Com as guerras da Ucrânia e, agora, de Israel, político alemão pergunta: “‘Até que ponto é que as coisas têm de ficar más’ para que o Ocidente tome uma atitude?

Nico Lange, político alemão da União Democrata-Cristã, de centro-direita, e membro sénior da Conferência de Segurança de Munique, falou à RFE/RL sobre a guerra assimétrica do Hamas e sobre a forma como a nova pressão sobre os stocks de munições dos EUA pode afetar a defesa da Ucrânia contra a Rússia.
National Police of Ukraine (mpu.gov.ua)/Wikimedia Commons (CC BY 4.0 DEED)
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Este artigo é uma tradução para português de Portugal dum artigo em inglês da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL).


Nico Lange, que fala russo e ucraniano fluentemente, é um político alemão da União Democrática Cristã, de centro-direita, e membro sénior da Conferência de Segurança de Munique. Depois de prestar serviço nas forças armadas alemãs, incluindo passagens pela Bósnia-Herzegovina e pelo Kosovo, Lange foi chefe de gabinete do ministro da Defesa alemão entre 2019 e 2022.

Ao serviço em georgiano da RFE/RL, Lange falou sobre a guerra assimétrica do grupo militante palestino Hamas contra Israel e como a nova pressão sobre os stocks de munições dos EUA pode afetar a defesa da Ucrânia contra a Rússia.

Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL): A situação em Israel é descrita como um novo teatro de guerra. Não sei se é novo, mas, se é de facto um teatro, qual é a peça que está a ser encenada? Quem são os atores? Quem é o encenador? Quem são os protagonistas e os antagonistas?

Nico Lange (NL): Há muitos pormenores bastante surpreendentes em relação ao que aconteceu em Israel no passado fim de semana. Os israelitas terão de esclarecer alguns deles, porque a dimensão da operação parece ter demorado muito tempo a preparar. E ser ultrapassado desta forma – e demorar tanto tempo a responder – é, pelo menos para mim, muito surpreendente no que diz respeito às Forças de Defesa de Israel.
Há alguns elementos que conhecemos de outros conflitos que parecem apontar para o futuro da guerra, [que] são um problema em todo o lado: objetos lentos, que voam baixo e drones que são um problema para as defesas aéreas [e] pequenas unidades táticas, [onde] pequenas unidades dispersas utilizam instrumentos de guerra não convencionais [contra] exércitos convencionais. É algo que estamos a observar e que o Hamas está a utilizar nos seus ataques terroristas. Mas, por exemplo, vimos que a Ucrânia tem utilizado com sucesso pequenas unidades táticas contra as Forças Armadas russas.
Vemos alguns elementos do futuro da guerra, [e] temos de tirar algumas lições. Além disso, quando se trata da resposta de segurança e do apoio dos Estados Unidos, essas coisas estão relacionadas. Mas, no que diz respeito às guerras propriamente ditas, não vejo qualquer relação entre a Ucrânia defender-se da Rússia, o Azerbaijão atacar a Arménia ou o Hamas atacar Israel.
A ligação é que os Estados Unidos e os seus parceiros têm de apoiar Israel e a Ucrânia ao mesmo tempo. E isso conduzirá a uma questão de gestão de recursos. Do meu ponto de vista, esta é a ligação mais importante neste momento. Porque não existe uma prioridade: temos de fazer as duas coisas!

RFE/RL: Como é que este ataque foi possível? Muitos apontaram o dedo à agência de inteligência estrangeira, a Mossad, embora o Shin Bet, a agência de inteligência interna de Israel, também tenha sido responsável. O que é que está em causa?

NL: É, sem dúvida, extremamente difícil protegermo-nos contra o terrorismo. Já vimos anteriormente que é difícil impedir ataques terroristas. Mas, ainda assim, o nível disto, a escala da preparação [ao longo] de muito tempo, as comunicações que devem ter ocorrido entre a liderança do Hamas e o Irão… Para mim, é surpreendente que não estivesse no radar dos [serviços secretos] israelitas. E estou certo de que a sociedade israelita discutirá este assunto depois da guerra terminar. Quero dizer, agora não é a altura certa.
Isto aponta para os novos aspetos da guerra de que falei. É cada vez mais frequente que as barreiras ou estruturas de proteção não funcionem da forma que se pretendia. Porque existem, por exemplo, novos drones ou novos tipos de equipamento barato e acessível que podem ser utilizados para destruir [ou] ultrapassar barreiras dispendiosas. Começou na Ucrânia com drones comercialmente baratos e a lançar [explosivos] a partir desses drones baratos. E agora vimos a mesma técnica ser aplicada às torres de vigilância israelitas. Portanto, há alguns novos desenvolvimentos que tornam a defesa mais complicada.

Tasnim News Agency/Wikimedia Commons (CC BY 4.0 DEED)

RFE/RL: Sempre que se colocar uma barreira, haverá sempre alguém que tentará ultrapassá-la.

NL: Sim, nunca nos podemos sentir seguros se construirmos uma barreira. Talvez os israelitas se sentissem demasiado seguros em relação à defesa e às barreiras fronteiriças.

