Marketing Agressivo 1 – 0 Sociedade

“É caso para perguntar – em que momento é que a construção de conhecimento científico passou ao relativismo absoluto?”
Freepik
Este artigo foi publicado há, pelo menos, 11 meses, pelo que o seu conteúdo pode estar desatualizado.

Tem sido interessante ler a propósito das preocupações em/da IA, e observar a multiplicação de cursos e as dezenas de especialistas emergentes nos últimos meses. Por um lado, temos o marketing agressivo sobre a importância da ética em IA a alertar para as consequências negativas de alguns algoritmos e a promover o seu uso adequado e responsável, idealmente contornando preconceitos e estereótipos. Por outro lado, temos esforços internacionais, sem carácter vinculativo, como é o da Recommendation on the Ethics of Artificial Intelligence da UNESCO.

Assumimos o risco de dizer, como bem ilustra o AI ACT, que a conclusão se resume a: afinal tudo é sobre ética! Discriminação, justiça social, privacidade e segurança das informações, transparência (a começar por fornecer as informações claras sobre o modo da tomada de decisão). Mas onde estão os eticistas neste processo? Reduzidos à automatização. A tomada de decisão ética é, agora, facilmente automatizada e não importa aqui diferenciar se se trata de apoio à decisão de nível superior, do apoio automático aumentado, ou de ambientes altamente automatizados.

Temos de voltar a referir – ética e “compliance” não são sinónimos e não se excluem entre si. E não, já não estamos no nível da discussão que percorre as diferenças entre a Teoria da Virtude, ou a do Direito Natural. Nem tão pouco das diferenças entre a ética descritiva e a ética aplicada – já nada disso importa, quando muito uns diagramas com alusão ao trolley problem para vender melhor a ideia da ética em automação. Como é que uma ética automatizada responde às suas quatro questões de base: “O que estamos a fazer?”; “Porque o estamos a fazer?”; “Podemos fazer algo melhor?” e “Porque é melhor?”

É caso para perguntar – em que momento é que a construção de conhecimento científico passou ao relativismo absoluto? Afinal não é privacidade que está morta como queria induzir o Mark Zuckerberg. A segunda fase que nos querem instigar é a de que a epistemologia está morta!

Reduzindo ao absurdo – o argumento tem sido: essas questões e esse conhecimento são académicos (e ideológicos) e pouco relevantes para os desafios práticos e velozes que enfrentamos. Quão contraditório é este ciclo discursivo?

De modo muito básico importa esclarecer um ponto, e reeducar: se não há conhecimento que alimente um modelo de linguagem grande (LLMs) como aquele que sustenta o ChatGPT (por exemplo) – não há evolução; e aquele que possa auto gerar-se tem, na maioria das vezes, vieses, falsas informações, invenções e um prenúncio do arrependimento.

Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa“, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa

Total
0
Partilhas
Artigo anterior

Cientistas da Universidade de Coimbra estudam processo inovador para recuperação de materiais valiosos da indústria eletrónica

Artigo seguinte

SAPO fecha plataforma de vídeos para utilizadores

Há muito mais para ler...