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o largo.

o mundo num beco. a rádio num coreto. a cultura num blogue. Notícias sobre música, entretenimento, artes, rádio.

27.05.24

Associação Rodellus anuncia fim do festival de Ruílhe

Evento realizava-se há oito edições.


por Bruno Micael Fernandes

Facebook Rodellus

Após oito edições, "o Rodellus termina por aquI". É o fim do festival de música de Ruílhe, em Braga.

A informação foi avançada pela Associação Cultural Rodellus, promotora do festival, num comunicado partilhado ao final da tarde desta segunda-feira nas redes sociais.

Dizendo que o evento "sempre foi organizado e produzido com muito amor e vontade", a associação refere que algo mudou: "Infelizmente, chegamos a uma fase de mudança e de algum cansaço acumulado que nos levou a tomar a decisão mais difícil, mas que acreditamos ser a melhor para as pessoas que durante 9 anos trabalharam arduamente para fazer o festival acontecer", frisa.

O festival termina um ciclo de "8 edições de amizade, trabalho, parceria, música, festa e natureza, onde mais de 130 artistas fizeram do campo o seu palco. Encerramos este ciclo orgulhosos de ter contribuído para o desenvolvimento cultural de Ruílhe; de termos envolvido a comunidade local e unido gerações", conclui.

O Rodellus teve a primeira edição em 2015 e afirmava-se como sendo um festival "para quem não tem medo do campo". Em 2023, foi nomeado para os Iberian Festival Awards nas categorias de "Best Small Festival", "Best Festival Photo", "Contribution to Equality" e "Contribution to Sustainability".

27.05.24

Investigadoras deixam anonimato e contam que sofreram assédio de Boaventura de Sousa Santos

Sete vítimas do docente contam as suas histórias pela primeira vez. Ele nega.


por Agência Pública

Milton Martínez/Secretaría de Cultura de la Ciudad de México (CC BY 2.0 DEED)

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Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Mariama Correia e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.

Foram quatro horas e meia de conversa. Mulheres de vários países se reuniram numa videoconferência e quebraram anos de silêncio. Esta é a primeira vez que as pesquisadoras, reunidas em um coletivo internacional, relatam publicamente violências e assédios que teriam sofrido de Boaventura de Sousa Santos. Até agora, elas vinham mantendo suas identidades e histórias em sigilo. 

Sete integrantes do coletivo, formado por 14 mulheres ao todo, aceitaram participar da entrevista exclusiva com a Agência Pública: Carla Paiva, Eva García Chueca, Gabriela Rocha, Aline Mendonça, Mariana Cabello, Élida Lauris e Sara Araújo. Seus relatos envolvem denúncias de assédio sexual e moral, abuso de poder, violência verbal e extrativismo intelectual – ou seja, uso do trabalho das pesquisadoras sem reconhecimento de autoria nem remuneração. Os casos relatados teriam ocorrido quando elas estudavam ou trabalhavam no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, que foi dirigido pelo professor e sociólogo de renome internacional por muitos anos. 

Os relatos delas descrevem também um ambiente tóxico, de medo e silenciamento dentro do CES. As pesquisadoras dizem que os comportamentos impróprios do professor eram normalizados e até abafados dentro do centro acadêmico. 

Denúncias contra Boaventura começaram há um ano

As primeiras acusações contra o sociólogo, que tem livros publicados em vários países, vieram à tona em março de 2023, no capítulo de um livro com relatos de assédio sexual e moral. O texto protegia a identidade das denunciantes e não citava nominalmente Boaventura, chamado apenas de “professor-estrela”.

Foi o próprio Boaventura que assumiu ser o “professor-estrela” e classificou as denúncias como “vingança”. Em abril de 2023, a Pública revelou, com exclusividade, a história da deputada federal Bella Gonçalves (PSOL-MG), que contou ter sofrido assédio sexual do professor quando foi orientanda de doutorado. Em abril do ano passado, o professor português e o pesquisador, que foi seu assistente, Bruno Sena Martins, se afastaram voluntariamente das atividades no CES. O centro acadêmico também constituiu uma comissão independente para investigar as acusações. 

Emília Silberstein/Universidade de Brasília/Wikimedia Commons

Apenas em março deste ano, essa comissão independente divulgou um relatório onde reconhece “padrões de conduta de abuso de poder e assédio por parte de algumas pessoas que exerciam posições superiores na hierarquia do CES”. Em seguida, o CES publicou uma carta aberta pedindo desculpas públicas às pessoas que se consideram vítimas de comportamento de assédio ou abuso no contexto de suas atividades. A carta não cita o nome do professor. 

Também em abril deste ano, o Ministério Público de Portugal abriu um inquérito baseado no relatório da comissão independente do CES e nas denúncias feitas pelo Coletivo de Vítimas de Boaventura, que até agora se pronunciava publicamente apenas em cartas anônimas. O inquérito está em curso. 

As pesquisadoras ouvidas disseram à Pública que decidiram sair do anonimato por justiça. Elas afirmam que as violências que relataram atravessaram sua autoestima e suas carreiras de um modo irreversível. Muitas falaram de danos psicológicos permanentes, crises de ansiedade, depressão e outras questões de saúde em decorrência dos traumas. 

Há brasileiras, portuguesas e mulheres de outras nacionalidades no coletivo. Suas histórias são diferentes, mas seus relatos têm muitos pontos em comum, que descrevem uma espécie de modus operandi: nos casos de assédio sexual, pesquisadoras visitantes, sobretudo “brasileiras e sul-americanas”, eram “alvos fáceis”. Havia um “padrão predatório” do professor, dizem. Ele “oferecia sexo como moeda de troca para uma ascensão de carreira”. 

A mexicana Mariana Cabello tinha 29 anos quando conseguiu uma bolsa para um curso de verão no CES, em 2016. A programação fazia parte do Projeto Alice, dirigido por Boaventura. As aulas ocorreram em um hotel, onde os participantes dormiam e faziam refeições. “Fomos ver um documentário sobre direitos humanos. Havia cerca de 30 pessoas na sala. Boaventura sentou do meu lado”, conta. “Quando as luzes se apagaram, ele colocou a mão entre as minhas pernas, na minha virilha. ‘Fiquei em choque. Isso realmente estava acontecendo comigo?’, pensei. Ele continuou olhando para a frente, vendo o filme. Eu saí assustada”, relata.

Um grupo de estudantes próximos de Mariana conta que chegou a confrontar o professor. “Ele disse que, por conviver muito com pessoas latino-americanas, aprendeu a ser mais cálido e mais natural no contato físico”. Mariana contou que estava abalada e não conseguia mais acompanhar o curso. Passava a maior parte do tempo no seu quarto. No jantar de encerramento, então, ela o encontrou novamente. 

“Ele me chamou para uma mesa onde estavam outros estudantes. Fiquei novamente em choque. Ele fez “love bombing” [Nota da redação: "Lovebombing" ou "bombardeamento de amor" é um comportamento apontado por psicólogos como comum em situações de abuso. Uma demonstração exacerbada de afeto do abusador para tentar manipular a pessoa que está a sofrer o abuso], dizendo como eu era superinteligente, criativa. Eu estava em pé, ao lado da mesa dele. Séria, em silêncio. Ele, sentado, pôs a mão na minha cintura, nessa posição ele ficou com a cara no meu peito”, conta. Ela não chegou a denunciar o comportamento do professor à organização ou prestar queixa. “Sabia que não ia acontecer nada com ele. Jamais voltei a ter contato com ele ou com o CES.” 

Matheus Pigozzi/Agência Pública

“Eu tinha o sonho de ser professora, hoje mal consigo entrar em uma universidade”

Quase todas as sete pesquisadoras narraram “humilhações públicas” e “episódios de explosão de ira do professor”. Elas disseram que Boaventura de Sousa Santos “depreciava seus trabalhos de forma agressiva” durante reuniões. Mais de uma entrevistada citou comportamentos inapropriados como “reuniões na casa do professor, onde ele aparecia vestido apenas de robe ou de pijamas” e “fazia comentários de caráter sexual sobre seus corpos” durante os encontros de trabalho. 

Todas citaram rotinas profissionais extenuantes no CES, que as deixariam vulneráveis ao ponto do total esgotamento físico, emocional e intelectual. Havia, segundo as pesquisadoras, uma tentativa recorrente do professor de controlar suas trajetórias profissionais e até suas vidas pessoais. 

“Ele controlava nossa autonomia e assim bloqueava o nosso protagonismo acadêmico”, diz a pesquisadora e consultora independente brasileira Élida Lauris, 43 anos. Ela afirma que o assédio sexual foi o desfecho de uma relação profissional marcada por violências desde o princípio.

Élida chegou a Coimbra em 2005, aos 25 anos, para fazer doutorado. Em 2007, Boaventura foi convidado para palestrar no Ministério da Justiça brasileiro. Por seu conhecimento na área, ela foi chamada para produzir um documento sobre acesso à Justiça no Brasil.  “Foi quando começou a relação de abuso de poder. Ele passou a me fazer pedidos de pesquisa de interesse dele, que eram um trabalho extra, isso sem reconhecer minha autoria nem acertar uma remuneração. Quando vi, estava presa em um sistema de servidão acadêmica do qual não conseguia sair”, conta.  