RFE/RL: Será demasiado cedo para falar de vencedores e vencidos?

NL: A história da guerra mostra que, se uma força mais pequena tem um sucesso inicial ao gerar um elemento de surpresa, então, com o tempo, o verdadeiro equilíbrio de poder irá aparecer. Se essa lei da guerra militar se aplicar aqui, então direi que o Hamas pode ter trazido a destruição sobre si mesmo com esse sucesso inicial que teve.

RFE/RL: E os atores externos? Quem ganha e quem perde?

NL: É muito difícil dizer se, por exemplo, o [partido político libanês e grupo armado] Hezbollah vai entrar e tornar a vida de Israel extremamente complicada com uma guerra em duas frentes. Certamente que o Irão tentará mobilizar os seus aliados. Porque é isso que estamos a ver: é o Irão e os seus aliados a atacarem Israel. Mas parece que as outras partes do mundo árabe não estão interessadas em participar. É por isso que o Irão também não está a lutar abertamente, mas a usar o Hamas e o Hezbollah. Mas ainda é [demasiado] cedo [para o dizer].

RFE/RL: Sobre o impacto que esta situação poderá ter na guerra da Ucrânia, disse-me que vai ser uma batalha em duas frentes para os Estados Unidos quanto à assistência militar. Vê a Europa a dar um passo em frente neste domínio, dando uma ajuda aos Estados Unidos, se Washington tiver agora de dividir a sua atenção entre Kyiv e Telavive?

NL: Quanto aos recursos concretos que os Estados Unidos estão a fornecer a Israel e à Ucrânia, são coisas diferentes. Portanto, não há um problema imediato. Mas, quanto mais tempo isto durar, haverá problemas na defesa aérea e nas munições de defesa aérea, porque é disso que tanto Israel como a Ucrânia precisam.
Os Estados Unidos retiraram munições de artilharia dos stocks de Israel para fornecer a Ucrânia. Neste momento, as Forças de Defesa de Israel não precisam delas. Mas, se o conflito se alargar [à região], podem precisar das munições de artilharia, e então há este conflito de recursos. Portanto, [quanto à] defesa aérea, munições de defesa aérea e munições de artilharia, os europeus têm de aumentar as capacidades industriais nestes domínios para estarem preparados para um eventual conflito de recursos.

RFE/RL: “Têm de” é uma expressão curiosa. Será que vão?

NL: Sim, eu sei. Compreendo a sua pergunta, porque a realidade é que [para a guerra da Ucrânia] não aumentaram a produção industrial na quantidade que seria necessária. Preocupa-me – e também continuarei a defendê-lo – porque os países europeus não devem tentar regressar à normalidade.
Passaram [apenas] alguns dias desde o início dos atos terroristas contra Israel. Esperaria que os líderes europeus se reunissem neste momento para discutir a forma como a Europa pode dar um passo em frente. Isto não se vai resolver sozinho. Infelizmente, isto inclui o meu país, a Alemanha. Os industriais da Europa são ultra-lentos na expansão da produção industrial. Começaram, mas têm de ser muito mais rápidos, especialmente no setor da defesa aérea e das munições de artilharia. Isso é de facto extremamente importante.

RFE/RL: Falando da Alemanha, como está a correr a política “Zeitenwende”1“Zeitenwende” é a expressão que designa o chamado ponto de viragem na política externa alemã, após a invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022. O chanceler Olaf Scholz anunciou um grande aumento nos gastos militares, o que foi uma rutura com a política de defesa anteriormente cautelosa da Alemanha?

NL: No início, havia muita esperança por causa do discurso do chanceler Scholz [no Bundestag, a 27 de fevereiro de 2022]. Todos os que se interessavam pelo assunto pensaram: “Muito bem, agora perceberam. Finalmente, a Alemanha está a entrar no bom caminho”.
O que observámos é que, nalgumas áreas, a Alemanha está a fazer melhor agora. Por exemplo, a assistência militar [do país] à Ucrânia é muito melhor do que a sua reputação.
Mas, infelizmente, noutros domínios, a Alemanha tem o hábito de voltar aos velhos padrões de comportamento. Isto não é, obviamente, uma “Zeitenwende”, o oposto de “Zeitenwende”. Começamos a questionar: o que é preciso acontecer até que a Alemanha mude realmente a sua política de segurança [e] defesa? Temos uma grande guerra na Europa. Temos um ataque a Israel. O que é que é preciso para levar a Alemanha a fazer o que é necessário? A Alemanha reagiu à pressão, por isso a pressão tem de ser mantida, essa é parte da verdade: internacionalmente, do público, mas também do campo dos especialistas… Mas não estamos onde deveríamos estar quando se trata de “Zeitenwende”.

RFE/RL: O próprio facto de ser necessário exercer uma pressão internacional constante para que a Alemanha faça o que é correto também diz muito, não é?

