamente de centro-direita. Esse partido é conservador, mas tradicional, assim como a CDU alemã. 
Em um primeiro momento, o AfD tinha pautas mais econômicas, com um perfil mais tecnocrático, porque seus membros eram economistas de carreira. Esses membros tinham discursos fundamentalmente contra a zona do euro e contra a ajuda que a Alemanha vinha dando para países que foram abalados pela crise econômica financeira, como a Grécia e a Espanha. Com a crise migratória de 2014 e 2015, quando houve um influxo significativo da população vinda do Oriente Médio (especificamente sírios e afegãos), houve um impacto grande na mudança da agenda dessas organizações. 
Não digo que a AfD já tinha uma agenda nativista [política de favorecer os habitantes nativos de algum país], xenófoba e anti-imigração, mas o fluxo migratório potencializou e redirecionou a agenda para um aspecto que tornou-se a principal ênfase da AfD de 2014 em diante. A partir disso, surgiu o Der Flügel, ala mais próxima à extrema direita neonazista alemã, que tem muita força na região da Turíngia, na Alemanha Oriental. 
A mesma coisa aconteceu na Hungria. A plataforma eleitoral de Viktor Orbán em 2010, ano em que foi eleito, era basicamente o discurso contra o Partido Social Democrático que havia ficado por oito anos no poder. A corrupção do Partido Social Democrático é vinculada à crise econômica de 2009, que foi muito impactante para o país. À época, ainda não havia a questão da imigração no discurso de Orbán. 
Isso muda de maneira substancial após seu segundo mandato, quando a Hungria vira um dos corredores de imigração porque alguns refugiados acabaram ficando (ainda que de maneira provisória) quando passaram pela fronteira com a Sérvia. O país tinha menos de 1% de população imigrante, ou seja, boa parte da população do país não sabia exatamente o que era imigração. 
Orbán começou a mudar a sua agenda do ponto de vista do nativismo e xenofobia, da política de imigração. Ele aprofundou essas conexões entre a ideia de uma identidade húngara tradicionalista e católica, ameaçada pelos imigrantes. Ele passa a culpar as forças internacionais por apoiar o processo migratório. A figura do filantropo George Soros, um judeu húngaro, aparece justamente como “bode expiatório” da destruição da identidade húngara. A partir disso, houve uma campanha muito forte contra as ONGs que protegem refugiados. 
No Brasil, a direita radical não tem agenda nativista e xenofóbica porque a imigração não é uma questão de relevância. No país também temos taxas de imigração abaixo de 1%, em termos de refugiados e imigrantes. Temos muito mais a agenda xenofóbica inter-regional, que seria o preconceito contra pessoas de origem nordestina. O preconceito no Brasil com imigrantes já aconteceu na região Norte do país com refugiados venezuelanos. Mas aqui o nativismo e xenofobia não fazem parte da pauta porque realmente a imigração não é um tema da conjuntura brasileira. 

[Andrea Dip] Sabemos que existem diferenças entre a extrema direita na Europa e no Brasil, como, por exemplo, a agenda da xenofobia posto por você. Mas também existem as semelhanças. Quais conexões você vê entre a extrema direita europeia e a brasileira?

