“Eu sou melhor do que tu.” – uma perigosa ilusão que nos captura.

“Já repararam como olham (ou nem) os passageiros da primeira classe para os de classe económica nos aviões? E os festivaleiros com credencial VIP que passam à frente dos demais na entrada dos concertos?”
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Existem vários tipos de olhar altivo: olhar de cima para baixo, olhar de soslaio, olhar artificialmente rápido ou simplesmente não olhar. O denominador comum de todos eles é o sentimento de superioridade sobre o outro ser humano, expresso nesta simples manifestação. Enquanto algumas formas de expressar a superioridade como a escrita sofisticada ou a expressão verbal, podem passar despercebidas, o olhar e a linguagem corporal que o acompanha é instantaneamente compreendido por cada um de nós. O ser humano tem uma invisível camada de sensibilidade, quase como um sensor eletrónico que imediatamente deteta um mau-trato e uma inferiorização.

A pergunta que me vem à cabeça é, porquê os seres humanos têm a necessidade de demonstrar a sua predominância sobre o outro?

McClelland afirmou que todos nós temos diferentes tipos de motivação, independentemente da idade, sexo, raça ou cultura. Mas assegura que um deles é a necessidade de poder. É o desejo que o indivíduo tem de controlar os meios de influência sobre outros indivíduos. Tentar destacar-se ou causar impacto de alguma forma diante de outros, em detrimento de trabalhar em algo que possa ter bom desempenho, procurando ou disputando posições de liderança, nas quais as suas ideias prevaleçam, mesmo que através de ordens e exigências e com isso alcançar status e prestígio. O tipo de motivação por que cada indivíduo é impulsionado deriva das suas experiências de vida e das opiniões da sua cultura.

Se esta distinção teórica pode justificar um olhar superior de uma pessoa rica a outra pobre? De uma pessoa privilegiada pelo dom da beleza a outra menos dotada? De uma pessoa com mais habilitações a outra que nunca teve as mesmas condições para estudar? De uma pessoa mais forte fisicamente a outra mais fraca? De uma pessoa que, por razões aleatórias, ficou numa situação mais aclamada a outra que não? Podíamos multiplicar os exemplos, mas a resposta a cada uma destas perguntas seria sempre igual: NÃO, NÃO e NÃO!

Já repararam como olham (ou nem) os passageiros da primeira classe para os de classe económica nos aviões? E os festivaleiros com credencial VIP que passam à frente dos demais na entrada dos concertos?

O ser humano para além de apenas existir tem a obrigação de lutar contra os seus instintos primitivos, bloqueadores da inclusão e da paz. Os adultos ensinam o mundo às crianças e os gestos, os comentários e os olhares constroem uma espécie de matriz que de forma inconsciente e natural passa dos progenitores aos seus filhos. Os perigos da necessidade de superioridade são inúmeros, começando pelo simples nariz empinado, passando pelo terrível bullying, até chegar às catastróficas guerras. Daí a reflexão, que vale mesmo a pena interiorizar, do Papa Francisco:

“O único momento em que é lícito olhar alguém de cima para baixo é para o ajudar a levantar”.

Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa“, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa

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