Aleksei Navalny, o mais firme crítico de Putin, terá sido encontrado morto numa prisão russa

No mês passado, assinalou-se o terceiro aniversário em que o opositor e ativista foi preso por acusações que se acredita serem de cariz político. Tinha 47 anos.
Evgeny Feldman/Wikimedia Commons
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Este artigo é uma tradução para português de Portugal dum artigo em inglês da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL).


O político da oposição russa Aleksei Navalny morreu na prisão, de acordo com um comunicado do departamento da região de Yamalo-Nenets dos Serviços Prisionais federais, onde o crítico do Kremlin, provocando a indignação e a condenação dos líderes mundiais, que dizem que o crítico do Kremlin pagou o “preço máximo” pela sua coragem aoffalar contra a liderança do país.

“Em 16 de fevereiro de 2024, na colónia penal número 3, o recluso Aleksei Navalny sentiu-se mal após uma caminhada, perdendo quase imediatamente a consciência. A equipa médica da instituição chegou imediatamente e foi chamada uma equipa de ambulância”, refere o comunicado, que não pôde ser verificado de forma independente.

“Foram tomadas todas as medidas de reanimação necessárias, que não produziram resultados. Os médicos da ambulância declararam a morte do recluso. As causas da morte estão a ser apuradas”.

Os meios de comunicação social russos controlados pelo Estado também citaram o comunicado dizendo que Navalny, de 47 anos, tinha morrido. Não existe ainda uma confirmação da morte de Navalny por parte da sua equipa. De acordo com a lei russa, em caso de morte de um recluso, a família deve ser notificada no prazo de 24 horas.

Não sei se devemos acreditar nas terríveis notícias, as notícias que recebemos apenas dos meios de comunicação oficiais, porque há muitos anos que nos encontramos numa situação em que não podemos acreditar em Putin e no seu governo, uma vez que estão constantemente a mentir”, disse a mulher de Navalny, Yulia, numa breve declaração em Munique, onde participava numa conferência internacional sobre segurança.

“Mas, se for verdade, Putin e toda a sua equipa e todos os que o rodeiam devem saber que serão punidos pelo que fizeram com o nosso patriota, com a minha família e com o meu marido. Serão levados à justiça e esse dia chegará em breve”, acrescentou.

A agência noticiosa estatal TASS citou o porta-voz Dmitry Peskov que indicou que o presidente Vladimir Putin tinha sido informado da notícia da morte de Navalny, mas que não dispunha de informações oficiais sobre a causa da morte.

Um dia antes, Navalny não aparentava ter quaisquer problemas de saúde quando falou por ligação vídeo numa audiência em tribunal.

Navalny aparentava estar saudável na sua última aparição pública em vídeo antes da divulgação da sua morte _ YouTube RFE/RL

É muito complicado confirmar as notícias que chegam de um país como a Rússia. Mas se me perguntassem se ficaria surpreendida se isso fosse verdade, claro que não, infelizmente, porque sabemos que o regime do Kremlin é, basicamente, um regime assassino que vai atrás dos seus inimigos, tal como eles entendem, atrás de pessoas com opiniões diferentes sobre o desenvolvimento da Rússia e das suas relações com o resto do mundo”, disse à RFE/RL a primeira-ministra lituana, Ingrida Simonyte, à margem da Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha.

A reação de Ingrida Simonys, primeira-ministra lituana, às notícias da morte de Navany na prisão _ YouTube RFE/RL

A porta-voz de Navalny, Kyra Yarmysh, disse na rede social X (ex-Twitter) que “ainda não temos qualquer confirmação deste facto”.

Acrescentou também que o advogado de Navalny está a deslocar-se para o estabelecimento prisional.

Leonid Solovyov disse à publicação Novaya Gazeta que, a pedido da família, não iria comentar as notícias sobre a morte de Navalny.

“Por decisão da família de Alekei Navalny, não comento absolutamente nada. Vamos lá ver o que se passa. Aleksei consultou um advogado na quarta-feira (14 de fevereiro). Nessa altura, estava tudo bem”, disse Solovyov.

À medida que as notícias se espalham pelo país e pelo mundo, algumas pessoas estão a depositar flores nos edifícios onde a Fundação Anticorrupção de Navalny (FBK) estava sediada, antes de o governo russo ter encerrado a atividade depois de ter rotulado a associação de organização “extremista”.

Outros estão a reunir-se em frente às embaixadas russas em países como a Geórgia e a Arménia, estando também a ser planeadas vigílias em muitas cidades da Europa.