NL: Infelizmente, isso é verdade. No fundo, não importa por que razão se faz o que é correto, o importante é que se faça. Mas eu gostaria de ver o meu país não só a reagir às coisas, mas também a fazer propostas e a pedir a outros que participem em propostas. Vimos isto um pouco com a [iniciativa] “European Sku Shield”2um sistema europeu de defesa aérea, em que a Alemanha propôs isto e outros países estão a aderir.
Se um país poderoso, grande e com uma localização central na Europa faz uma proposta, pelo menos, todos a analisam. A Alemanha tem boas hipóteses de se trouxer alguma coisa para a mesa de negociações, os outros países se juntarem a ela. Mas, infelizmente, a Alemanha está, na maior parte do tempo, num modo reativo burocrático. Isso não é suficiente.

National Police of Ukraine (mpu.gov.ua)/Wikimedia Commons (CC BY 4.0 DEED)

RFE/RL: A Alemanha tem algum preço a pagar por não cumprir a “Zeitenwende”? Se Scholz não cumprir a sua promessa, claro que os seus parceiros internacionais, os americanos, os britânicos, vão criticá-lo. Mas qual seria o clima na Alemanha? Haveria consequências internas para o Governo?

NL: Posso dar-lhe uma resposta provocadora. Se a ideia fosse: “Bom,… vamos devagarinho, não vamos fazer muito, porque vai haver resistência, vai haver populismo. E depois haverá maus resultados eleitorais para os partidos do governo”. Sabe que mais? Tivemos eleições federais nos estados federais [há pouco tempo]. Apesar de tudo e de toda esta argumentação, há maus resultados para os partidos do governo e há [também] um aumento do populismo. Por isso, talvez toda esta teoria esteja errada e seja melhor mostrar liderança e avançar com as coisas em vez de ser hesitante e lento.

RFE/RL: Uma forma de mostrar liderança seria provavelmente fornecer mísseis de cruzeiro Taurus à Ucrânia. E o chanceler Scholz parece estar muito relutante em fazer isso. Porquê?

NL: É de uma perspetiva militar que eu olho para as coisas. Para mim, não é compreensível. O erro inicial foi o facto da Alemanha não estar a entregar imediatamente os mísseis [sueco-alemães] Taurus, quando a Grã-Bretanha e a França decidiram entregar [os seus] Storm Shadow e SCALP-EG [mísseis de cruzeiro]. Por causa disso, tornou-se uma questão isolada, amplamente debatida e muito mais complicada do que o necessário.
Existe [também] este paradigma de escalada que parece motivar a Casa Branca e o gabinete do chanceler a pensar muito frequentemente nas coisas [durante muito tempo]. Os ucranianos demonstraram que não há escalada adicional, se atacarem a Crimeia ou a ponte da Crimeia ou se fizerem outras coisas. Mas, mesmo assim, esse parece ser um paradigma que está na cabeça dos decisores, sempre preocupados com uma escalada. Receio que estejam a tornar a escalada ainda mais provável, porque o Kremlin vai entender isto como um sinal de fraqueza.
A natureza da atual guerra, do meu ponto de vista, é que a Rússia já não consegue alcançar nada militarmente. Não alcançou os seus objetivos militares. Por isso, do ponto de vista russo, os êxitos podem ser políticos: dividir o Ocidente, explorar as fraquezas, esperar que as eleições se realizem de outra forma. E temos de compreender que a Rússia está agora a conduzir uma guerra militar, mas com objetivos políticos.

RFE/RL: Gostaria de lhe perguntar sobre esta estratégia de guerra prolongada que Putin parece ter adotado: a ideia de que, no final, ele será mais forte do que todo o Ocidente; o Ocidente vai pestanejar primeiro, cederá em primeiro lugar. Não sei se é um homem que aposta ou não, mas em quem apostaria nesta situação? No Ocidente ou na Rússia? Quem é que vai ser mais forte?

NL: Não se trata de ser mais forte. Essa é a perspetiva russa, mas as capacidades das democracias são muito superiores às capacidades da Rússia. A questão é: o que é necessário para desbloquear as capacidades que temos? Até que ponto é que as coisas têm de ficar más?
Há a falsa ideia na cabeça dos decisores políticos de que, de alguma forma, se apoiarmos um pouco, isto conduzirá a um impasse e depois haverá negociações. Isto é um erro total de avaliação das intenções de Putin. Porque ele irá imediatamente, se esse momento chegar, tentar fazer mais exigências e partir para o ataque.
Não tenho dúvidas de que os países democráticos prevalecerão neste domínio. Mas defendo que deveriam desbloquear as capacidades muito mais rapidamente e não esperar [por milagres]. A nossa lentidão produz ucranianos mortos e devasta a Ucrânia como país. Se olharmos para o lado material desta questão, a Alemanha gastou 300 mil milhões de euros em apoios [sociais] para amortecer o efeito [do aumento] dos preços da energia. As armas para a Ucrânia [custaram, até agora,] 3 mil milhões de euros. Se desbloqueássemos as nossas capacidades, poderíamos fazer muito mais e ajudar de forma mais decisiva.

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