Inteligência Artificial: o imaginário, o concreto e o necessário

“À data de hoje, […] não sabemos qual o imaginário de IA que se está a construir”.
Deliriss
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O monólogo de 42 palavras “Tears in Rain” do replicante/androide interpretado por Roy Batty em Blade Runner é um dos solilóquios mais comoventes da história do cinema. É tão mais interessante (e inquietante) pelo tema pensado e sentido por uma inteligência artificial (IA) ser o da morte. A inquietação face a esta expressão de consciência por uma IA, em tudo equiparável à humana, repete-se (em nós e nos personagens humanos) em filmes como Ex-machina; Homem bicentenário; ElaChappie ou AI. Se, nestes casos, a tónica é na relação e empatia com a IA, em muitos mais (e.g. 2001, Odisseia no Espaço; Matrix; Exterminador Implacável; Tron; I, Robot; Vingadores: a era de Ultron) é na apreensão e ameaça decorrente de uma potencial autonomização da IA, de perda da capacidade humana de a controlar e de um eventual domínio desta sobre os humanos. Os filmes e as obras de autores como Isaac Asimov, Philip K. Dick, ou Ray Bradbury modelaram este imaginário e as representações visuais mais comuns de IA.

O projeto Better Images of AI sugere que pesquisemos “AI images” e descubramos a prevalência de imagens antropomórficas e a escassez de outras representações mais realistas de aplicações atuais (e.g., sistemas de vigilância, assistentes virtuais, software de análise, de tradução, de termostato). Este elemento visual, fundamental na compreensão pública da ciência e tecnologia, terá de ser repensado para se comunicar e perceber melhor o progresso e os riscos da IA.

Este assunto ganhou novo fôlego após o lançamento e notícias subsequentes sobre o Chat GPT que culminou na carta aberta assinada por várias vozes de IA para suspender o desenvolvimento da tecnologia até se definirem padrões de segurança e éticos robustos. Mas como podemos estabelecer estes padrões se as equipas de ética de IA estão a ser demitidas massivamente?

Visões de futuro coletivamente apoiadas, institucionalmente estabilizadas e publicamente visíveis (definidas como “imaginários sociotécnicos”) são parte integrante do desenvolvimento científico e tecnológico. No entanto, e à semelhança de algumas questões subjacentes à falta de participação política, sabemos que o recurso a vocabulário tecnocrático (como tantas vezes acontece em comunicação política sobre tecnologia) limita a democratização do saber e, neste caso, o afastamento da necessária participação social.

Como consequência, à data de hoje, para além das representações visuais que ainda bebem da ficção científica, não sabemos qual o imaginário de IA que se está a construir. Urge perceber o que cidadãos em geral e grupos específicos do tecido político, empresarial, e tecnológico sabem e entendem sobre IA, bem como o que imaginam para um futuro com ela.

A UE apela agora a uma reunião mundial para encetar ação política significativa com um projeto de lei que deverá contemplar diretrizes éticas e regulamentares. Ao invés de continuar a validar a narrativa dominante de que a ética limita o lucro, deveremos fazer um esforço coletivo para perceber e ter em conta os riscos da privacidade e da segurança pública. Que não estejamos à espera de um incidente devastador, impossível de reparar, e tudo acabe como no verso do Ruy Belo: “Eu vinha para a vida e dão-me dias.”.

Este texto é publicado n’o largo. no âmbito do projeto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa“, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa

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