Primeiro, eu queria tentar distinguir o que é a extrema direita europeia, porque podemos compreender nessa extrema direita qual parte mais se aproxima da brasileira. Por exemplo, eu vejo uma diferença muito grande ao comparar Holanda e França, porque são dois países que têm uma cultura secular, laica, com tradição liberal iluminista muito forte. De maneira que o discurso de um nacionalismo de identidade religiosa pega muito pouco nesses países. 
Eu estou acompanhando bastante a campanha do Jordan Bardella, estrela da direita radical francesa, que pode se tornar o primeiro-ministro francês durante as Olimpíadas. O candidato francês praticamente não comenta questões como ideologia de gênero, destruição da família tradicional etc. Não há discurso anti-LGBTQIA+ e antiaborto (aprovado como direito constitucional na França). O mesmo acontece na Holanda. Geert Wilders, do Partido da Liberdade (PVV), que agora está formando o governo, em momento algum usa discurso religioso ou cristão. 
Mas, se pegarmos países que têm um contexto histórico religioso e cristão, como o caso da Hungria, Polônia, Espanha e Itália, conseguimos encontrar alguns traços muito parecidos com a direita radical brasileira. A direita do nosso país fez algo no contexto do bolsonarismo, falar de cristianismo e não falar de catolicismo nem de protestantismo. Ou seja, foi uma aliança de conveniência que aconteceu às vésperas da ascensão do Bolsonaro como força política. 
Antes de Bolsonaro surgir como candidato à unificação dos dois grupos, o Olavo de Carvalho vivia atacando o Edir Macedo e os grupos neopentecostais e os pentecostais no Brasil, houve uma aliança para viabilizar essa candidatura religiosa cristã brasileira. Esse é um traço muito comum que possibilita a interlocução global desses grupos. 
Eduardo Bolsonaro tornou-se, de certa forma, o elemento de internacionalização da direita brasileira. Foi ele quem se aproximou do Steve Bannon junto com Filipe Martins, que está preso agora, mas foi assessor de relações internacionais da Presidência. As duas figuras transnacionalizaram as relações do bolsonarismo com grupos e organizações de ultradireita. Eduardo Bolsonaro se aproximou do partido português Chega!, de André Aventura, e também do partido espanhol Vox, de Santiago Abascal. 
Inclusive, o Brasil faz parte de uma organização conhecida como Fórum de Madri. Essa organização teria sido criada para ser uma oposição ao Foro de São Paulo – suposta organização de esquerda de teor conspiracionista – porém o Fórum de Madri é uma organização de direita conservadora, claramente radical. 
A reivindicação de uma identidade mobiliza um senso de cristianismo e tradição de família católica ou protestante. O caso brasileiro oscila de um lado para o outro, mas de certa forma reivindica a mesma tradição cristã. Ou seja, a ideia de identidade não é nacional secular, como é observado na França ou Holanda, é uma identidade que quer recuperar uma tradição cristã. Como é visto na discussão em torno do aborto no país, esse elemento vem de uma reivindicação identitária cristã muito importante nesses grupos. 

[Andrea Dip] David, você trouxe alguns elementos muito importantes. Eu gostaria de saber como as eleições europeias refletem no Brasil? 

Eu ouvi alguma militância digital de grupos bolsonaristas celebrando a vitória da direita radical, embora eles não entendam exatamente essas diferenças relatadas. No momento que souberem que o partido de Marine Le Pen, a Rassemblement National, é em massa a favor do aborto, vão começar a chamá-la de esquerdista. A visão que eles têm é de um grupo conservador crescendo. Independente de essa percepção ser verdadeira ou não, ela impacta e dá uma certa revitalidade a esses grupos, como se houvesse uma janela de oportunidades de crescimento.  
Não estamos diante de uma direita conservadora normal, mas de grupos verdadeiramente extremistas e hostis à democracia. Eu acredito que existem alguns elementos que fortalecem os movimentos com um discurso geralmente contra o sistema. A direita populista radical na Europa adota uma postura que é, em certa medida, contra o sistema, envolvendo tanto a centro-esquerda quanto a centro-direita. As eleições europeias têm mostrado isso: há um cansaço com o pêndulo centro-esquerda e centro-direita. 
Os problemas também advém da democracia liberal, que se mostrou bastante incapaz de resolver problemas fundamentais de origem social, econômica e de desigualdade. Há uma sensação de insatisfação. Houve, por mais de uma década, uma coalizão na Alemanha entre centro-esquerda e centro-direita com o Partido Social-Democrata (SPD) e a União Democrata Cristã (CDU), que governaram juntos desde a época da Alemanha Ocidental. 
Na Espanha, com o Partido Socialista Obrero (PSOE), há a mesma alternância entre os dois grupos. Existe uma sensação de desgaste geral em relação ao sistema, o consenso liberal que une centro-direita e centro-esquerda está sendo questionado. A esquerda não conseguiu capturar essa energia. Já a direita consegue capturar esse sentimento na Europa, Estados Unidos e também aqui no Brasil. Esse é um ponto que tende a reforçar o discurso antissistema. 
Porém nada se compara com a possibilidade de Donald Trump vencer as eleições americanas. O cenário eleitoral nos Estados Unidos tende a ser muito mais impactante para a direita brasileira do que o cenário europeu. A Europa, do ponto de vista “das direitas” é muito distante historicamente, por isso a direita brasileira tem mimetizado a direita norte-americana. Desde o processo de redemocratização, o principal farol das nossas direitas radicais tem sido os EUA. 
Desde o período do neoconservadorismo, com o ex-presidente americano George W. Bush e a Guerra do Iraque, até quando a direita começa a virar uma direita nacional populista com o também ex-presidente Donald Trump. Inclusive, a extrema direita tenta copiar a forma e o conteúdo da alt-right que ascende com o supremacista branco Richard Spencer. Em termos de pacto, temos que prestar muito mais atenção no que vai acontecer nas eleições dos Estados Unidos agora no final do ano do que nas eleições europeias. A Europa é vista como algo muito distante da direita radical brasileira.

