Quando os palestinianos “morrem” e os israelitas são “assassinados” na mesma guerra

A escolha de palavras no conflito Israel-Gaza refletem o preconceito sistémico dos meios de comunicação social.
Peg Hunter/Flickr (CC BY-NC 2.0 DEED)
Este artigo foi publicado há, pelo menos, 7 meses, pelo que o seu conteúdo pode estar desatualizado.

No meio do caos da guerra de Israel em Gaza, a verdade torna-se uma vítima no campo de batalha da informação, enredada num labirinto de desinformação e narrativas tendenciosas, eclipsando a realidade da crise que se desenrola em Gaza.

Nas notícias, cada escolha semânticaomissão subtilpriorização ou ideia preconcebida detêm o poder de moldar como os leitores interpretam e absorvem as informações. Questões sistémicas e vozes marginalizadas são ofuscadas para lá das manchetes. Vieses cognitivos e algorítmicos manipulam o acesso à informação, nomeadamente na “névoa de guerra”, como se tem visto em Gaza.

O complexo panorama informativo é moldado não apenas pela desinformação, mas também pelas diferentes narrativas que recorrem à difamação e desumanização, espelhando o padrão da cobertura mediática “mainstream” no que toca a palestinianos e outras pessoas negras, indígenas e de cor.

Os palestinos não morrem apenas: eles são assassinados

A escolha entre “morto” e “assassinado” para descrever as mortes na guerra de Israel em Gaza reflete uma diferença semântica subtil, mas e grande importância, pois molda como a informação é percebida.

O “Dicionário Priberam da Língua Portuguesa” define “morrer” como um verbo intransitivo, implicando uma ação indireta, potencialmente ligando a fatalidade a causas naturais, como a velhice.  Por outro lado, “assassinar” é um verbo transitivo direto e intransitivo, que sugere uma ação mais direta, muitas vezes ligada a uma forma não natural ou violenta de morte, como um ataque aéreo, por exemplo.

Em 2022, Laura Albast escreveu num artigo de opinião no The Washington Post que “este é um padrão que vimos repetidamente na cobertura mediática sobre a Palestina. Os palestinianos não são assassinados: eles simplesmente morrem”.

Esse sentimento foi repetido recentemente pela jornalista Yara Eid, quando respondeu a um apresentador da Sky News: “Acho que é muito importante usar a linguagem porque, como jornalista, tem a responsabilidade moral de relatar o que está a acontecer. Os palestinianos não morrem apenas, eles são assassinados”.

Os órgãos de comunicação social fazem escolhas ativas sobre o uso da voz passiva ou ativa, demonstrando uma hierarquia na terminologia além da dicotomia morrer/matar/assassinar. A análise da linguagem dentro de uma notícia expõe enquadramentos que revelam preconceitos ou perspetivas inerentes.

Num exemplo particularmente confuso, um pivô da CNN Internacional descreveu de forma ambigua as mortes palestinianas dizendo: “Um hospital em Gaza diz que recebeu 22 corpos durante o intenso bombardeamento noturno, juntamente com centenas de feridos”.  Não houve mais esclarecimentos se esses corpos eram de pessoas falecidas, ou quem foi o responsável ou por quem foram recebidos.

A manchete do New York Times sobre o ataque aéreo israelita de 5 de novembro, que atingiu o campo de refugiados de Al Maghazi, usou a linguagem indireta, afirmando: “Explosão que os habitantes de Gaza dizem ter sido ataque aéreo deixa muitas vítimas em bairro densamente povoado”.  Essa formulação, como “deixa muitas vítimas” e “bairro densamente povoado” em vez de especificar “um campo de refugiados”, era ambígua.

Além disso, a linguagem utilizada lança dúvidas sobre as fontes de informação, afirmando que “os habitantes de Gaza dizem”, sem atribuir explicitamente os ataques aéreos aos israelitas. No contexto do bombardeamento de Israel sobre Gaza, e que já dura há um mês, essa ambiguidade parece desnecessária. De notar que este ataque aéreo foi um dos três que atingiram campos de refugiados em Gaza num espaço de 26 horas.

Num artigo da CBS News, os redatores usaram uma linguagem forte para descrever o ataque do Hamas contra israelitas como um “ataque assassino”. No entanto, ao se referirem às mortes palestinianas nos primeiros nove dias da guerra, eles empregaram termos comparativamente mais leves como “mortos” e “número de mortos”.

Isso criou uma hierarquia evidente no retrato da violência, o que pode diminuir o impacto ou a gravidade do sofrimento dos palestinianos. Essa discrepância na linguagem pode influenciar as impressões dos leitores e criar um desequilíbrio na forma como a violência é percecionada.