As demandas de Boaventura aumentaram, diz a pesquisadora. Em 2011, o professor passou a dirigir um projeto global de pesquisa dentro do CES chamado de Projeto Alice, dedicado a estudar epistemologias do Sul dentro da Universidade de Coimbra, e recebeu financiamento milionário do prestigiado Conselho Europeu para a Investigação. Enquanto era bolsista do doutorado, Élida conta que se viu obrigada a suspender o trabalho com a tese, a pedido do professor, para trabalhar no Projeto Alice, onde ela tinha uma rotina de mais de dez horas diárias, pelas quais recebia apenas 250 euros. 

“Recebia menos que todas as pesquisadoras, o que acho uma discriminação porque era a mulher brasileira lésbica da equipe”, diz. “Na prática, fui impossibilitada de terminar a tese e a minha bolsa de doutorado foi colocada a serviço das necessidades dele. Eu chorava todas as noites, vivia com tremores involuntários nas pernas”, lembra. 

Segundo Élida, Boaventura dizia que “ela não conseguia concluir a tese porque estava desequilibrada emocionalmente”. “Eu estava preocupada em cumprir meu dever com as entidades que financiaram meus estudos”, conta. Ela levou oito anos para terminar o doutorado. Quando finalmente concluiu, decidiu deixar o Projeto Alice. 

“No último jantar em equipe que participei com Boaventura, ele disse: ‘Você pode ter uma relação especial comigo porque, quando olho para você, quando vejo suas pernas… Nunca fiz nada porque você era casada’”, conta. “Trabalhei de forma servil e desumana. No final, ele me resumiu a um par de pernas. Eu saí de Portugal apenas com uma mala e nunca mais voltei. Meu casamento se desfez. Fiquei um tempo vivendo em casa de amigos”, lamenta.

Por causa dos traumas sofridos no CES, Élida diz que passou a ter ataques de pânico, dores crônicas e outros impactos psicológicos sentidos até hoje. “Tive que reconstruir uma nova carreira, começar tudo de novo. Eu tinha o sonho de ser professora, hoje mal consigo entrar em uma universidade.” 

“Ele usava sexo como moeda de troca”

“Boaventura nos desviou do caminho que poderíamos ter percorrido”, diz a pesquisadora portuguesa Sara Araújo, 45 anos. “Ele não permitiu que nós atingíssemos o nosso potencial.” Ela entrou no CES com 21 anos e, ainda na graduação, passou a trabalhar com Boaventura. “Nós trabalhávamos com medo, havia uma tortura psicológica. Éramos reféns da obsessão por produtividade dele. Já não dormia, descuidei das minhas relações pessoais, minha vida era uma violência.” 

Sara conta que, em uma reunião de equipe na casa do professor, ele começou a criticá-la agressivamente e acusá-la de defensiva quando ela tentava argumentar. De acordo com o seu relato, o professor teria pedido que todos deixassem a reunião para eles conversarem em particular e disse: “O problema que existe entre nós é que tu és a única mulher com quem eu tenho uma relação tão próxima que não tem caráter sexual. Porque tu me disseste uma vez que nunca na vida iria para a cama comigo”, diz a pesquisadora. 

“Em outras palavras, ele estava dizendo que meu problema profissional era não ir para a cama com ele”, diz. “Quando percebi que ele usava o sexo como moeda de troca, entendi que minha carreira no CES tinha terminado ali. Depois disso, ele me excluiu da coordenação de todos os projetos em que tinha investido minha dedicação”, conta.

No ano passado, quando as acusações de assédio contra o professor surgiram na mídia, Sara ainda fazia parte do grupo de estudos coordenado por Boaventura. “Ele me mandou uma mensagem de voz dizendo: ‘Eu queria só desabafar um bocado contigo. Tens sido uma companheira e uma confidente nesta brincadeira. Pensei que já estava tudo superado”, lembra. “Estas mensagens ampliaram o meu sentimento de revolta sobre a violência sofrida no CES. O Boaventura achava que podia intimidar-me ao ponto de me instruir o que eu devia pensar sobre a violência.”

O aprendiz e a sentinela 

O capítulo 12 do livro “Sexual misconduct in academia” (Condutas Sexuais Inapropriadas na Academia), lançado em março de 2023, traz denúncias de assédios que teriam sido praticados no CES. O texto assinado pelas pesquisadoras Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Miye Nadya Tom chama-se “As paredes falaram quando ninguém se atreveu”, uma referência a pichações no muro da Universidade de Coimbra, com a frase “Fora Boaventura. Todas sabemos”. 

Reprodução

O texto, que se refere a Boaventura como “professor-estrela”,  cita também os professores Bruno Sena Martins e Maria Paula Meneses como “o aprendiz” e “a sentinela”. Eles são, de acordo com as pesquisadoras, “figuras centrais para entender as dinâmicas de poder relacionadas a Boaventura e ao CES”. 

Bruno Sena Martins, “o aprendiz”, é citado como o braço-direito de Boaventura e seu protegido. A pesquisadora norte-americana Miye Nadya Tom, uma mulher indígena professora da Universidade de Nebraska nos EUA, que faz parte do Coletivo de Vítimas, acusa Bruno de abuso sexual. Ela fez a denuncia de abuso sexual tanto no artigo quanto em uma postagem nas suas redes sociais, mas não quis gravar entrevista. 

No artigo, a professora Maria Paula Meneses é descrita como uma espécie de vigia de Boaventura. “Ela se sentia parte do sistema de poder. Se você a desagradasse, provavelmente seria repelida por ele”, explica Élida. A pesquisadora Aline Mendonça, 45 anos, trabalha com economia solidária. Em meados dos anos 2000, ela iniciou o doutorado em Coimbra. A boa relação que ela mantinha com Boaventura a princípio mudou em 2011, quando ela entrou no projeto Alice. “Ele foi tirando minha autonomia acadêmica. Eu era absolutamente ridicularizada em todas as reuniões.”

Ela diz que o professor nunca escondeu que a achava bonita. “Ele me dava uns beijos no rosto excessivamente molhados, uns abraços apertados. Um dia, me mandou um e-mail fazendo referência a poemas eróticos, dizendo que alguns tinham sido inspirados em mim”, lembra. “Disse que ele sempre teve desejo pelo meu corpo, sobretudo pelas minhas pernas. Fiquei muito nervosa. Passei a ter incontinência urinária pelo medo e pelo ambiente de pressão constantes”.

Matheus Pigozzi/Agência Pública

Testemunhas umas das outras

As pesquisadoras contam que também presenciaram assédios contra companheiras de trabalho. Entre 2013 e 2023, a professora brasileira Gabriela Rocha, 38 anos, que foi orientada academicamente por Maria Paula Meneses no CES, em Coimbra, diz que viu “Boaventura ser extremamente agressivo e impositivo com pessoas mais próximas”. 

Eva Garcia Chueca, 44 anos, vice-ouvidora municipal em Barcelona, na Espanha, iniciou um doutorado em Coimbra em 2010. “No começo ele era educado, afável. Em 2011, quando assinei um contrato de trabalho com o CES, passou a ser intolerante e violento.” 

Eu sentia no meu corpo um medo constante, uma sensação de vulnerabilidade, de baixa autoestima. Sabia que a qualquer momento poderia ser a vítima daquelas violências que presenciava com outras pesquisadoras”, lembra. No doutorado, ela era constantemente criticada por “citar outros autores, que não Boaventura”. “No fim, não publicaram minha pesquisa. Não cumpriram nenhum dos compromissos assumidos”, diz.

Carla Paiva, 52 anos, pesquisadora sul-africana, também trabalhou no Projeto Alice, coordenado pelo professor português. Durante o trabalho no CES, ela conta que sofreu humilhações públicas por Boaventura. “Ele gritava, chamava nomes. Disse que eu não prestava para nada. Eu nunca tinha ouvido um professor dizer isso na minha vida, foi uma coisa tão chocante.”

Carla compara o poder de Boaventura na Universidade de Coimbra a uma espécie de “seita religiosa”, onde “todos os conceitos teóricos tinham que estar alinhados com os conceitos dele”. “Eu dizia que não queria ser discípula dele. Ele viu logo que eu não seria uma pessoa fácil de manipular”, avalia. Ela lembra que passava os fins de semana trabalhando, sem ver o sol, “me dedicando a tarefas administrativas do projeto de Boaventura enquanto meu doutoramento ficava para trás. Desenvolvi uma doença autoimune porque vivia com medo constante.” 

Apesar de tanto esforço, com sete meses de trabalho, Carla conta que foi substituída sem explicações. Ela perdeu a bolsa e teve que morar de favor na casa de parentes por meses. Sem a possibilidade de finalizar o doutorado por questões financeiras, Paiva abandonou a vida acadêmica. Ela ainda mora em Portugal, mas fundou uma instituição voltada para a juventude. 

“Passei muito tempo tentando sobreviver. Demora tempo para a gente conseguir respirar, sentir-se na própria pele depois dessas violências. Na verdade, vejo todas nós não como vítimas, mas como sobreviventes.” 

No começo deste mês, o Diário de Notícias noticiou que Boaventura teria decidido voltar ao cargo que ocupava no CES e comunicado à própria direção do centro em reunião. A reportagem questionou o CES sobre a possibilidade de retorno do professor às suas funções, mas a nota que recebemos do centro não responde essa questão. 