Licença Creative Commons

Este artigo foi originalmente publicado no site da Agência Pública e republicado na íntegra n'o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY-ND 4.0.

24.06.24

UTAD lança licenciatura em Cidades Sustentáveis e Inteligentes

Estudantes serão “capazes de analisar o conceito de sustentabilidade à escala urbana”, diz a institu


por Bruno Micael Fernandes

liufuyu/Envato elements

É uma nova licenciatura que pretende ajudar na luta contra as alterações climáticas e na transformação das cidades. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) vai apostar na licenciatura em Cidades Sustentáveis e Inteligentes já no próximo concurso de acesso ao ensino superior, anunciou a instituição transmontana.

Numa nota enviada às redações, a universidade refere que o curso terá um "plano de estudos multidisciplinar" com uma "componente prática que permitirá contactar com a investigação mais recente nesta área da sustentabilidade urbana e usufruir de protocolos com diversas instituições públicas e privadas", dando aos estudantes a capacidade de "analisar o conceito de sustentabilidade à escala urbana": "Os futuros licenciados poderão ingressar em empresas de estudos e projetos com responsabilidades no planeamento, conceção e gestão sustentável, administração central e regional, associações de municípios, autarquias e empresas municipais, agências governamentais, de Ambiente ou de Desenvolvimento Local", acrescenta.

A nova licenciatura insere-se na estratégia da UTAD de se tornar uma universidade mais sustentável: "Esta nova oferta formativa vai ao encontro da missão da UTAD em responder às exigências de um mundo em constante mutação e onde os processos de inovação e tecnologia são cada vez mais focados no desenvolvimento sustentável", refere Emídio Gomes, reitor da UTAD, acrescentando que a instituição tem em marcha "estratégias para fazer do nosso campus um laboratório vivo" algo que "permite a estudantes, docentes e não docentes contribuir para o desenvolvimento sustentável de um espaço com mais de 130 hectares, 20 edifícios e cerca de 10 quilómetros de vias".

O ciclo de estudos da licenciatura em Cidades Sustentáveis e Inteligentes tem a duração de três anos e será uma das 38 opções que a instituição terá disponíveis para o concurso nacional de acesso, que decorre entre 22 de julho e 05 de agosto.

Todas as informações sobre o novo curso estão disponíveis no site da instituição.

23.06.24

Um novo enquadramento teórico para compreender como as pessoas concebem o futuro

Artigo pretende apelar a uma “reflexão sistemática sobre a relação entre representação e ação"


por CIS-Iscte

biasciolialessandro/Envato Elements

Um estudo teórico realizado no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) apresenta uma análise comparativa de duas teorias do comportamento social para explorar a forma como as pessoas se relacionam com o futuro e as implicações daí decorrentes. O estudo informa sobre as perspetivas únicas de cada teoria e o potencial de integração interdisciplinar relativamente a fenómenos com importantes impactos sociais, como a crise climática e a transição para as energias renováveis.

Com este estudo, Ross Wallace, estudante do Doutoramento em Psicologia no Iscte- Instituto Universitário de Lisboa, e Susana Batel, investigadora no CIS-Iscte, abrem caminho para uma conceptualização mais matizada e sistemática da forma como as pessoas representam o futuro e com que consequências. “As atuais questões sociais, como a crise provocada pelas alterações climáticas e a necessidade de descarbonizar os sistemas energéticos, são muito complexas e exigem uma conceptualização que considere como as pessoas se envolvem com o futuro” Ross Wallace começa por explicar. De acordo com o investigador, as consequências destes problemas frequentemente não são imediatas e podem acontecer apenas num futuro distante, o que pode representar um desafio para os comportamentos sociais.