Um problema sistémico nas redações

Esta hierarquia de termos e formulações narrativas não é exclusiva para os palestinianos, revelando um problema sistémico das redações. Os órgãos de comunicação social norte-americanos, por exemplo, há muito que enfrentam críticas devido a racismo, particularmente quanto à sua cobertura da violência policial contra negros americanos, como aconteceu no homicídio de Breonna Taylor.

A autora e editora Adeshina Emmanuel salientou: “Muitas vezes, as redações fixam-se no momento da morte, apoiando-se muito nas narrativas policiais e, como essas narrativas costumam fazer, assassinam os personagens das vítimas de violência policial”.  Isso implica um grande foco nos eventos imediatos e muitas vezes dramáticos, em vez do contexto mais amplo.

A cobertura dos media sobre a guerra na Ucrânia também levantou preocupações sobre o racismo. O investigador universitário H.A. Hellyer destacou a linguagem racista usada pelos correspondentes de guerra, enfatizando a desumanização das populações não brancas e o seu impacto no direito de viver com dignidade. Além da cobertura abertamente racista, outras grandes catástrofes humanitárias, como a guerra no Sudão, recebem uma atenção mínima dos principais meios de comunicação social.

A influência política e as pressões sobre as redações também influenciam significativamente a formação narrativa mediática. Em maio de 2023, não é de se surpreender que a maioria dos jornalistas dos EUA tenha expressado preocupações com a liberdade de imprensa. Essas preocupações são apoiadas por casos em que vários jornalistas foram demitidos por terem feito comentários pró-palestinianosos, uma tendência que se intensificou nas últimas semanas.

No meio à guerra israelita em curso em Gaza, o secretário de Estado dos EUA, Tony Blinken, pediu ao primeiro-ministro do Catar “que modere a retórica da Al Jazeera” em relação à ação de Israel em Gaza.  Esse sentimento refletiu-se noutras redações, como relatado pelo The Intercept: “A liderança da Upday, uma subsidiária da gigante editorial alemã Axel Springer, deu instruções para dar prioridade à perspetiva israelita e minimizar as mortes de civis palestinianos na cobertura, de acordo com os funcionários”.

Um grupo de escritores judeus enviou uma carta aberta, condenando a ideia de que a crítica a Israel é intrinsecamente antissemita e assinalou as censuras pró-Palestina:

Agora, esta mordaça insidiosa da liberdade de expressão está a ser usada para justificar o bombardeamento militar contínuo de Israel a Gaza e para silenciar as críticas da comunidade internacional. […] Os Jornalistas israelitas temem consequências por criticarem o seu governo. […] Recusamos a falsa escolha entre a segurança judaica e a liberdade palestiniana, entre a identidade judaica e o fim da opressão dos palestinianos.  Na verdade, acreditamos que os direitos de judeus e palestinianos andam de mãos dadas.

Apelos globais de solidariedade

حسن/Unsplash

Apesar da cobertura tendenciosa dos principais meios de comunicação social, o público tomou consciência do genocídio de que os civis em Gaza estão a enfrentar, em grande parte devido aos jornalistas na área que fornecem cobertura em inglês nas plataformas de redes sociais. Jornalistas como Motaz AzaizaPlestia Alaqad e Bisan Owda, para citar alguns, têm desempenhado um papel significativo na divulgação de informações.

Desde que a guerra de Israel em Gaza começou, centenas de milhares de manifestantes nas principais cidades do mundo, incluindo LondresNova IorqueSão PauloCidade do Cabo e Kuala Lumpur, têm-se manifestado de forma regular solidariedade aos palestinianos. Intervieram para abordar o fracasso dos grandes meios de comunicação social em sensibilizar as pessoas para os crimes de guerra de Israel e os ataques desproporcionais contra os palestinianos.

Estas manifestações estão alinhadas com uma crescente ruptura entre o Sul Global e o Ocidente, exemplificado por um coro de acusações de hipocrisia por parte do Sul Global contra o Ocidente. As críticas sublinham a resposta política e mediática contrastantes, destacando a condenação do Ocidente a uma ocupação ilegal na Ucrânia, ao mesmo tempo em que apoia firmemente a ocupação israelita da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

À medida que a consciência dos vieses dos media cresce, as pessoas em todo o mundo são levadas a examinar as informações, exigindo uma representação mais equitativa de diversas perspetivas. Ese esforço coletivo significa uma mudança crucial em que um público informado desafia ativamente os preconceitos, promovendo um espaço onde a verdade prevalece e vozes marginalizadas são ouvidas.


Licença Creative Commons

Este artigo, escrito por Mariam A. e Safa e traduzido para português por Doralice Silva, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n’o largo ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

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