Diplomacia cultural, direitos LGBTQ+ e Ucrânia no Festival Eurovisão da Canção 2023

A Eurovisão tem tanto a ver com diplomacia como com a política ou a música
Chloe Hashemi/EBU
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A banda Tvorchi fez apenas uma publicação na sua página do Facebook na noite de sábado, antes de começarem a sua atuação na final do Festival Eurovisão da Canção 2023. Os participantes ucranianos partilharam uma imagem com a palavra “Ternopil”, o nome da cidade onde a banda começou, escrita em letras brancas sobre um fundo preto. Na noite da grande final da competição, a cidade no oeste da Ucrânia estava a ser brutalmente bombardeada pelas forças russas. Um utilizador comentou a foto: “Não importa em que posição vocês fiquem, nos nossos corações, vocês estarão sempre em primeiro lugar”.

Sendo vencedora da edição 2022 da Eurovisão, normalmente, a Ucrânia acolheria a competição de 2023; no entanto, devido à guerra em grande escala da Rússia contra o país, a competição foi transferida para Liverpool, no Reino Unido, vice-campeã da edição de 2022.  A seleção ucraniana para a Eurovisão aconteceu numa estação de metro no centro de Kyiv, fechada para passageiros desde os primeiros dias da invasão russa em fevereiro de 2022 e que foi convertida num abrigo antiaéreo até o final de 2022. Durante esse período, foi usada como um local para espetáculos, competições e conferências de imprensa.

Em Liverpool, os organizadores tentaram homenagear os legítimos anfitriões, incorporando o simbolismo ucraniano, uma coapresentadora ucraniana, figurinos de designers ucranianos, um grupo de artistas ucranianos participantes de edições anteriores da Eurovisão na cerimónia de abertura, apresentações de tributo de apoio à Ucrânia e até Kate Middleton, a princesa de Gales, a tocar um excerto da música ucraniana do grupo Kalush Orchestra, os vencedores da Eurovision 2022.

Também teve mais convidados ucranianos do que qualquer outro evento da Eurovisão, porque os ucranianos que fugiram da guerra estão agora espalhados por todo o mundo, incluindo o Reino Unido. Desse modo, para os ucranianos, o festival europeu da canção deste ano foi, em muitos aspetos, revelador e, até, surpreendente.

Kateryna Horodnicha, uma jornalista ucraniana que vive agora no Reino Unido, visitou pessoalmente a Eurovisão pela primeira vez. E, numa publicação na sua página do Facebook, partilhou:

Nunca vi tanto glitter e lantejoulas por metro quadrado como na fila à entrada da Arena onde se realizou a final [da Eurovisão]. […] E embora eu seja contra qualquer generalização, depois de mergulhar de cabeça no evento tenho duas conclusões. Uma é bem conhecida, a outra é uma verdadeira descoberta.
1. Esta é uma verdadeira celebração LGBTQ+. É por isso que é engraçado ver/ouvir/ler homofóbicos que ficam verdadeiramente surpreendidos com o envolvimento das minorias sexuais em comentários, perícias, etc. Por favor: essa é a principal força motriz do processo.
2. Eu não entendi imediatamente. Na Ucrânia, as questões raciais não são priorizadas porque há pouca representação não europeia lá. Mas a Eurovisão é mesmo um concurso de canções para pessoas brancas. Não conheci NENHUM fã afrodescendente. Embora Liverpool não seja uma sociedade unicamente branca.

Kateryna Horodnicha, jornalista ucraniana a viver no Reino Unido

Guerra, sexo e direitos humanos

A Ucrânia tem sido acusada de discriminar tanto pessoas LGBTQ+ como pessoas negras.  Mas, no meio duma guerra em grande escala, muitas pessoas têm pedido para que o país reconheça oficialmente casais do mesmo sexo. As pessoas LGBTQ+ também estão a lutar pelo Estado ucraniano durante a invasão da Rússia, e o reconhecimento legal pode lhes dar proteções adicionais, por exemplo, se uma pessoa for ferida ou morta.