No artigo, a equipa de investigação centrou-se em duas principais teorias: a teoria sócio-psicológica das representações sociais e a teoria francesa da sociologia pragmática do envolvimento e da crítica (também conhecida como teoria das convenções). Susana Batel esclarece que a primeira “realça a natureza social da construção de significados e as formas reflexivas e intencionais de como os indivíduos representam o futuro”, enquanto a segunda “oferece uma conceptualização mais elaborada do modo como as pessoas se envolvem de forma prática com o mundo, incluindo as suas interações com o futuro e as dimensões que influenciam a construção de futuros coletivos”.

Ao comparar e sintetizar a teoria das representações sociais e a teoria das convenções, a equipa de investigação sublinha a importância de analisar as representações do futuro no contexto das dinâmicas de poder da sociedade, entre os sistemas político-especializados e o público, e das necessidades de mudança disruptiva para resolver queixas e injustiças coletivas. Especificamente, os autores argumentam que, integrando os conhecimentos de ambas as teorias, a comunidade de investigação pode compreender melhor a forma como as pessoas negoceiam e co-criam o futuro, particularmente no contexto de questões sociais prementes como as alterações climáticas e a descarbonização das sociedades.

Por exemplo, considere-se a questão ambiental da subida do nível do mar e a ameaça que pode representar para as pessoas no futuro. A teoria das representações sociais analisaria a forma como os indivíduos e as comunidades constroem representações da subida do nível do mar, mas também a forma como as pessoas comunicam e negoceiam significados relacionados com esta questão ambiental, considerando fatores como a influência dos meios de comunicação social, as crenças culturais e as interações sociais na formação das perceções da ameaça. Em alternativa, a teoria das convenções centrar-se-ia na forma como os diferentes atores sociais se envolvem, na prática, com o problema da subida do nível do mar, nomeadamente examinando as implicações materiais desta questão para as comunidades, as orientações morais que guiam as respostas à subida do nível do mar e as temporalidades envolvidas no planeamento e na adaptação às paisagens costeiras em mudança. “Pensamos que, ao combinar os pontos de vista de ambas as teorias, os investigadores e as investigadoras serão mais capazes de compreender e abordar a forma como as pessoas lidam com questões sociais futuras, e de uma forma normativamente orientada para o bem comum”, afirma Susana Batel.

“Com este artigo, apelamos a uma reflexão sistemática sobre a relação entre representação e ação, ao mesmo tempo que enfatizamos a agência das pessoas na formação e transformação das representações sociais através da comunicação e do discurso”, conclui Ross Wallace.

Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto "Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa", promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

22.06.24

Media Capital pode comprar A Bola TV

Segundo o Correio da Manhã, ainda não foi apresentada nenhuma proposta formal.


por Bruno Micael Fernandes

Divulgação

O grupo Media Capital pode estar prestes a fazer uma nova aquisição. Quem avança com a informação é o jornal Correio da Manhã.

Segundo a edição digital do matutino, o grupo que detém a TVI e a CNN Portugal estará em negociações com o grupo suíço Ringier Sports Media, que é dono do jornal desportivo A Bola, para entrar no capital do canal de televisão A Bola TV.

Ainda não está definido se a Media Capital ficará ou não com a maioria do capital do canal, mas o CM sempre vai adiantando que ainda não foi apresentada nenhuma proposta formal.

Quando contactados pelo jornal, os dois grupos de media não comentaram a notícia. Já a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) diz que "não houve até ao momento qualquer comunicação" sobre o negócio.

Comprada em 2023 pelo Ringier Sports Media Group num negócio que envolveu também o jornal A Bola e a revista AutoFoco, A Bola TV começou as emissões em 2012. Atualmente, está disponível na MEO, NOWO e Vodafone Portugal.

10.06.24

A credibilidade em notícias falsas é influenciada pelo interesse e surpresa que suscitam

Estudo mostra que identificar as notícias como falsas não impediu os participantes de as partilhar


por CIS-Iscte

pixel8propix/Unsplash

Um estudo realizado no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) explorou a complexa interação entre emoções, perceções de credibilidade e crenças prévias na suscetibilidade das pessoas a notícias falsas. O estudo clarifica processos psicológicos subjacentes à forma como as pessoas interagem com notícias na era digital.