No último 24 de abril, o Coletivo de Vítimas de Boaventura se reuniu com o CES para uma reunião. As pesquisadoras foram informadas sobre a abertura de um processo de inquérito, que será conduzido por um investigador independente e um advogado. O Coletivo disse que vai colaborar com as novas investigações. 

O Coletivo de Vítimas também se reuniu com a reitoria da Universidade de Coimbra, no dia 17 de abril. Na ocasião, o reitor, Amílcar Falcão, ofereceu solidariedade às vítimas, mas, de acordo com as pesquisadoras, informou “não ter poder de disciplinar o CES, que tem seus próprios estatutos e órgãos”. Para as pesquisadoras, a “universidade tem responsabilidade com as violações de direitos humanos contra suas estudantes”. Elas dizem que os seus “diplomas são provas suficientes de que elas foram alunas da Universidade de Coimbra” e que “não acham crível que o CES seja um caso isolado”.

O outro lado

Por nota, a Universidade de Coimbra confirmou que o CES “é uma associação privada, estatutária e juridicamente independente, não tendo a UC competência disciplinar no CES”. A Universidade disse que “condena veementemente todas as práticas de agressão física ou psicológica, violência ou assédio, exercendo uma atitude ativa, vigilante e pedagógica no que toca a situações de conduta imprópria.”

A entidade ressaltou que tem uma Carta de Princípios para a Igualdade, Equidade e Diversidade de um Plano para a Igualdade, Equidade e Diversidade e um Código de Conduta que explicita especificamente o que é assédio. Também que os mecanismos que permitem reportar os casos de assédio incluem os “diretores das unidades, os núcleos de estudantes, a Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra (AAC), um gabinete específico com a colaboração da AAC e do Provedor do Estudante, que foi criado com o propósito de defesa e promoção dos direitos de estudantes e que permite a denúncia ao abrigo do anonimato”.

Trabalhadores podem “recorrer à Comissão de Trabalhadores da Universidade de Coimbra” para denúncias. Desde junho de 2022, a universidade também oferece a plataforma denuncia.uc.pt, que permite a denúncia anónima e/ou com garantia de confidencialidade”.

Por nota, o Centro de Estudos Sociais (CES) confirmou que está “em curso um processo prévio de inquérito” para apurar eventuais irregularidades” e que “uma eventual abertura de processos disciplinares individuais depende dos resultados”.

O CES disse que está trabalhando em uma nova política institucional de prevenção e combate ao assédio e abuso. Até a implementação dessa política, a Provedoria do CES e o seu canal de denúncias estão em funcionamento. 

Por e-mail, a Assessoria de Comunicação do professor Boaventura informou que a investigação independente realizada pelo CES “não imputou crimes nem faltas graves a nenhuma das pessoas denunciadas”, “nem mesmo em relação ao professor Boaventura, nem em relação à professora negra moçambicana, Maria Paula Meneses, nem também em relação ao pesquisador negro cabo-verdiano, Bruno Sena Martins”. Também que o professor “aguarda o desenlace processual no Ministério Público português para que possa apresentar a sua defesa e confrontar adequadamente as acusações, demonstrando, com provas, que não cometeu crime algum”. 

Também por email, o escritório de advocacia que representa Boaventura no Brasil escreveu que “o nobre Professor, em seus 60 anos de carreira jamais respondeu qualquer processo ético disciplinar e vem, há mais de um ano, sofrendo um julgamento midiático sem jamais ter sido formalmente denunciado em âmbito administrativo ou judicial”.

Na carta, a defesa acrescenta, “o Sr. Boaventura, que tem serviços históricos prestados no campo dos direitos humanos, jamais, teve uma denúncia formalizada contra si, jamais teve acesso a um depoimento formalizado e há muito tempo vem sendo reiteradamente confrontado por meio de matérias jornalísticas, cartas apócrifas e informações imprecisas, sendo-lhe vedado o contrário e a ampla defesa, um caso característico de Lawfare.” A resposta completa está aqui.

A professora Maria Paula Meneses preferiu não comentar as acusações. Não tivemos retorno do professor Bruno Sena Martins até a publicação. 

Licença Creative Commons

Este artigo foi originalmente publicado no site da Agência Pública e republicado na íntegra n'o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY-ND 4.0.

26.05.24

Projeto para combate ao desperdício de pescado

Objetivo é promover separação mais eficiente do peixe, imediatamente antes de ser distribuído pelo m


por Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

eelinstudio/Envato Elements

Investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR-UP) integram um consórcio nacional unido para garantir a qualidade do pescado, promover a segurança alimentar e o combate ao desperdício.

Vertical Fish, enquadrado no Pacto da Bioeconomia Azul e financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência e liderado pelo grupo MC, tem o compromisso de encontrar novas ferramentas para assegurar a qualidade do peixe que chega às nossas casas, sem desperdiçar.

“Quando pretendemos fazer a análise da qualidade do pescado, no momento em que o peixe chega à Lota, para ser distribuído por toda a cadeia de distribuição, temos necessidade de manusear e de destruir, pelo menos alguns peixes, para efetuar uma análise efetiva, que nunca será possível fazer em todo o peixe que será vendido, por causa do método destrutivo usado”, explica Maria João Santos, docente da FCUP e investigadora do CIIMAR-UP, que lidera o grupo WP7 – STOP Parasitas, no âmbito do Pacto da Bioeconomia Azul, no qual se insere este projeto.

Assim, esta equipa de investigadores pretende desenvolver tecnologias não invasivas para análise do pescado. “Neste projeto associamos os tradicionais métodos de análise do pescado com inovadoras tecnologias de captação de imagem, que, associadas a uma base de dados eficiente, poderão dar-nos o resultado da análise, muito mais rapidamente, e sem invadir o peixe, resolvendo o problema atual”, descreve a investigadora.

O objetivo é promover uma mais eficiente separação do peixe com qualidade do que não a possui, imediatamente antes do peixe ser distribuído pelo mercado.

Aposta na aquacultura sustentável

Para além deste desafio, o Vertical Fish pretende também garantir a sustentabilidade na aquacultura. Promove, paralelamente, a construção de sistemas modulares inovadores, proporcionando uma estratégia de desperdício zero, no setor da aquacultura. Essa abordagem única permite a reutilização de diferentes nutrientes em várias etapas da produção, utilizando organismos de baixo nível trófico (organismos que desempenham um papel fundamental na transferência de nutrientes ao longo da cadeia alimentar).

O projeto Vertical Fish é liderado pela MC e conta com a participação de diversas entidades, desde empresas, a universidades, centros de investigação e centros tecnológicos. Para além da FCUP e CIIMAR-UP, participam também o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência – INESC TEC, a A4F, SA – Algae for Future, B2E – CoLAB para a Bioeconomia Azul (B2E CoLAB), o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Neadvance, Seaentia, e as Universidades de Aveiro e do Minho.

Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto "Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa", promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

23.05.24

Como escolher o melhor tipo de crédito para as tuas necessidades

Assentes em montantes de financiamento alargados e contratação rápida, estes são os tipos de crédito


por Fernando Gonçalves

Andrea Piacquadio/Pexels

Para diferentes necessidades, diferentes soluções. Este poderia ser o mantra do chamado crédito ao consumo que, sob a sua capa, abraça uma série de soluções de financiamento que se adequam às diferentes necessidades dos consumidores.

Tipos de crédito ao consumo mais comuns em Portugal

Assentes em montantes de financiamento e prazos de reembolso alargados, taxas de juro competitivas e contratação simples e rápida, estas são os tipos de crédito ao consumo mais comuns em Portugal com a ajuda do Credibom, instituição de crédito que oferece uma abrangente gama de soluções de financiamento aos consumidores portugueses:

Crédito simples

O crédito simples ou crédito pessoal simples é um tipo de empréstimo pessoal que se caracteriza por oferecer aos consumidores uma experiência de contratação e taxas de juro “light”  fixas ao longo do contrato, com montantes de financiamento que, no caso do Credibom, se situam entre os 3 mil euros e os 4900 euros, prazos de reembolso que vão dos 12 aos 60 meses, TAN desde 10,75% e TAEG desde 15,17%.

Esta “leveza” acaba por resultar em prestações mensais mais amigas da carteira e numa gestão financeira mais flexível.

Para além das mensalidades e taxas de juro fixas, na Credibom o processo de contratação é totalmente digital e ainda vem com isenção de comissões de abertura, seguro de crédito e flexibilidade na escolha da data de débito da prestação.

Em suma, o crédito simples é um tipo de empréstimo simples e rápido que tem um impacto muito reduzido nas nossas finanças pessoais e que nos permite desbloquear pequenas necessidades de financiamento.

Crédito pessoal

O “parente” mais velho do crédito simples é o nosso bem conhecido crédito pessoal sem finalidade.

Tal como o nome indica, este tipo de crédito pode ser utilizado em vários domínios (pagar propinas, comprar um carro, financiar um projeto profissional em nome individual, etc.) oferecendo, de permeio, montantes de financiamento que variam entre os 200 euros e os 75 mil euros, prazos de reembolso que vão dos 24 aos 84 meses e taxas de juro fixas ao longo de todo o contrato.

Como acontece com todos os créditos Credibom, esta solução de crédito pode ser contratada de forma 100% online e o prazo máximo de resposta ao pedido é de 24 horas. Em caso de resposta positiva à solicitação do consumidor, o dinheiro é transferido para a conta deste em 48 horas.