“Se eles decidirem matar-me, isso significa que somos incrivelmente fortes. Precisamos de utilizar essa força, de não desistir, de nos lembrarmos que somos uma força enorme que está a ser oprimida por estas pessoas más. Não nos apercebemos da força que temos. A única coisa necessária para o triunfo do mal é que as pessoas boas não façam nada. Por isso, não fiquem inativos”.

Aleksei Navalny,

O conselheiro de Segurança Nacional dos EUA Jake Sullivan disse em entrevista à NPR, logo após a divulgação da notícia, que, se confirmada, a morte de Navalny seria uma “tragédia terrível”.

“A longa e sórdida história do governo russo em causar danos aos seus oponentes levanta questões reais e óbvias aqui. Estamos a tentar confirmar [a informação]”, acrescentou.

O chanceler alemão Olaf Scholz disse que Navalny “pagou a sua coragem com a vida”, enquanto o ministro francês dos Negócios Estrangeiros Stephane Sejourne afirmou numa publicação na rede social X que a “morte do crítico do Kremlin numa colónia penal recorda-nos a realidade do regime de Vladimir Putin”.

O Presidente do Conselho Europeu Charles Michel disse que Navalny fez o “derradeiro sacrifício” ao lutar pelos “valores da liberdade e da democracia”.

O ministro polaco dos Negócios Estrangeiros Radoslaw Sikorski disse à RFE/RL que o único crime de Navalny foi o de erradicar “a corrupção [e] a roubalheira da atual elite russa” e sonhar com uma Rússia melhor, que respeite o Estado de direito, viva em paz com os seus vizinhos e invista no seu povo.

“O que se provou ser um crime imperdoável”, conclui Sikorski, em declarações à RFE/RL à margem da Conferência de Segurança de Munique. Ele acrescentou ainda que o Estado Russo era responsável pela vida e pelo bem-estar de Navalny “e, portanto, a sua morte é responsabilidade legal do Estado Russo”.

Navalny, que no mês passado cumpriu o terceiro aniversário da sua detenção por acusações que se pensa terem motivações políticas, quase morreu devido a um envenenamento com um agente neurotóxico do tipo Novichok em 2020, cuja responsabilidade foi atribuída a agentes de segurança russos que agiram a mando de Putin.

O político, que chegou a classificar Putin de “corrupto e cínico” numa entrevista à Radio Free Europe/Radio Liberty, foi detido a 17 de janeiro de 2021 num aeroporto de Moscovo ao chegar da Alemanha, onde tinha sido tratado devido ao envenenamento.

Foi então condenado a uma pena de prisão de dois anos e meio por ter violado os termos de uma liberdade condicional anterior durante a sua convalescença no estrangeiro. O Kremlin negou qualquer envolvimento no envenenamento de Navalny.

Em março de 2022, Navalny foi condenado a nove anos de prisão por acusações de desacato e desvio de fundos por fraude, algo que ele e os seus apoiantes têm repetidamente rejeitado, dizendo que as acusações têm motivações políticas.

Mais tarde, a Fundação Anticorrupção de Navalny e a sua rede de gabinetes regionais foram consideradas organizações “extremistas” e proibidas após a detenção do opositor, o que levou a outro inquérito contra ele por acusações de extremismo.

Em agosto do ano passado, um tribunal prolongou a pena de prisão de Navalny para 19 anos e enviou-o para uma prisão de “regime especial” e com segurança mais apertada do que a que onde estava detido.

No mês passado, Navalny foi transferido para a Polar Wolf, uma prisão de “regime especial” na região árctica da Rússia.

A morte de Navalny, a confirmar-se, ocorre num momento em que Putin, que há muito se recusa publicamente a dizer o nome de Navalny, se candidata a um novo mandato sem enfrentar uma verdadeira oposição, uma vez que aqueles que se esperava que fossem os seus principais adversários – incluindo Navalny – estão atualmente presos ou fugiram do país, temendo pela sua segurança.

As eleições russas são totalmente controladas pelo Kremlin e não são nem livres nem justas, mas são vistas pelo governo como necessárias para transmitir uma sensação de legitimidade.

As eleições são manipuladas pela exclusão dos candidatos da oposição, pela intimidação dos eleitores, pelo enchimento de urnas e por outros meios de manipulação.

Entretanto, o controlo apertado do Kremlin sobre a política, os meios de comunicação social, a aplicação da lei e outras ferramentas significa que Putin, que governa a Rússia como presidente ou primeiro-ministro desde 1999, vai certamente ganhar, a não ser que haja um acontecimento grande e inesperado.

Navalny casou-se com a sua mulher, Yulia, em 2000. O casal tem dois filhos.

Com reportagens de Rikard Jozwiak e Vazha Tavberidze em Munique

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