Angela Rijo, atualmente aluna do Doutoramento em Psicologia no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa, e Sven Waldzus, investigador no CIS-Iscte, quiseram compreender o que leva as pessoas a acreditar e partilhar notícias falsas e verdadeiras. Neste estudo, os investigadores exploraram em que medida as crenças políticas prévias das pessoas influenciam os seus julgamentos sobre o interesse e a surpresa que as notícias lhes despertam, bem como os seus julgamentos sobre a sua credibilidade. Além disso, analisaram a forma como essas respostas emocionais e perceções de credibilidade influenciam a probabilidade de acreditar e/ou partilhar essas notícias.

Porquê interesse e surpresa? De acordo com a equipa de investigação, “as emoções epistémicas diferem das restantes emoções porque estão ligadas a processos cognitivos relacionados com a avaliação da informação e a formação de crenças. Elas moldam a forma como respondemos a novas informações, avaliando a sua relevância, novidade e significado”. Angela Rijo explica que, de acordo com a investigação, “o interesse e a surpresa estão normalmente envolvidos na promoção da exploração do conhecimento e na prossecução de objetivos epistémicos”. Acrescenta ainda que o interesse, embora nem sempre considerado uma emoção, está relacionado com esforços atencionais no processamento da informação e pode desempenhar um papel na tendência para acreditar e partilhar uma determinada notícia. Já a surpresa consiste no espanto e admiração sentidos perante o inesperado, estando ligada à forma como as pessoas fazem previsões sobre a realidade, e podendo aumentar o valor acrescentado de uma notícia que, assim, justifica a sua partilha.

Outro conceito importante neste estudo é a credibilidade, um atributo multidimensional que engloba a confiança (perceção de fiabilidade e honestidade da fonte de informação), a imparcialidade (a neutralidade e a ausência de enviesamentos na apresentação da informação) e o rigor (minúcia e exatidão da informação fornecida). A credibilidade percebida desempenha um papel significativo na forma como a informação é processada, acreditada e partilhada. A equipa de investigação salienta a importância deste conceito para o estudo, afirmando que “as perceções de credibilidade podem também elas ser influenciadas por fatores como crenças prévias ou o facto de a informação se alinhar com os pontos de vista de cada pessoa”.

Às pessoas que participaram no estudo, foram apresentadas publicações do Facebook que partilhavam notícias falsas e notícias verdadeiras, em igual número. Após cada publicação, era pedido aos participantes que indicassem se a notícia era verdadeira ou falsa, e que classificassem o seu nível de interesse e surpresa, avaliassem a credibilidade da fonte de notícias em termos de fiabilidade, imparcialidade e rigor e indicassem a probabilidade de a partilhar.

Embora as notícias verdadeiras fossem consideradas ligeiramente mais precisas e mais suscetíveis de serem partilhadas do que as notícias falsas, os participantes tiveram ainda assim problemas em detetar as falsas. A equipa de investigação atribui este facto a um processo emocional. “As notícias falsas foram, paradoxalmente, consideradas mais credíveis, o que pode ser explicado pelo facto de a resposta emocional às notícias falsas ser mais forte”, explica Angela Rijo. Os resultados mostraram que emoções epistémicas mais fortes, nomeadamente o interesse e a surpresa, estavam associados a uma maior perceção de credibilidade das notícias. “Os participantes tendiam a confiar mais nas notícias se estas suscitassem níveis mais elevados de surpresa e interesse, independentemente de as notícias serem verdadeiras ou falsas”, acrescenta. As notícias mais credíveis tinham então mais probabilidades de serem consideradas verdadeiras e de serem partilhadas.

Participantes com opiniões mais negativas sobre o sistema político democrático consideraram as notícias apresentadas como mais credíveis e foram mais propensos a partilhá-las, em particular as notícias falsas, o que não é surpreendente, uma vez que as mesmas tratavam de imperfeições ou críticas ao sistema político (por exemplo, corrupção). De acordo com Sven Waldzus, “este comportamento pode ser motivado por questões ideológicas ou identitárias”. O que surpreendeu os investigadores foi o facto de também estas notícias terem sido consideradas não só como mais surpreendentes e interessantes, como de as suas perceções de credibilidade acrescida serem totalmente explicadas por estas emoções epistémicas.