Crédito para obras

Quando o telhado começa a meter água e precisamos de o substituir ou queremos renovar a nossa casa, entra em campo o crédito para obras que, tal como o nome indica, está preparado para nos garantir o financiamento de que necessitamos para fazermos obras ou pequenas reparações em casa.

Na Credibom, este crédito para obras e pequenas reparações coloca à nossa disposição montantes de financiamento entre os 5 mil e 50 mil euros, prazos de reembolso de 24 a 84 meses, taxas (TAN) de 11,10% a 12,10% e isenção de comissão de abertura de contrato.

Nota: aprovação sujeita à apresentação do orçamento detalhado das obras a efetuar.

Crédito para férias

Quem procura um crédito fácil para que, depois de um ano de trabalho, se possa dedicar ao “dolce far niente” numa praia deserta ou num local culturalmente intenso, encontra no crédito para férias, uma modalidade de crédito com uma finalidade específica, um empréstimo simples e amigo da carteira.

Ajustado em termos de montantes, prazos e taxas de juro à finalidade “férias”, o crédito para férias é, sem dúvida, uma das opções de financiamento simples mais procuradas pelos portugueses.

No caso do crédito para férias do Credibom, esta solução oferece montantes que variam entre os 3 mil e os 10 mil euros, prazos de reembolso de 12 a 60 meses e taxas desde 10,75% para a TAN e 15,17% para a TAEG.

Crédito automóvel

Caso aquilo de que necessitamos seja um carro e não umas férias ou umas obras, o recomendado é recorrer a um crédito automóvel.

Criado com a função de garantir uma modalidade de crédito à medida de quem quer adquirir um carro novo ou usado, o crédito automóvel do Credibom oferece montantes que variam entre os 7500 euros e os 75 mil euros e prazos de 30 a 120 meses com TAN desde 6,00% e TAEG de 8,56%.

22.05.24

Coimbra: Serenata Monumental cancelada

Organização diz que questões de segurança não foram asseguradas no local habitual.


por Bruno Micael Fernandes

Cidonio Rinaldi (CC BY-SA 3.0 DEED)

A Serenata Monumental da Queima das Fitas de Coimbra foi cancelada, informou a Comissão Organizadora da Queima das Fitas (COQF) num comunicado publicado nas redes sociais esta quarta-feira.

Intitulada "Unidos no objetivo, não na forma!", a missiva da COQF refere que o evento foi cancelado por se terem esgotado "todos os prazos para garantir todas as condições de segurança e logísticas exigidas pelas autoridades competentes", com a agravante das "autoridades com a prerrogativa legal" não terem emitido os pareceres para a realização da serenata: "Até à data, como é público, não houve pareces positivos expressos destas entidades para a realização da Serenata na Sé Velha, porém foi possível perceber que medidas seriam necessárias para a realização do evento onde todos desejamos que ele possa acontecer", refere a Comissão.

A "única solução" que não teve "cedência"

Com a ausência de pareceres positivos e "dado o curto espaço de tempo" a COQF e a polícia não conseguiram " assegurar as exigências logísticas, de recursos e materiais inerentes à realização do mesmo no espaço Sé Velha, nos moldes que permitam parecer positivo e sua autorização, conforme exigido por lei".

Apesar deste contratempo, ainda surgiu uma nova solução: transferir a Serenata para a Sé Nova. Mas essa solução não colheu aprovação junto da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra. Segundo a COQF, a secção cultural não demonstrou "qualquer tipo de cedência neste processo" e recusou-se a atuar em qualquer outro local que não a Sé Velha.

22.05.24

Diana Lima confirmada no NOS Alive

Cantora portuguesa atua no WTF Clubbing.


por Bruno Micael Fernandes

Melissa Vieira/Divulgação

É a mais recente confirmação do cartaz do NOS Alive: Diana Lima vai estar no palco WTF Clubbing para apresentar o seu EP "Beco Com Saída".

Segundo a promotora Everything Is New, o concerto de apresentação deste novo EP, totalmente composto pela artista, "pretende continuar a destacá-la no universo dos compositores e intérpretes pop em Portugal".

Lima vai estar no festival no dia 12 de julho, no mesmo dia que Dua Lipa, Michael Kiwanuka ou AURORA.

A 16.ª edição do NOS Alive acontece no Passeio Marítimo de Algés de 11 a 13 de julho. Os bilhetes estão à venda.

21.05.24

Faculdade de Direito da Católica inicia curso sobre Regulação de Alterações Climáticas

Formação acontecerá em formato híbrido.


por Bruno Micael Fernandes

Universidade Católica Portuguesa

Dirigido a juristas e profissionais quetrabalham no âmbito das alterações climáticas e da transição energética e pretende oferecer "formação teórico-prática e multidisciplinar sobre a transição para uma economia descarbonizada". É o novo curso de "Regulação das Alterações Climáticas" que está a ser dinamizado pela Escola de Lisboa da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa (Católica) e o Católica NEXT - Formação Avançada em Direito.

Com coordenação dos docentes da Católica Armando Rocha e Ana Filipa Antunes e de Alice Khoui, do grupo de consultoria Helexia Group e de Débora Melo Fernandes, da sociedade de advogados Pérez-Llorca, o curso é dividido em quatro módulos de formação e centra-se em "dar a conhecer o atual quadro regulatório internacional, europeu e nacional, ajudar a compreender a razão de ser das soluções regulatórias, identificar os desafios e as consequências práticas da nova regulamentação na área das alterações climáticas, ajudar a antecipar as principais tendências futuras em matéria de regulação e litigância climática e, por último, dialogar com profissionais com experiência prática nestas áreas, designadamente através de discussão de case studies", refere a instituição de ensino superior em nota enviada às redações.

Para Armando Rocha, o curso irá "dotar juristas e profissionais na área das alterações climáticas de novos conhecimentos e formação sobre o quadro regulatório e jurídico. O ‘novo mundo’ da transição climática exige uma adaptação dos modelos de atuação e um conhecimento transversal e especializado sobre o futuro quadro regulatório e as novas formas de litigância", refere.

A formação intensiva arranca esta quarta-feira, 22, em formato híbrido, com duas aulas semanais, sendo que se prolongará até julho, mas ainda é possível a inscrição online. Todas as informações estão disponíveis no site da instituição.

20.05.24

Desvendado mistério secular sobre a cor dos cucos

A chave está numa mutação com cerca de 1 milhão de anos.


por Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

DennisJacobsen/Envato Elements

A variação natural característica das espécies encontra-se, por vezes, restrita a um só sexo, criando um enigma ao qual os cientistas há muito procuram resposta. Num novo estudo publicado na revista científica Science Advances, um consórcio internacional co-liderado pela estudante de doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução da Faculdade de Ciências da Universidade do PortoCristiana Marques, também investigadora no BIOPOLIS-CIBIO, aplicou ferramentas de genómica de nova geração para estudar um mistério natural com mais de 200 anos – a fêmea de cuco “hepática”. O estudo revela a razão genética que explica o facto de fêmeas de diferentes espécies de cucos possuírem cores muito distintas.

Em 1788, o naturalista sueco Anders Sparrman, um discípulo do famoso Lineu, descreveu uma variedade de cucos arruivados à qual chamou “cuco hepático”, e que considerou tão distinta dos habituais cucos cinzentos que a catalogou como uma nova espécie de ave. Ao longo dos séculos seguintes, tornou-se claro para os naturalistas que os cucos hepáticos eram apenas uma variedade colorida do cuco-canoro europeu mais comum (Cuculus canorus), mas com uma particularidade: enquanto os machos de cuco são sempre cinzentos, as fêmeas podem ser ou cinzentas (semelhantes aos machos), ou ser da variante arruivada, apelidada “hepática”.

Esta descoberta tornou-se mais intrigante quando se descobriu que outras espécies de cuco, para além do mais famoso cuco-canoro europeu, também tinham a mesma variação cinzenta-ou-hepática restrita às fêmeas.

A cor é essencial para o estilo de vida parasítico dos cucos: a fêmea dispõe apenas de segundos para pôr os seus ovos nos ninhos de outras aves; para o fazer, o seu dorso cinzento e o peito barrado mimetizam a cor de aves de rapina como o gavião, afugentando temporariamente o hospedeiro. Os cientistas têm-se por isso debatido com várias questões: qual é a razão para esta cor alternativaporque é que apenas as fêmeas são variáveis, e porque é que tantas espécies de cucos mostram esta variação?

“As diferenças de aspeto entre indivíduos de sexos diferentes são comuns em animais, mas variação que é restrita a um sexo é muito menos comum” explica Miguel Carneiro, investigador principal no BIOPOLIS-CIBIO, orientador de Cristiana Marques e um dos autores do estudo. “Um exemplo é a perda de cabelo com a idade, que afeta alguns homens e outros não, mas que não afeta as mulheres. Exemplos como este não são habituais, em particular em espécies selvagens, por isso esta oportunidade de estudar a variante hepática do cuco foi muito aliciante”, acrescenta o investigador.

A chave está numa mutação com cerca de 1 milhão de anos

“Nós começamos por estudar uma população de cucos da Hungria na qual as fêmeas hepáticas coexistem com fêmeas cinzentas,” descreve a estudante da FCUP, Cristiana Marques, uma das autoras principais deste trabalho. Depois de os cientistas descodificarem os genomas dos cucos, encontraram algo estranho: “as fêmeas cinzentas e hepáticas têm um perfil genético comum, tão semelhantes como qualquer vizinho. No entanto, quando olhamos para os cromossomas sexuais, vimos que, no cromossoma W, que é um cromossoma específico das fêmeas de aves, eram tão diferentes que parecia que estávamos a olhar para duas espécies distintas”, explica Marques.