No entanto, o movimento pela igualdade no casamento tem oponentes poderosos, incluindo muitas igrejas cristãs na Ucrânia, onde cerca de 85% dos ucranianos se identificam como cristãos, de acordo com um estudo de 2022 do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev.  Também é considerado perigoso ser percebido como queer nas ruas, e as marchas do orgulho nas cidades ucranianas sempre foram fortemente vigiadas pela polícia porque os participantes eram frequentemente atacados. Ao mesmo tempo, ao contrário da Rússia, não há legislação anti-LGBTQ+ na Ucrânia e ativistas proeminentes do movimento são visíveis nos media ucranianos e na sociedade civil.

Há também uma pequena comunidade de pessoas negras na Ucrânia, filhos de casais mistos ou estudantes internacionais, já que o país oferece educação universitária mais acessível do que muitos países da UE. No entanto, no início da guerra, houve alegações generalizadas sobre estudantes estrangeiros sendo discriminados por autoridades ucranianas enquanto tentavam fugir do país.

Jimoh Augustus Kehinde, de 25 anos, mais conhecido como Jeffrey, um dos membros da banda Tvorchi, é um desses estudantes. Mas decidiu ficar na Ucrânia. Ele veio da Nigéria para Ternopil, na Ucrânia, em 2013, para estudar farmácia. Em 2018, Andrew (Andriy Hutsuliak), 27, outro membro da Tvorchi, abordou-o na rua para praticar seu inglês. Parecia, aliás, que eles estavam a estudar na mesma universidade. Tornaram-se amigos, criaram uma banda em 2017 e participaram nas seleções nacionais para a Eurovisão por duas vezes, em 2020 e 2022, apesar de não acharem que poderiam ganhar.

Entretanto, por mais que seja sobre música e política, a Eurovisão também é sobre diplomacia, e a presença de Jeffrey na banda ucraniana tem potenciais benefícios diplomáticos para a Ucrânia. E parece que os membros da Tvorchi estão cientes disso. Em março de 2023, eles fizeram uma viagem a Nairóbi, no Quénia, organizada pela USAID “para influenciar o nível de propaganda contra a Ucrânia [que] lá [existe]”, como eles explicaram.  “Nós unimo-nos e nos tornamos um exército da frente cultural”, acrescentaram. “Conseguimos arrecadar milhões de dólares, realizar ações de consciencialização, encontrar líderes de estados parceiros, dizer a verdade, pedir ajuda e proferir palavras de gratidão”. Na cerimónia de abertura da Eurovisão 2023, eles usaram casacos com nomes e pesos de crianças nascidas prematuramente após o início da invasão russa, devido ao stress que as suas mães vivenciaram, no intuito de arrecadar fundos para hospitais ucranianos.

Os vencedores

Na Eurovisão 2023, os Tvorchi ficou em sexto lugar e, apesar da sua história comovente, os espetadores tinham outros favoritos, até mesmo na Ucrânia. A banda também ainda não conseguiu superar o sucesso da Kalush Orchestra noutros aspetos, como na criação de símbolos icónicos como o chapéu rosa Panamá de Kalush, que ainda foi usado na Eurovisão 2023, um ano após a sua apresentação vencedora. Em Ivano-Frankivsk, o centro da região onde fica a cidade de Kalush (Ivano-Frankivsk-Kyivsk), o comboio Ivano-Frankivsk-Kyiv foi renomeado para Stefania Express por um ano em homenagem à canção vencedora da Eurovisão “Stefania”. A canção também tem sido reproduzida nas estações ferroviárias de Ivano-Frankivsk, Kalush e Kiev quando o comboio chega

A vitória da Kalush Orchestra na Eurovisão foi a terceira da Ucrânia em 20 anos. Em 2017, Jamala, uma tártara oriunda da Crimeia, tornou-se a segunda vencedora mais recente, com a canção “1944” sobre a deportação dos tártaros da Crimeia no final da II Guerra Mundial pelo ditador soviético Josef Estaline:

Já Ruslana obteve a primeira vitória em 2004, com a sua interpretação de “Wild Dances” (“Дикі танці”), fazendo referência à cultura popular nas montanhas ucranianas dos Cárpatos:

A maioria das outras participações ucranianas na Eurovisão foram, em grande parte, esquecidas, pois raramente estavam entre os mais populares, mesmo no seu próprio país. Para Tvorchi, no entanto, dada a receção positiva e o trabalho comunitário, os seus melhores dias ainda podem estar para vir.

Licença Creative Commons

Este artigo, escrito por Yulia Abibok e traduzido por Doralice Silve, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n’o largo ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

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