Os resultados do estudo também mostram que identificar as notícias como falsas não impediu necessariamente os participantes de as partilharem, o que parece contradizer o senso comum, mas apoia investigações anteriores. De acordo com a equipa de investigação, as intervenções destinadas a aumentar a sensibilização para as notícias falsas podem resultar numa diminuição da crença geral, mas não necessariamente na diminuição das intenções de as partilhar.

“Embora o nosso estudo informe acerca dos processos psicológicos subjacentes à crença em notícias falsas, é essencial reconhecer algumas limitações”, alerta Angela. Nenhum dos preditores foi manipulado experimentalmente, o que dá azo a várias explicações alternativas para o padrão encontrado nos resultados. A investigação foi realizada com uma amostra específica de participantes portugueses, centrou-se em conteúdos de notícias políticas extraídos do Facebook e analisou apenas a surpresa e o interesse como emoções epistémicas. “A generalização dos resultados a populações e fontes de notícias mais amplas, bem como a exploração de outros fatores emocionais requerem mais investigação”, explica a investigadora. “Independentemente disso, os nossos resultados realçam a importância de considerarmos as respostas emocionais e as avaliações de credibilidade no combate à disseminação da desinformação e na promoção da literacia mediática na sociedade”, conclui Sven Waldzus.

Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto "Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa", promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

03.06.24

Dezenas de milhares de comentários e tweets analisados para compreender o discurso de ódio online em Portugal

Resultados sugerem a existência de múltiplos “discursos de ódio” com características psicossociais d


por CIS-Iscte

LightFieldStudios/Envato Elements

projeto kNOwHATE, coordenado por Rita Guerra, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte), divulgou resultados preliminares de uma análise detalhada sobre o discurso de ódio em plataformas digitais em Portugal. Com base em 24.739 comentários relativos a 88 vídeos no YouTube e 29.846 tweets extraídos a partir de 2.775 conversações extraídas do Twitter/X, os dados revelam padrões consistentes com outros estudos nacionais e internacionais.

Através de uma abordagem participativa, as entidades parceiras do projeto sugeriram vídeos do YT para análise que foram posteriormente utilizados para procurar conteúdos semelhantes através do sistema de recomendação do YouTube. Entre os critérios de seleção, a equipa do kNOwHATE salienta o facto de serem conteúdos de autores portugueses com potencial para gerar discurso de ódio contra comunidades-alvo, com pelo menos 100 comentários e 1.000 visualizações. Quanto ao X (antigo Twitter), foi utilizada uma abordagem lexical para procurar conteúdo potencialmente relevante e adotados alguns critérios de seleção (ex., o primeiro tweet estava geo-localizado em Portugal, publicação ocorrida entre 2021 e 2022).

Numa primeira fase, as análises dos milhares de comentários analisados e codificados por uma equipa de anotadores focaram-se em identificar a prevalência de discurso de ódio, direto e indireto, discurso ofensivo, e contradiscurso. Rita Guerra, coordenadora do projeto, explica as diferenças entre estes tipos de discurso: “O discurso de ódio direto difunde, incita, promove ou justifica explicitamente o ódio, a exclusão e/ou a violência/agressão contra um grupo social ou uma pessoa devido à sua pertença grupal; é um discurso explicitamente preconceituoso e inflamatório, que normalmente contém linguagem ofensiva, abusiva ou depreciativa. O discurso de ódio indireto faz exatamente a mesma coisa, mas neste caso a mensagem não é explícita, podendo ser velada ou mascarada através de uma diversidade de estratégias, como o humor, ironia, ou até elogios estereotípicos. Por estas razões, o seu significado tem de ser inferido. O contra-discurso é uma resposta direta ao discurso de ódio com o objetivo de o combater”.