Será que as outras espécies de cuco poderiam ajudar a resolver esta questão? Os investigadores focaram-se, de seguida, no cuco-oriental, uma espécie asiática na qual as fêmeas também por vezes são da variante hepática. Quando consideraram a informação genética das duas espécies, a história das fêmeas hepáticas tornou-se mais clara: “Reconstruímos a árvore evolutiva destes cucos e descobrimos que, ao contrário do resto do genoma, no cromossoma W o parentesco é maior consoante a cor da fêmea. Ou seja, uma fêmea de cuco-canoro hepática tem um W mais semelhante ao de uma fêmea hepática de cuco-oriental, do que o da fêmea cinzenta da mesma espécie” acrescenta, por sua vez, Pedro Andrade, também investigador no BIOPOLIS-CIBIO e coautor do artigo. “Para chegar ao fundo da questão, testamos se esta partilha de variação ocorria devido ao acaso, por hibridação, ou se a variação era tão antiga que precedia as espécies atuais”.

“E os nossos dados sugerem que esta variação é efetivamente muito antiga. A mutação original ocorreu provavelmente há cerca de um milhão de anos, antes do aparecimento do cuco-canoro e do cuco-oriental atuais, e tem sido passada geração após geração à medida que as espécies evoluíram”, explica Cristiana Marques.

De acordo com a equipa, este é um excelente exemplo de como, por vezes, diferentes variedades da mesma característica podem ser vantajosas, em contraponto à visão mais clássica da evolução na qual uma variante se sobrepõe às outras e leva a mudanças nas populações ao longo do tempo.

De acordo com Miguel Carneiro, “os resultados demonstram como é que variação restrita a um sexo pode ser determinada pelos cromossomas sexuais, o que à primeira vista parece intuitivo, mas que surpreendentemente até agora tinha sido difícil de demonstrar”.

Para os cucos, manter duas formas diferentes numa população poderá impedir os hospedeiros dos ninhos de aprenderem a distinguir as fêmeas das aves de rapina que mimetizam, salvaguardando a espécie.

Neste momento prosseguem esforços para demonstrar se estas cores têm facilitado o estilo de vida parasítico dos cucos ao longo da sua evolução.

Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto "Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa", promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

20.05.24

Alijó celebra Festa do Livro com atividades na Biblioteca Municipal

Evento contará com a presença de José Eduardo Agualusa.


por Bruno Micael Fernandes

Município de Alijó

Quer ser para todas as idades para que todos possa "viver e reinventar a Biblioteca e os Livros". Arranca esta sexta-feira, 24, a Festa do Livro na Biblioteca Municipal de Alijó.

Segundo o programa disponibilizado pela autarquia, a Festa terá diversos espetáculos infantis, além da exposição "Vida e Obra da Escritora Luísa Ducla Soares", que será inaugurada no dia 24, e a Feira do Livro Dado "Livros a Circular", uma iniciativa cujo objetivo é "ser um espaço de partilha, solidariedade e de convívio em torno dos livros", criando uma ambiente para a troca de livros em bom estado de qualquer género, exceto livros escolares.

O escritor José Eduardo Agualusa marcará presença no evento com duas sessões do espetáculo "Estranhões e Bizarrocos", no dia 28 de maio, e haverá também duas sessões de danças de salão, no dia 29.

A Festa do Livro apenas termina no dia 31 de maio, sendo que todos os eventos são de entrada livre. O programa pode ser consultado no site do município.

16.05.24

Viana do Castelo promove Meet Up sobre "comunicar e promover um negócio"

Evento quer dar espaço para a “partilha de experiências” e da “inovação nos serviços turísticos” do


por Bruno Micael Fernandes

Município de Viana do Castelo

A autarquia de Viana do Castelo, vai promover o primeiro Meet Up de 2024, inserido na Rede Municipal de Turismo.

"Como Comunicar e Promover um Negócio desde Viana do Castelo" é o tema da conferência, que será totalmente digital, e que pretende "proporcionar um espaço de partilha de experiências e conhecimentos, promovendo a inovação nos serviços turísticos oferecidos no território".

Frederico Carvalho, CEO da consultora "DIGITALFC"; João Freitas, "Chief of Growth & Marketing" da empresa de software "Host Hotel Systems"; Mariana Duarte, responsável pelo Digital Marketing da agência "Message In A Bottle"; e Maurício Ribeiro, fundador da "Maumau Mia Produções" serão os oradores do evento.

O evento acontece já na próxima terça-feira, 21 maio, a partir das 10h, e é totalmente gratuito, sendo necessária inscrição na plataforma ZOOM.

A Rede Municipal de Turismo é uma iniciativa da autarquia vianense, em parceria com a Associação Fórum Turismo.

13.05.24

Don Toliver confirmado no Sudoeste

Festival decorre de 07 a 10 de agosto.


por Bruno Micael Fernandes

Música No Coração/Direitos reservados

É mais uma confirmação para o festival da Zambujeira do Mar: Don Toliver vai estar no Sudoeste. A informação é da promotora Música no Coração.

O artista, descrito como "um dos nomes mais fortes do hip-hop internacional", vai ser o cabeça-de-cartaz do segundo dia do festival, 08 de agosto: "Cantor de soul, compositor e artista, Don Toliver exibe um som único que destaca sua influência musical de Hip-Hop, R&B, Pop ambiciosa e um pouco de Rock, criando uma fusão de género própria e distintiva", acrescenta a promotora.

Don Toliver junta-se assim aos já confirmados Charlotte de Witte, Rich the Kid e Van Zee para o segundo dia do festival que conta também com Martin Garriz, Bárbara Bandeira, Anitta, Richie Campbell, Alok e Da Weasel, entre outros.

O Sudoeste acontece de 07 a 10 de agosto, na Herdade da Casa Branca, na Zambujeira do Mar. Os bilhetes já estão à venda.

12.05.24

Eurovisão: RTP quer "respostas cabais" da EBU sobre atraso na divulgação da atuação portuguesa


por Bruno Micael Fernandes

Sarah Louise Bennett/EBU

As ondas de choque da final deste sábado do Festival Eurovisão da Canção ainda estão bem latentes e o caos da edição mais politizada de sempre teve impacto na atuação portuguesa, com o vídeo de "Grito" a ser publicado no site e no YouTube do evento já bem perto do encerramento das votações.

Agora, a RTP quer explicações "cabais" da União Europeia de Radiodifusão (na sigla em inglês, EBU - "European Broadcast Union") sobre o atraso na publicação do vídeo e a estação pública vai analisar o que aconteceu nesta edição do Eurofestival, desde a alegada intimidação da comitiva israelita à votação do público na canção de Israel.

"Ah! Mas a vossa concorrente tem motivos pró-Palestina pintados nas unhas" - elemento da organização

Iolanda cantou o tema "Grito" e muitos aguardavam pela partilha do tema por parte da EBU. Mas a entidade trocou as voltas: nas redes sociais, foi publicado um excerto da atuação na primeira semi-final; no site, publicou as fotos desse momento e no YouTube, o envio não foi efetuado em tempo útil, tendo a organização saltado para a atuação seguinte.

O vídeo lá acabou por ser divulgado, mas quase no final do período de votações.

O que terá atrasado esta divulgação? Em declarações na emissão "3 às 15" da RTP3, o presidente do Conselho de Administração da estação pública Nicolau Santos afirmou que a RTP não tem, até ao momento, "evidência de que o atraso na entrada do vídeo tenha tido a ver com qualquer motivo relativamente à forma como a Iolanda se apresentou em palco".

A cantora apresentou-se com as unhas pintadas com motivos pró-Palestina e essa questão foi levantada numa troca de emails entre a delegação portuguesa e a organização do festival. Quando percebeu que o vídeo da atuação ainda não tinha sido publicado, tal como os de outras atuações, ou seja, logo após a sua apresentação em palco, a delegação portuguesa entrou em contacto com a organização do festival. Inicialmente, alegou-se haver um problema técnico, mas logo elencaram outra questão: "É nessa troca de emails que a pessoa que está a responder à nossa delegação disse: 'Ah! Mas a vossa concorrente tem motivos pró-Palestina pintados nas unhas'. E houve da nossa parte a pergunta 'Sim, mas o que é que isso tem a ver? Qual é o problema que daí resulta?' e o que aconteceu é que, imediatamente a seguir, o vídeo entrou", refere Santos.

A troca de emails terá durado cerca de "meia-hora", segundo o responsável, sendo que agora, a RTP quer respostas: "Estamos à espera de saber explicações mais cabais", assegura.

E um protesto formal? O presidente do Conselho de Administração não descarta essa hipótese, mas é preciso ter calma: "Temos de ter consolidadas as indicações do que se passou e se, efetivamente, houve um problema técnico ou se foi alguém que estava na régie que, propositadamente, atrasou a entrada do vídeo no ar".

