Algoritmo do YouTube ajuda canal a radicalizar brasileiros sobre crise climática

Investigação revela que a plataforma recomenda vídeos que abordam teorias da conspiração para quem assiste ao documentário “Cortina de Fumaça”, produzido pelo canal “Brasil Paralelo”.
Oliver Graumnitz/Pixabay

Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Natalia Viana e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.


Mais de 13 mil comentários e 982 vídeos recomendados no YouTube. Esse foi o volume de material analisado por quatro pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que fazem parte do NetLab, grupo de pesquisa especializado em analisar os usos das tecnologias de informação. 

A pesquisa, publicada no começo do mês na revista acadêmica “Social Media + Society”, buscou compreender como o documentário Cortina de Fumaça, produzido pela produtora Brasil Paralelo, valeu-se das possibilidades da plataforma para ganhar adesão a teorias da conspiração negacionistas contra a emergência climática. A conclusão: o YouTube não só espalha esse tipo de conspiração, como indica outros conteúdos conspiratórios, ajudando a radicalizar os brasileiros.

Lançado em junho de 2021, o documentário ultrapassou 1,8 milhão de visualizações em apenas três meses. O sucesso pode vir da estratégia agressiva de anúncios que fez a produtora ser uma das maiores anunciantes do Google e Facebook. Entre agosto de 2020 e junho de 2021, quando o filme foi lançado, a Brasil Paralelo gastou R$ 9,2 milhões só no Facebook.

“A análise confirmou a inserção do debate ambiental em uma rede ideológica que envolve questões de extremismo, gênero, arte, cultura, educação, história, entre outras”, dizem os pesquisadores Débora Salles, Priscila Muniz de Medeiros, Rose Marie Santini, Carlos Eduardo Barros (baixe o estudo completo aqui).

“Isso significa que um dos efeitos do consumo de vídeos no YouTube seria o aumento da polarização política”, completam.

O documentário Cortina de Fumaça espalha vários tipos de desinformação em meio a uma abordagem pretensamente jornalística e científica. Ele nega o crescente desmatamento no país, distorce as reivindicações indígenas e vilaniza ativistas e ONGs como parte de uma conspiração global para frear o agronegócio brasileiro. 

Entre as mentiras apontadas pelo estudo no documentário estão fake news que dizem que ONGs no Brasil denunciam ameaças à Amazônia apenas para ganhar dinheiro de estrangeiros e que a Noruega e outros países que enviam dinheiro ao Brasil para preservação ambiental visam, na verdade, roubar recursos amazônicos. A denúncia do suposto “infanticídio indígena”, usada por evangélicos missionários como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) para espalhar pânico moral contra nações indígenas, também é usada no filme. 

O documentário viola regras do próprio YouTube, que desde 2015 promete contribuir para o combate às mudanças climáticas evitando conteúdos desinformativos sobre o tema.

Os pesquisadores alertam que “no que diz respeito ao campo ambiental, a crença em teorias da conspiração ameaça os esforços mundiais para combater a crise climática”. Segundo os pesquisadores, estudos demonstram que a exposição a teorias de conspiração ambiental diminui as intenções das pessoas de se envolverem na política, assim como sua aceitação da ciência. 

YouTube sugere vídeos extremistas e sobre teorias da conspiração

Os pesquisadores da UFRJ analisaram 982 vídeos recomendados no YouTube a quem assistiu o documentário e, depois, os vídeos recomendados para quem clicava nesses vídeos secundários.

Dentre os vídeos diretamente sugeridos, apenas cinco eram sobre meio ambiente. Conspirações e hiperpartidarismo eram o principal foco entre o documentário e a maior parte do conteúdo recomendado.

Tirando os demais vídeos da Brasil Paralelo, o assunto de maior destaque nas recomendações do YouTube foi “Política e Estado”, que incluiu 23 vídeos, grande parte deles com um enquadramento à direita, incluindo acusações contra a esquerda, a denúncia de uma suposta “ideologia comunista” e a exaltação do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

Outros vídeos apresentavam revisionismo histórico, como a romantização das cruzadas europeias e da colonização, a relativização dos horrores da escravidão no Brasil e do golpe militar de 1964, que teria “salvo o país do comunismo” – teses rejeitadas por historiadores. 

O YouTube também sugeriu filmes que atacam a Justiça e a imprensa, além de outros que diziam ser o movimento feminista um movimento “anticristão”. 

