A normalização do estilo chinês de censura em Hong Kong

Arte e cinema também são afetados por leis de censura
Joseph Chan
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Em outubro de 2022, uma reportagem da Bloomberg causou frenesim na comunicação social quando insinuou que uma sessão de cinema ao ar livre com o filme da série Batman “O Cavaleiro das Trevas” foi proibida por censores em Hong Kong. A reportagem especulava que a decisão poderia estar relacionada com a recém-sancionada Lei de Segurança Nacional, mas, no fim, a verdadeira razão era menos dramática. Devido ao conteúdo violento do filme e a exibição ser ao ar livre, o Escritório de Administração de Filmes, Jornais e Notícias recomendou que organização cancelasse a exibição.

O governo de Hong Kong foi rápido em criticar a Bloomberg pela reportagem enganosa. Mas essa tendência para manchetes chamativas a sugerir a ameaça iminente de censura ao estilo da China continental em Hong Kong desvia as atenções das práticas de censura que já aconteceram na cidade nos últimos anos.

Após os grandes protestos contra a intromissão da China em Hong Kong em 2019, Pequim impôs a Lei de Segurança Nacional em Hong Kong em junho de 2020, que definiu crimes de secessão, subversão, terrorismo e conspiração com organizações estrangeiras. Apesar da nova legislação ter como alvos principais políticos e a oposição pró-democracia, ativistas e meios de comunicação social importantes, logo também atingiu a cenário artístico e cultural de Hong Kong.

O Conselho de Desenvolvimento das Artes de Hong Kong, criado em 1995, tem sido importante para apoiar e financiar uma variedade de grupos artísticos locais, instituições, projetos e até filmes. No início de 2021, o Conselho foi acusado por um meio de comunicação social estatal de ter financiado organizações subversivas no passado, destacando o grupo de cinema Ying E Chi, que distribuiu o documentário de protesto “Inside the Red Brick Wall”, assim como o Centro de Apoio às Artes e Cultura que sediou aquele grupo no seu centro artístico no edifício Foo Tak. Desde então, o Conselho colocou em prática regras e medidas mais severas para garantir que os beneficiários de apoio financeiros não estejam em conflito com a legislação de segurança nacional. O financiamento anterior do grupo Ying E Chi, no valor de 700 mil dólares de Hong Kong (cerca de 81 mil euros) foi cancelado pelo Conselho em julho.

Em junho de 2021, o governo também aprovou emendas no Decreto de Censura de Filmes com regras elaboradas a respeito da Lei de Segurança Nacional. Elas orientam os censores a considerar “o filme como um todo e o seu efeito nos espectadores”, e que deveriam classificar qualquer filme inadequado para exibição como sendo “provável” causador de alguma transgressão. Após essa aprovação, os cineastas tiveram de lidar com decisores extremamente cautelosos. A diretora Mok Kwan-ling, cujo filme foi selecionado para uma exibição num festival de cinema, foi intimada a fazer 14 cortes no seu filme de 25 minutos. Ela recusou, considerando a intervenção exagerada. O documentário “Revolution of Our Times”, sobre os protestos sociais de 2019, que foi selecionado para o Festival de Cannes de 2021 e também ganhou o prémio de Melhor Documentário no Golden Horse Awards de Taiwan de 2021, nunca foi oficialmente lançado em Hong Kong. A polícia também permaneceu intencionalmente ambígua sobre o lançamento do documentário na internet. O comissário Raymond Siu Chak-yee quase disse que o streaming do documentário seria um ato criminoso e recomendou a todos que mantivessem distância. No entanto, até filmes não controversos têm sido atacados pelos meios de comunicação social pró-governamentais. Em fevereiro de 2022, o colunista Chris Wat Wing-yin acusou o popular filme “The Sparring Partner” de ter uma posição política disfarçada ao retratar detetives duma forma menos positiva.

Mas outros conteúdos culturais começaram a desaparecer também. Em 2021, a plataforma de streaming Disney+ removeu o episódio de “Os Simpson” “Goo Goo Gai Pan”, no qual a família do desenho animado visita a China. O episódio incluía várias referências à repressão dos protestos na Praça da Paz Celestial em 1989 [NT: Praça de Tiananmen], e continua indisponível em Hong Kong até hoje. No início de janeiro de 2022, foi revelado que as rádios públicas de Hong Kong baniram vários cantores e grupos musicais de Hong Kong, incluindo Denise Ho, Anthony Wong Yiu-ming, Serrini, Charmaine Fong, C AllStar, e RubberBand. Artistas como Denise Ho inclusive têm tido dificuldades em conseguir locais para fazer os seus espetáculos, já que muitos são diretamente administrados pelas agências governamentais ou dependem de subsídios públicos.

Em abril de 2022, o prestigiado museu M+, visto como a joia da coroa do novo distrito artístico de Hong Kong, aparentemente, removeu três obras controversas de artistas contemporâneos chineses. Apesar do comunicado oficial se referir a uma rotação normal das obras, o M+ já havia removido a obra de Ai Weiwei “Study of Perspective: Tian’anmen” do seu catálogo on-line. A imagem famosa, que mostra um dedo do meio apontado para a Porta da Paz Celestial em Pequim, permanece indisponível para visualização, enquanto outras obras que mostram a Casa Branca em Washington DC ou a Mona Lisa no Louvre permanecem acessíveis.

Enquanto isso, as bibliotecas públicas de Hong Kong tiraram vários livros das prateleiras, incluindo publicações de figuras políticas como Joshua Wong. Em julho de 2022, algumas editoras também foram banidas da feira do livro anual no Centro de Convenções, em Wan Chai. Elas nem puderam reservar outro lugar para realizar uma feira do livro alternativa.

Apesar do cancelamento repentino da exibição do filme do Batman ter sido provavelmente uma preocupação menor para a indústria criativa de Hong Kong, o incidente mais recente de censura do cinema foi um pouco alarmante. Apesar de inicialmente ter recebido permissão do Conselho, o recém-lançado filme de horror de baixo orçamento “Winnie the Pooh: Blood and Honey” foi repentinamente retirado de todos os cinemas locais dias depois do seu lançamento oficial. A distribuidora VII Pillars disse mais tarde que não recebeu uma justificação específica para esta mudança de planos repentina, porém coordenada, dos cinemas locais. Desde a crescente popularidade dos memes da internet que sugerem uma semelhança entre Winnie The Pooh e o presidente da China Xi Jimping, o personagem de desenho animado tem sido um alvo comum e recorrente dos censores chineses.

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Este artigo, escrito por Advox e traduzido por Isabela Torezan, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n’o largo ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

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