"Este festival merece uma reflexão" - Nicolau Santos

A questão israelita foi também abordada nesta intervenção no canal público de notícias. Quando questionado sobre a alegada intimidação por parte da comitiva israelita para com outras comitivas, Nicolau Santos remeteu para uma reunião com a delegação portuguesa: "Na terça-feira, em Lisboa, vamos ter uma reunião para analisar, com as pessoas que estiveram em Malmö, os factos que pensamos que devem ser corrigidos e debatidos a nível da Eurovisão, precisamente para evitar que eles se voltem a repetir", diz o responsável, acrescentando que "este festival merece uma reflexão pela forma como decorreu e pelo vários factos que ocorreram". O festival foi alvo de várias manifestações, dentro e fora da Malmö Arena, devido à presença de Israel, mas também devido ao afastamento do concorrente dos Países Baixos.

E foi justamente este país que conseguiu "uma votação verdadeiramente extraordinária" por parte do voto do público. Santos vai mais longe: "Para um evento que não se quer político, é óbvio que temos de refletir sobre esta votação, que foi uma votação política de pessoas que apoiam Israel e que levaram Israel para este nível de classificação". Recorde-se que a própria votação do televoto português deu 12 pontos a Israel.

Sair da Eurovisão não está, no entanto, em cima da mesa: "A nossa participação junto da Eurovisão vai muito para lá deste evento, nomeadamente em matéria de formação, de apoio técnico, de recursos, etc., portanto, não faz grande sentido Portugal estar a equacionar sair da Eurovisão", indicou o dirigente, mas acrescentou que ainda não havia "nenhuma decisão em não participar neste concurso".

A edição 2024 do Festival Eurovisão da Canção foi ganha pela Suíça, que recebeu 591 pontos. Portugal ficou em décimo lugar.

11.05.24

Suíça vence o Festival Eurovisão da Canção

Portugal ficou em 10.º lugar.


por Bruno Micael Fernandes

Corinne Cumming/EBU

A Suíça ganhou a edição 2024 do Festival Eurovisão da Canção. A final do concurso decorreu este sábado em Malmö, na Suécia. Portugal ficou em 10.º lugar.

"The Code" de Nemo recebeu 591 pontos do júri e do público. Croácia e França conseguiram o segundo e o terceiro lugares, respetivamente.

Nas pontuações dos júris nacionais, Portugal recebeu 139 pontos dos juris da Albânia, Arménia, Bélgica, Chéquia, Croácia (12 pontos), Eslovénia, Espanha, França (12 pontos), Geórgia, Grécia, Irlanda, Islândia, Israel, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Moldova, Países Baixos, Polónia, Reino Unido (12 pontos), San Marino, Suécia, Suíça e Ucrânia. Já na votação do público, o tema "Grito" de Iolanda recebeu apenas 13 pontos.

Esta é a terceira vez que a Suíça vence o Festival. A última vez foi em 1988 com Celine Dion e o tema "Ne Partez Pas Sans Moi".

11.05.24

Canais transmitem celebrações de maio em Fátima

Cerimónias serão a principal aposta das estações.


por Bruno Micael Fernandes

Tânia Mousinho/Unsplash

A Peregrinação Aniversário do 13 de Maio, em Fátima, poderá ser acompanhada na televisão e na internet. Canção Nova Portugal, RTP e TVI vão transmitir as celebrações e o Santuário assegurará as transmissões através de streaming.

RTP estreia filme "Fátima", de Marco Pontecorvo

Apenas alguns dos canais dedicarão espaço a outros conteúdos, para além da transmissão das celebrações.

No dia 12 de maio, apenas a Canção Nova Portugal transmitirá em direto e na íntegra a Procissão das Velas em direto. Segundo a programação disponibilizada pelo canal de inspiração católica, a emissão começará por volta das 21h30. Já a RTP1, transmitirá a cerimónia em diferido a partir das 00h54 e TVI emitirá a cerimónia a partir das 02h50. Nas antenas internacionais, a RTP Internacional transmitirá a partir das 00h48 e a TVI Internacional emitirá a cerimónia a partir das 00h55.

No dia 13 de maio, RTP 1, RTP África e RTP Internacional, TVI e TVI Internacional arrancam a transmissão a partir das 10h. Já a Canção Nova Portugal começa a sua emissão a partir das 09h. O Santuário também transmitirá as cerimónias na íntegra no site e no YouTube.

Quanto a outros conteúdos, a aposta mais forte vem da estação pública. O destaque vai para a estreia em canal aberto do filme "Fátima", de Marco Pontecorvo, na RTP1. Marco D'Almeida, Lúcia Moniz, Sônia Braga, Joana Ribeiro e Goran Visnjic fazem parte do elenco que revisita a história das aparições de Fátima e a sociedade portuguesa de 1917. O filme será emitido no dia 13, a partir das 22h56. Já na RTP Memória, será emitido um documentário de Ruy Ferrão: "Fátima e a Rússia" é o nome do programa "procura compreender a relação entre as aparições de Fátima, as revelações e a Rússia", esclarece o canal. O documentário será emitido a partir das 19h05.

Nos canais temáticos, o destaque vai para a Cinemundo que vai transmitir o documentário espanhol "Fátima, O Derradeiro Mistério". A emissão está prevista para o dia 13 de maio, às 08h20.

A Peregrinação Aniversária de Maio vai acolher peregrinos oriundos de mais de 20 países. O arcebispo de Barcelona e cardeal Juan José Omella vai presidir às cerimónias.

04.05.24

Lavender: a máquina de inteligência artificial que comanda bombardeamentos de Israel em Gaza

Exército israelita usou inteligência artificial para tornar como alvo 37 mil moradores de Gaza.


por Agência Pública

Palestinian News & Information Agency (Wafa) in contract with APAimages

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Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Yuval Abraham e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.

O livro “A equipe homem-máquina: como criar sinergia entre a inteligência humana e artificial que revolucionará nosso mundo” [tradução livre do inglês] defendia a criação de uma máquina para processar rapidamente grande quantidade de dados para gerar milhares de alvos em potencial para ataques militares. O autor da obra, lançada em 2021, assinava com o pseudônimo “General de brigada YS”. O “general” do livro, que confirmamos ser o atual comandante da unidade de inteligência israelense de elite 8200, afirmava que tal tecnologia resolveria o “gargalo humano na localização de novos alvos e na tomada de decisões”.

De acordo com seis oficiais das forças de inteligência israelenses, que serviram o exército na atual guerra na Faixa de Gaza e tiveram envolvimento direto com a IA na geração de alvos humanos, o Lavender desempenhou papel central nos bombardeios aos palestinos, sobretudo nos primeiros estágios da guerra. Segundo as fontes, a influência do programa foi tão grande que os resultados do trabalho da IA foram tratados “como decisões humanas”.

Em tese, o sistema Lavender foi concebido para apontar suspeitos de operar nas alas militares do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina, inclusive pessoas de baixo escalão. As fontes disseram que, nas primeiras semanas da guerra, o exército confiou quase completamente no Lavender, que registrou cerca de 37 mil palestinos como suspeitos.

Nos primeiros meses, o exército deu ampla aprovação para que seus oficiais adotassem listas de mortes produzidas pelo Lavender, sem nenhuma exigência de verificação minuciosa sobre as escolhas do programa. Uma fonte afirmou que a mão humana muitas vezes servia somente para chancelar as decisões da máquina, acrescentando que, normalmente, eles dedicavam apenas cerca de “20 segundos” a cada alvo antes de autorizar um bombardeio.

Isso acontecia mesmo com o Exército sabendo que o sistema “erra” em aproximadamente 10% dos casos e, ocasionalmente, aponta indivíduos que têm apenas ligação superficial ou nenhuma ligação com o Hamas ou a Jihad.

Além disso, o exército atacou sistematicamente indivíduos apontados como alvo ​​enquanto estavam nas suas casas – geralmente à noite, com as famílias –, e não durante atividades militares. Segundo as fontes, isso ocorreu porque era mais fácil localizá-los nas residências. 

O resultado é que milhares de palestinos – em sua maioria mulheres, crianças ou pessoas que não estiveram envolvidas nos combates – foram exterminados por ataques aéreos israelenses, sobretudo nas primeiras semanas da guerra.

“As Forças de Defesa de Israel (IDF) bombardeavam dentro de casa, sem hesitação. É muito mais fácil bombardear a casa de uma família. O sistema foi construído para rastrear as pessoas nestas situações”, disse A, um oficial de inteligência.

Além disso, nos ataques a alvos apontados pelo Lavender, o exército israelense preferiu usar apenas mísseis não guiados, vulgarmente conhecidos como bombas “burras”, que podem destruir edifícios inteiros. “Não querem desperdiçar bombas caras com pessoas sem importância”, disse C, um dos oficiais do serviço secreto israelense. Outra fonte autorizou pessoalmente o bombardeio de “centenas” de casas de supostos agentes iniciantes (de baixo escalão), matando civis e famílias inteiras.

Duas das fontes afirmam que, numa ação sem precedentes, o exército decidiu também, durante as primeiras semanas da guerra, que, para cada agente iniciante do Hamas apontado pelo Lavender, seria permitido matar até 15 ou 20 civis; para altos funcionários, o limite chegava a mais de 100 civis.

A seguir, a reportagem mostra as fases, em ordem cronológica, da automatização de alvos nas primeiras semanas da guerra em Gaza. 

1.ª Fase: Gerar metas

No passado, para o exército israelense, o termo “alvo humano” se referia a um agente de alto escalão que poderia ser morto em casa, mesmo com civis por perto. Fontes da inteligência disseram que, em outras guerras, tais alvos eram apontados com muito cuidado. 