Os dados preliminares do projeto indicam que, em ambas as redes, o discurso de ódio indireto foi mais prevalente do que o discurso de ódio direto nas diferentes comunidades analisadas. Tal como esperado, o discurso de ódio direto e indireto apresentaram características e expressões diferentes, por exemplo o discurso de ódio direto foi mais frequentemente expresso através da mobilização da ameaça e da desumanização das comunidades alvo, enquanto o discurso de ódio indireto mobilizou mais frequentemente estratégias de negação do ódio e de inversão de papéis. Foram ainda analisadas as emoções presentes nos diferentes tipos de discurso de ódio: no discurso de ódio direto o ódio foi a emoção mais frequente, seguido da raiva; já no discurso de ódio indireto o padrão foi o inverso, sendo a raiva a emoção mais prevalente, seguida do ódio.

De acordo com a equipa de investigação, estes resultados sugerem a existência de múltiplos “discursos de ódio” com características psicossociais e linguísticas diferenciadas, variando consoante as comunidades visadas. Por exemplo, a raiva foi mais prevalente no discurso de ódio contra as comunidades LGBTI+, e o ódio foi mais prevalente no discurso contra as comunidades Ciganas/Roma e Migrantes. Apesar destas nuances, há elementos comuns nos discursos de ódio contra todas estas comunidades, como por exemplo a utilização de estereótipos e a desumanização.

Numa nota mais positiva, nem tudo parece estar perdido. Em ambas as redes foi ainda analisado o contra-discurso, tendo este sido pouco frequente no Youtube mas destacando-se como o discurso mais prevalente no Twitter/X.  No geral, os resultados mostram um padrão semelhante em ambas as redes, sendo o contradiscurso caracterizado maioritariamente pelo recurso a contra-estereótipos (ex., “Olá já procuraste alguma vez te informar com factos verídicos acerca dos subsídios declarados para a comunidade cigana? Penso que não mas tens vários sites que o podem provar a tua gigantesca burrice disfarçada de preconceito étnico. Se precisares até eu posso te mandar alguns”, à empatia (“Geralmente em vez de tentar explicar o q é o género ou sexo, prefiro ir só pelo argumento, deixem as pessoas ser o que lhes faz feliz, se não estiverem a magoar ninguém” e à referência a identidades inclusivas (“Somos a raça humana e temos de saber viver juntos neste mundo. Em vez de nos focarmos nas nossas diferenças, vamo-nos focar no que temos em Comum”).

No geral, os resultados obtidos com a anotação de dezenas de milhares de comentários e tweets sugerem claramente que a compreensão do discurso de ódio obriga a abordagens contextuais, culturalmente sensíveis, que considerem as nuances contextuais e linguísticas que por agora ainda escapam aos algoritmos. Por isso mesmo, estes dados são úteis para informar o desenvolvimento de algoritmos mais sensíveis a estas pistas contextuais e culturais. Parte da equipa do projeto trabalhou efetivamente em modelos computacionais que possam melhorar os algoritmos de deteção atuais. Rita Guerra está confiante que este projeto servirá como primeiro passo para melhorar a compreensão deste fenómeno complexo, que por sua vez poderá contribuir para uma melhoria na deteção automática do discurso de ódio online em Portugal, bem como para uma maior sensibilização sobre este fenómeno e as formas de o combater.

“Estes resultados preliminares destacam a complexidade e a variedade do discurso de ódio online. É crucial entender estas dinâmicas para desenvolver estratégias eficazes de combate ao ódio e promoção de um ambiente digital mais seguro e inclusivo.”, explica a coordenadora do projeto. Para além de oferecerem uma visão integrada e culturalmente sensível sobre a prevalência e a natureza do discurso de ódio nas redes sociais, estes resultados do projeto kNOwHATE sublinham a importância de iniciativas de contradiscurso para mitigar os impactos negativos sobre as comunidades afetadas.

Os resultados globais do projeto, bem como o seu impacto, serão apresentados e discutidos a 9 de julho de 2024 numa conferência que decorrerá no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa sob o título “Discurso de Ódio Online em Portugal: Que Presente e Que Futuro?”. O projeto kNOwHATE (kNOwing online HATE speech: knowledge + awareness = TacklingHate) é um consórcio financiado pela União Europeia (CERV-2021-EQUAL 101049306) composto por quatro unidades de investigação do Iscte (BRU, CIS, CIES e ISTAR), o Interactive Technologies Institute (LARSyS, Instituto Superior Técnico), o INESC-ID Lisboa, a Casa do Brasil de Lisboa, a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, a Associação ILGA Portugal, e SOS Racismo.

Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto "Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa", promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

02.06.24

Como processamos as mudanças de estado dos objetos durante a compreensão da linguagem?

“As dificuldades associadas a manter o controlo desses múltiplos estados podem ser significativas”,


por CIS-Iscte

Deon Black/Unsplash

Um estudo realizado no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) explorou como as pessoas processam as mudanças de estado de um objeto durante a compreensão da linguagem. Os resultados podem melhorar a nossa compreensão da linguagem e informar modelos teóricos de cognição de eventos.

Segundo os autores Oleksandr Horchak e Margarida Garrido, investigadores do CIS-Iscte, estudos no campo da psicolinguística (área da psicologia que investiga os processos linguísticos) têm explorado como as pessoas processam mudanças nos estados dos objetos durante a compreensão da linguagem. Por exemplo, o que acontece quando lemos uma frase sobre alguém escolher uma banana vs. pisar uma banana?

“Os nossos cérebros são sensíveis às mudanças de estado dos objetos, e as dificuldades associadas a manter o controlo desses múltiplos estados podem ser significativas”, explica Oleksandr Horchak. “Por exemplo, estudos anteriores mostraram que as pessoas levavam mais tempo para verificar uma imagem de uma banana no seu estado original depois de ler uma frase como ‘O João pisou uma banana’ do que depois de ler uma frase como ‘O João escolheu uma banana’. O inverso foi observado para a imagem de uma banana num estado modificado (esmagada), para a qual as pessoas eram mais rápidas após a primeira frase (pisou) do que a segunda (escolheu).” Mas existirão outras consequências de ter de acompanhar estes diferentes estados do mesmo objeto?

“O objetivo do nosso estudo foi determinar se as pessoas são sensíveis aos estados de objetos semanticamente relacionados, como uma manga e uma banana, durante a compreensão de eventos”, afirma Margarida Garrido. A investigadora acrescenta que “há evidências substanciais que indicam que, quando as pessoas fornecem uma resposta ‘não’ neste tipo de tarefas, os seus tempos de resposta são reduzidos para objetos altamente relacionados. Por exemplo, é difícil dizer que “banana” não foi mencionada numa frase que faz referência a uma fruta relacionada, como “manga”. No entanto, o que permanece por esclarecer é até que ponto as respostas serão mais lentas dependendo do estado assumido do objeto relacionado (estado original da manga vs. estado modificado da manga)”. Por outras palavras, a equipa de investigação quis desvendar se o tempo necessário para decidir que uma banana não foi mencionada na frase (resposta ‘não’) aumenta quando os eventos descrevem uma mudança substancial, como em ‘O João pisou uma manga’.

Nas experiências deste estudo, participantes leram frases sobre mudanças no estado dos objetos (“O João escolheu/pisou uma manga” ou “A Joana escolheu/pisou uma lâmpada”) e, em seguida, viram uma imagem de um objeto (“banana”). Tinham de decidir se esse objeto tinha sido mencionado na frase anterior. De acordo com a previsão, os resultados mostraram que os tempos de verificação para uma banana foram mais longos após a leitura de uma frase descrevendo uma mudança substancial de um objeto relacionado (‘O João pisou uma manga’) em comparação com uma frase que descrevia uma mudança mínima (‘O João escolheu uma manga’). É importante salientar que os tempos de verificação para uma banana não foram afetados após a leitura de uma frase que fazia referência a uma mudança substancial de um objeto completamente não relacionado (“O João pisou uma lâmpada”). Isto exclui a possibilidade de que o tipo de verbo por si só (por exemplo, verbos de ação, verbos estáticos) possa lentificar as respostas das pessoas independentemente do objeto mencionado na frase.

Para a equipa de investigação do CIS-Iscte, o estudo fornece evidências de que as pessoas são sensíveis aos múltiplos estados de objetos semanticamente semelhantes, sugerindo que compreender eventos envolve a construção de representações dinâmicas de histórias de objetos que se cruzam. “Estes dados são importantes para um melhor entendimento dos processos cognitivos envolvidos na compreensão da linguagem e na representação mental de eventos através da integração de informação visual e linguística”, concluem Oleksandr Horchak e Margarida Garrido.