Os pesquisadores também analisaram a rede de canais indicados pelo algoritmo do YouTube. Entre os canais mais recomendados, seis são canais hiperpartidários de direita, responsáveis ​​por 414 vídeos recomendados. Entre eles, canais relacionados ao Grupo Jovem PanJovem Pan News, Os Pingos Nos Is1programa de comentário político emitido na rádio Jovem Pan e na TV Jovem Pan. , Pânico Jovem Pan e Pânico Retrô – e o vlog Mundo Polarizado, que traz notícias de conspiração de extrema direita. 

“Os nossos resultados demonstram que o sistema de recomendação do YouTube facilita o conteúdo extremista, induzindo o usuário médio a mergulhar cada vez mais fundo em cadeias problemáticas de conteúdo radicais e extremistas”, escreveram os pesquisadores.

Rede de vídeos sugeridos em dois graus de interação do filme Cortina de Fumaça. Cada nó representa um vídeo e cada conexão é uma recomendação. O tamanho do nó representa o volume de recomendações recebidas. As cores dos nós foram definidas de acordo com o canal de origem e os vídeos dos canais menos relevantes foram definidos em cinza. _ Reprodução

Os tópicos mais comentados

A modelagem de tópico (técnica usada para categorizar textos) dos 13 mil comentários dos vídeos analisados mostrou que dois assuntos mais comentados têm ligação direta com conspirações ambientais: “Papel brasileiro na geopolítica” e “Acusações contra ONGs”. 

Ambos se referem a uma conspiração internacional para tomar a Amazônia e seus recursos, minando a soberania brasileira. Para os pesquisadores, isso significa que “as alegações conspiratórias repercutiram significativamente entre o público que postou comentários”. 

Outro tema dominante é o discurso religioso, que demonstra uma identidade com o partidarismo de extrema direita mesmo quando o tema do documentário não tem ligação com temas religiosos.

Replicando a visão representada no filme, os comentários sobre o tópico “Infanticídio entre povos indígenas”, apresentam a senadora Damares Alves – entrevistada no documentário – como uma “salvadora” dos bebês indígenas, enquanto os “esquerdistas” são acusados ​​por alguns usuários de serem responsáveis ​​pela morte de bebês indígenas. 

Bianca Muniz/Agência Pública

Aldo Rebelo é o destaque

Outro tópico importante identificado pela pesquisa foi “a política ambiental de Bolsonaro”. Nele, além do nome do ex-presidente, tem destaque o nome de Aldo Rebelo, ex-membro do PCdoB2Partido Comunista do Brasil que tem se aproximado de grupos da extrema direita e militares. Entrevistado no filme, Rebelo, que é autor do Código Florestal que enfraqueceu a legislação ambiental, reforça as acusações contra ONGs e países estrangeiros.

Sobre o tópico “O papel do Brasil na geopolítica”, entre os comentários mais curtidos, os pesquisadores encontraram argumentos conspiratórios, ataques contra estrangeiros e discurso nacionalista, como um comentário que dizia: “O que me irrita é que ninguém se levanta e faz esses terroristas gringos fugirem do nosso querido país”.

O tópico “Acusações contra ONGs” reúne conteúdos que associam ONGs à corrupção, à esquerda política e a interesses estrangeiros. Entre os comentários mais curtidos, estavam conteúdos como esse: “Acredito que o Brasil seria um país de primeiro mundo se os povos indígenas estivessem livres de ONGs corruptas. Afinal, os indígenas brasileiros têm um grande amor pela pátria e pelas terras de seus antepassados.” 

“Brasil Paralelo e outros propagadores do negacionismo ambiental no Brasil estão aproveitando o potencial de tendência ao extremismo dos algoritmos de recomendação do YouTube, ultrapassando assim as bolhas para ampliar seu alcance e obter níveis mais elevados de exposição”, analisaram os pesquisadores. 

“Os aspectos éticos desta discussão vão além do debate sobre o viés algorítmico, envolvendo as escolhas políticas e mercadológicas das plataformas”, escrevem. Para os autores do estudo, esse processo só será travado através de “uma auditabilidade democrática dos algoritmos de plataformas como o YouTube e de estratégias de comunicação que visem trazer o debate ambiental de volta ao campo científico”.


Licença Creative Commons

Este artigo foi originalmente publicado no site Agência Pública e republicado na íntegra n’o largo ao abrigo da licença Creative Commons CC BY-ND 4.0.

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