Depois de 7 de outubro de 2023 – quando terroristas liderados pelo Hamas fizeram um ataque às comunidades do sul de Israel, matando cerca de 1.200 pessoas e sequestrando 240 –, o exército adotou uma abordagem totalmente diferente: todos os agentes da ala militar do Hamas se tornaram alvos humanos, independentemente do escalão. 

De acordo com quatro das fontes, o Lavender apontou cerca de 37 mil palestinos como possíveis “membros do Hamas” – a maioria deles eram agentes iniciantes. O porta-voz das Forças de Defesa de Israel negou a existência da lista em nota enviada à reportagem. “Queriam autorização para atacar automaticamente. Esse é o Santo Graal. Depois de automatizada, a geração de alvos enlouquece”, explicou o oficial superior B.

A aprovação para adotar automaticamente as listas de mortes foi concedida duas semanas após o início da guerra, depois que as equipes de inteligência verificaram “manualmente” a precisão de uma amostra aleatória de centenas de alvos selecionados pelo sistema. 

Como a amostra concluiu que os resultados do Lavender atingiram 90% de precisão, o exército autorizou o uso abrangente da IA. A partir daí, se o Lavender decidisse que um indivíduo era membro do Hamas, não havia necessidade de verificação independente.

“Foi muito surpreendente pedirem para bombardear uma casa para matar um soldado tão pouco importante”, disse uma fonte. “Eu apelidei estes alvos de ‘alvos de lixo’. Ainda assim, me parecia ético bombardear os alvos para ‘dissuasão’ – arranha-céus derrubados apenas para causar destruição.”

De acordo com dados do Ministério da Saúde palestino em Gaza, que o exército israelense usa quase que exclusivamente desde o início da guerra, Israel matou cerca de 15 mil palestinos nas primeiras seis semanas da guerra, até o cessar-fogo de uma semana iniciado em 24 de novembro. Hoje, o número de mortes já quase dobrou.

O software Lavender analisa informações sobre a maioria dos 2,3 milhões de residentes da Faixa de Gaza por um sistema de vigilância em massa. Em seguida, avalia a probabilidade de cada pessoa estar ativa na ala militar do Hamas ou da Jihad Islâmica Palestina. Segundo as fontes, a máquina classifica quase todas as pessoas em Gaza em uma escala de 1 a 100. 

No livro mencionado no início desta reportagem, o autor e atual comandante da Unidade 8200 não chama o Lavender pelo nome. O livro traz um breve guia para construir um programa semelhante ao Lavender e mostra exemplos de traços que podem aumentar a classificação de um indivíduo, como fazer parte de um grupo de WhatsApp com um membro conhecido do Hamas, trocar de celular em poucos meses e mudar de endereço com frequência. 

Fontes explicaram que o Lavender às vezes sinalizava erroneamente indivíduos que tinham padrões de comunicação semelhantes aos de agentes do Hamas ou da Jihad Islâmica Palestina. Eram funcionários da polícia e da defesa civil, parentes de membros dos grupos terroristas, residentes de Gaza com nome e sobrenome idênticos e moradores que usavam celulares que haviam pertencido a eles. 

“Quão próxima uma pessoa deve estar do Hamas para ser considerada afiliada?”, disse uma fonte que criticou a imprecisão do Lavender. “É um limite vago. Uma pessoa que não recebe salário do Hamas, mas ajuda o grupo com outras coisas, é um agente? E alguém que fez parte, mas não está lá hoje?”

Segundo as fontes, o exército sabia que a supervisão humana mínima não iria descobrir essas falhas. “Não havia uma política de ‘erro zero’. Os erros foram tratados estatisticamente”, disse uma fonte que usou o Lavender. 

“Houve uma quantidade ilógica de [bombardeios] nesta operação. Foi algo sem precedentes. Confio muito mais num mecanismo estatístico do que num soldado que perdeu um amigo há dois dias. Todos lá, inclusive eu, perderam pessoas no dia 7 de outubro. A máquina fez isso com frieza. E isso tornou tudo mais fácil”, disse B.

Outra fonte da inteligência, que defendeu as listas de suspeitos geradas pelo Lavender, argumentou que valia a pena investir o tempo de um oficial de inteligência para verificar a informação só se o alvo fosse um comandante sênior do Hamas. 

B disse que o propósito da automação foi o esforço para gerar mais alvos. “Éramos constantemente pressionados. Gritavam conosco. Nós acabávamos [de matar] nossos alvos muito rapidamente. […] No auge, o sistema conseguiu gerar 37 mil potenciais alvos humanos”, disse B. 

Em nota ao +972 e à Local Call, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel negou o uso de inteligência artificial para apontar alvos, dizendo que estas são apenas “ferramentas auxiliares que auxiliam os oficiais no processo”. 

“Em todo caso, é necessária uma avaliação independente por um analista [de inteligência], que verifique se os alvos são legítimos para ataque, segundo as condições estabelecidas nas diretivas das Forças e no direito internacional”, diz a nota.  

No entanto, fontes disseram que o único protocolo de supervisão humana em vigor antes de bombardear as casas de supostos agentes iniciantes marcados pelo Lavender era garantir que o alvo fosse um homem e não uma mulher. O exército acreditava que, se fosse uma mulher, a máquina teria cometido um erro, porque não há mulheres nas alas militares do Hamas e da Jihad. Na prática, isso significava que, para homens civis apontados equivocadamente pelo Lavender, não havia como detectar o erro. 

Palestinian News & Information Agency (Wafa) in contract with APAimages/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 DEED)

2.ª fase: relacionar os alvos com as casas

A etapa seguinte do protocolo de assassinatos do exército israelense era identificar onde atacar os alvos.

Em nota, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel afirmou que “o Hamas coloca agentes e aparatos militares no coração da população civil e usa sistematicamente escudos humanos, além de travar combates em estruturas civis, incluindo hospitais e escolas. As Forças agem de acordo com o direito internacional, direcionando ataques apenas contra alvos militares”. 

As fontes argumentaram que muitos ataques israelenses matam civis como resultado dessas táticas do Hamas. Por outro lado, explicaram que uma das principais razões para o alto número de mortes são os ataques sistemáticos a alvos em suas casas, com suas famílias.  

As fontes contaram que, como todos em Gaza tinham uma casa à qual podiam estar associados, os sistemas de vigilância do exército poderiam automaticamente “associar” os indivíduos às residências. 

Para identificar o momento em que os agentes entram em casa, foram desenvolvidos softwares automáticos adicionais, que rastreiam milhares de indivíduos simultaneamente, identificam quando estão em casa e enviam um alerta automático ao oficial responsável, que aponta a casa a ser bombardeada. Um destes softwares chama-se Where’s daddy? (Onde está papai?). 

A evidência dessa política fica clara também nos dados: no primeiro mês da guerra, mais de metade das mortes – 6.120 pessoas – pertencia a 1.340 famílias, muitas exterminadas enquanto estavam em casa, segundo a ONU. 

“Um dia, por minha conta, adicionei cerca de 1.200 novos alvos ao sistema, porque o número de ataques diminuiu”, disse uma fonte. “Tais decisões não foram tomadas em altos escalões.”

Nas primeiras duas semanas da guerra, milhares de alvos foram incluídos em programas de localização. Esses alvos incluíam todos os membros da Nukhba, a unidade de forças especiais da elite do Hamas e todos os agentes antitanques do grupo. Mas, em pouco tempo, a lista foi ampliada e incluiu até menores de idade. 

O Lavender e sistemas como Where’s daddy? trabalhavam de forma combinada, matando famílias inteiras. Quando um nome das listas geradas pelo Lavender era adicionado ao Where’s daddy?, explicou A, a pessoa ficaria sob vigilância contínua e poderia ser atacada assim que colocasse os pés em casa. Em seguida, a casa poderia desabar sobre quem estivesse lá dentro.

“Digamos que você calcule [que há um] [agente] do Hamas mais dez [civis na casa]”, disse A. “Normalmente, esses dez serão mulheres e crianças. É tão absurdo que a maioria das pessoas mortas eram mulheres e crianças.”

3.ª fase: escolher uma arma

Em dezembro de 2023, a rede de televisão CNN informou que, de acordo com estimativas da inteligência dos EUA, cerca de 45% das munições utilizadas pela força aérea israelense em Gaza eram bombas “burras”, conhecidas por causarem mais danos colaterais do que bombas guiadas. 

Em resposta à CNN, um porta-voz do exército garantiu que os militares “dedicam muitos recursos para minimizar os danos aos civis obrigados a serem usados como escudos humanos pelo Hamas. Nossa guerra é contra o Hamas, não contra o povo de Gaza”.

Três fontes de inteligência, no entanto, disseram que agentes iniciantes apontados pelo Lavender foram assassinados com “bombas burras”, para economizar armamentos mais caros. Uma delas explicou que o exército não atacaria tal alvo se ele morasse em um prédio alto, porque não gastaria uma bomba mais precisa e cara. 

4.ª fase: autorizar vítimas civis

Uma fonte disse que, ao atacar agentes iniciantes, o número de civis autorizados a matar para cada alvo era de até 20 nas primeiras semanas da guerra. Esses “graus de danos colaterais”, como os militares chamam, foram aplicados a todos os suspeitos de serem iniciantes. 

