A morte é para os vivos

“O ser humano tem necessidade de explicar e controlar tudo em seu redor. Quando não o consegue, cria teorias que de toda a força tenta encaixar nas suas interrogativas.”
Sam Brand/Unsplash
Este artigo foi publicado há, pelo menos, 7 meses, pelo que o seu conteúdo pode estar desatualizado.

É paralisador, frio, dominante e o pior… é não existir uma poção mágica nem uma simples resposta de consolação, que de forma genérica, elimine o sentimento de um dia a encontrar. Se existe medo partilhado pela população, este é o maior. Quem não, ao menos uma vez no mapa dos seus pensamentos, chegou a um beco sem saída e se sentiu atordoado por consciencializar esse momento? Em alguma parte das nossas vidas este sentimento ultrapassa todos os outros da vida quotidiana: o medo da MORTE.

O ser humano tem necessidade de explicar e controlar tudo em seu redor. Quando não o consegue, cria teorias que de toda a força tenta encaixar nas suas interrogativas. As religiões e culturas servem como uma boia de salvação num mar de medo, único e maior.

A nossa cultura não o incluiu no seu dia a dia. Não o questiona, não fala dele nas escolas, pelo contrário: evita-se o tema, esconde-se e foge-se dele. Por vezes faz-se de conta que não existisse. Mas é uma armadilha pois por mais que se fuja, mais intenso se torna o medo e o desequilíbrio emocional quando nos toca.

Vamos todos morrer e este facto é comum a todas as pessoas de todas as culturas, religiões e países do mundo. A forma como nos relacionamos com a morte e como nos despedimos daqueles que amamos, no entanto, varia bastante.” refere o fotógrafo dinamarquês Klaus Bo (@deadandaliveproject) explicando a sua peculiar experiência vivenciada pelos 4 cantos do mundo a testemunhar rituais fúnebres e a relação com a morte dos vários povos que visitou.

Ma’nene é o nome do ritual mais interessante que fotografou até hoje. Em Toraja, na Indonésia, durante o mês de agosto, “aqueles que já morreram são retirados das suas campas por membros da família, são limpos e vestidos com roupas novas. Depois disso, tiram-se fotografias de família com os falecidos.” No Nepal, viu também um grupo de pessoas a colocar um morto rígido na posição de lótus.

Aqui na Europa a morte e as cerimónias fúnebres são uma reflexão da nossa convivência com este fenómeno durante a vida. Os rituais fazem-se rápido e quase sem a presença física do falecido. É uma espécie de tabu que embora presente física e subconsciente na nossa vida, não é cultivado, mas sim posto de parte em comparação com outras fases da vida humana.

É natural sentir medo do desconhecido, o sentido metafisico da morte não consegue ser explicado nem pelos maiores cientistas. É aqui que aparece a fé, pois a fé não precisa de provas nem de fundamentos. Não estou a falar na fé religiosa, mas a fé no ser humano que há milhões de anos tem conseguido a existência mais perfeita de todas as outras. Não sabemos como, em que momento e com que propósito fomos criados.

Porque não confiar no outro extremo do ciclo da vida e acreditar que, tal como celebramos com magia o momento do nascimento, aceitar com leveza o que acontecerá no fim?

Que o ciclo da vida seja vivido na plenitude das suas etapas, incluindo a morte.

Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa“, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa

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