De acordo com A, ex-oficial numa sala de operações na guerra, o Departamento de Direito Internacional do exército nunca havia dado uma “aprovação tão ampla”. “Não se trata apenas de poder matar qualquer soldado do Hamas, o que é claramente permitido e legítimo no direito internacional. Mas diziam diretamente: ‘Você tem permissão para matá-los com muitos civis’.” Questionada sobre a lógica de segurança por trás dessa política, a fonte respondeu: “Letalidade”.

Fontes disseram ao +972 e à Local Call que agora, em parte devido à pressão americana, o exército israelense não gera alvos em massa para bombardear casas de civis. O fato de a maioria das residências na Faixa de Gaza já ter sido destruída ou danificada, e de quase toda a população ter sido deslocada, também prejudicou a capacidade do exército de confiar em bases de dados e automatização. 

No entanto, os ataques aéreos contra altos comandantes do Hamas continuam, e, segundo as fontes, os militares podem autorizar a morte de “centenas” de civis por alvo – uma política oficial para a qual não há precedente em Israel ou nas recentes operações militares dos EUA.

“No bombardeio contra o comandante do Batalhão Shuja’iya, sabíamos que mataríamos mais de cem civis”, lembrou B, ao se referir a um atentado em 2 de dezembro, que o porta-voz das Forças de Defesa de Israel disse ter como objetivo assassinar Wisam Farhat. “Para mim, psicologicamente, foi incomum. Mais de cem civis… Isso ultrapassa qualquer limite.”

Amjad Al-Sheikh, um jovem palestino de Gaza, disse que muitos de seus familiares foram mortos naquele atentado. Ele estava num supermercado quando ouviu cinco explosões que quebraram as janelas de vidro. 

“Corri para a casa da minha família, mas não havia mais prédios lá”, disse Al-Sheikh ao +972 e à Local Call. “A rua estava tomada por gritos e fumaça. Blocos residenciais inteiros viraram escombros. Eu e outras pessoas começamos a remover o concreto com as mãos, em busca de vestígios das famílias.” Sua esposa e filha sobreviveram, “protegidas” por um armário que caiu em cima delas, mas ele perdeu 11 membros da família, entre eles irmãos e filhos pequenos.  

Fontes de inteligência disseram que participaram de ataques ainda mais letais. Para assassinar Ayman Nofal, comandante da Brigada Central de Gaza do Hamas, uma fonte contou que o exército autorizou a morte de aproximadamente 300 civis, destruindo edifícios em ataques aéreos em um campo de refugiados, com base na localização imprecisa de Nofal.  

“A política em relação às baixas era tão permissiva que, na minha opinião, havia um elemento de vingança”, afirmou D. “Fazíamos um cálculo: ‘Quantas pessoas para um comandante de brigada? Quantas para um comandante de batalhão?’”

Todas as fontes disseram que os massacres do Hamas em 7 de outubro de 2023 e o sequestro de reféns israelenses influenciaram muito a política de ataques do exército e os graus de danos colaterais. 

“No início, a atmosfera era dolorosa e vingativa”, disse B, que foi convocado imediatamente após 7 de outubro e serviu numa sala de operações. “As regras eram muito brandas. Derrubaram quatro prédios quando souberam que o alvo estava em um deles. Foi insano.”

“Havia uma dissonância: por um lado, as pessoas estavam frustradas porque não estávamos atacando o suficiente”, continuou B. “Por outro, no fim do dia, víamos que mais mil habitantes de Gaza haviam morrido, a maioria civis.”

B, a fonte de inteligência sênior ouvida pela reportagem, disse que, olhando em retrospectiva, acredita que esta política “desproporcional” de matar palestinos em Gaza também põe em perigo os israelenses. Essa foi uma das razões pelas quais decidiu falar.

“Em curto prazo, estamos mais seguros, porque prejudicamos o Hamas, mas não estamos a longo prazo. As famílias enlutadas em Gaza – que são quase todas – aumentarão a motivação para [se juntarem] ao Hamas em dez anos. E será muito mais fácil para [o Hamas] recrutá-las.”

Em nota ao +972 e à Local Call, o exército israelense negou a maior parte do que as fontes disseram, alegando que “cada alvo é examinado individualmente, enquanto é feita uma avaliação única da vantagem militar e dos danos colaterais esperados do ataque. As IDF não realizam ataques quando os danos colaterais ultrapassam a vantagem militar”.

5.ª fase: Bombardear uma casa de família

As fontes explicaram que às vezes havia um intervalo considerável entre o momento em que sistemas de rastreamento como o Where’s daddy? alertavam que um alvo havia entrado em casa e o instante do bombardeio. “O resultado é que você mata uma família sem motivo”, afirmou uma delas.

“Às vezes [o alvo] estava em casa mais cedo e à noite ia dormir em outro lugar”, disse uma das fontes. “Há momentos em que você verifica novamente a localização, e outros em que você apenas diz: ‘Ele esteve em casa nas últimas horas, então podemos bombardear’.” 

Nas guerras anteriores em Gaza, após o assassinato de alvos, a inteligência israelense fazia procedimentos de avaliação de danos causados ​​por bombas [BDA, na sigla em inglês] – uma verificação para ver se o comandante superior foi morto e quantos civis foram mortos com ele. Na guerra que começou em outubro de 2023, fontes dizem que esse procedimento foi abolido para poupar tempo quando os alvos eram agentes de baixo escalão.  

Embora os militares israelenses possam avançar após cada ataque sem se preocuparem com o número de vítimas, Amjad Al-Sheikh, o residente de Shuja’iya que perdeu 11 membros da família no bombardeio de 2 de dezembro, disse que ele e os seus vizinhos estão ainda em busca de corpos.

“Quatorze prédios residenciais foram bombardeados com moradores dentro. Alguns dos meus parentes e vizinhos ainda estão soterrados.”

Licença Creative Commons

Este artigo foi originalmente publicado no site da Agência Pública e republicado na íntegra n'o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY-ND 4.0.

02.05.24

Plataforma portuguesa Closum lança Marketplace com integração nativa de softwares

Funcionalidade permite funcionalidades avançadas sem desenvolvimento por parte do utilizador.


por Bruno Micael Fernandes

Closum

É mais uma novidade do software português Closum. A plataforma de marketing e comunicação digital lançou o "Closum Marketplace", uma nova funcionalidade que permitirá a simplificação de ligações com plataformas externas numa abordagem "no-code".

A funcionalidade disponibiliza uma forma fácil de ligar a plataforma com outras aplicações sem necessidade de desenvolvimento externo ou de escrever qualquer linha código, reduzindo o tempo para automatizar e configurar o marketing das empresas: "Falamos de uma gama diversificada de ações e automações, desde carrinhos abandonados, lembretes e notificações, a importações de contactos ou sincronização de dados automáticos”, explica o CEO da Closum Vítor Brandão, acrescentando que passa a ser possível "interligar duas ou mais aplicações de forma personalizada" e de diversas categorias que abrangem múltiplas necessidades de negócios. Softwares e plataformas bastante utilizados como Shopify, Pipedrive, PrestaShop ou Google Calendar estão presentes nesta nova secção.

O Marketplace já está disponível para os utilizadores e representa, segundo Brandão, "um marco significativo na nossa jornada para tornar o marketing e as comunicações mais eficientes, poderosos e acessíveis a todos os nossos utilizadores”. Numa nota enviada às redações, o responsável reforça que este é só mais um passo na contínua melhoria da plataforma, que recebeu uma atualização no final do ano passado: "Estamos sempre a trabalhar em prol dos nossos clientes, afirmando-nos como os parceiros certos para melhorar a comunicação de empresas e entidades".

A Closum foi criada em 2007 e já foi utilizada por mais de 2500 empresas. Desenvolvida em Portugal, a empresa assume-se como uma plataforma para "ajudar marcas a comunicar com a audiência de forma segmentada e personalizada em escala".

02.05.24

Tondela: Molelos revive Soenga

Processo artesanal de cozedura da louça preta é o mote de evento “único no país”.


por Bruno Micael Fernandes

Município de Tondela

Chama-se "Soenga" e é revisitado no fim de semana de 18 e 19 de maio em Molelos, Tondela, num programa cultural que integra música, ateliês e a cozedura de louça preta.

A recriação da Soenga acontece no Parque das Raposeiras, em Molelos e "permite, durante dois dias e pelas mãos dos oleiros de Molelos, acompanhar de perto um dos mais antigos métodos de cozedura de cerâmica", refere o município tondelense. Os visitantes podem acompanhar "todas as fases do processo de cozedura" que serão acompanhadas pelos oito oleiros ainda em atividade na localidade.

Além do processo de cozedura, o programa contará com ateliês de demonstração de cerâmica e concertos com os Lôa Trovadoresca, Almada Street Band, Sociedade Filarmónica Tondelense, Sociedade Filarmónica de Cabanas de Viriato, Banda de Vila Cova à Coelheira e Animadixie.

Todo o programa pode ser consultado no site do município.

A Soenga é um processo de cozedura de barro negro de Molelos em que a "a louça
é colocada numa cova pouco funda cavada no solo. Neste buraco, após ser coberto parcialmente com lenha de pinheiro e tapada com torrões de terra, é ateado fogo, deixando-se cozer sob o olhar atento dos artesãos", explica a autarquia. No final do processo de cozedura, a terra é abafada, impedindo a entrada de oxigénio, tornando as peças negras e impermeabilizadas.