Krassotkin (CC0)

Quem está a ajudar Putin? Controvérsia sobre o canal Dozhd na Letónia incendia tensões com expatriados russos anti-guerra

Os problemas no canal de televisão Dozhd inflaram as tensões de longa data entre os russos expatriados e os cidadãos de outras ex-repúblicas soviéticas.
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Este artigo é uma tradução para português de Portugal dum artigo em inglês da RFE/RL.


“Há uma linha entre a liberdade de expressão e o apoio à guerra”, disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Letónia, Edgars Rinkevics, numa entrevista publicada a 05 de dezembro. “Penso que nenhuma autoridade letã irá atrasar a tomada de decisões claras sobre o canal de televisão Dozhd. Mas devem ser decisão baseadas em factos e leis”.

A 06 de dezembro, a entidade reguladora dos meios de comunicação electrónicos da Letónia tomam essa decisão, revogando a licença de emissão da estação de televisão russa independente exilada, com efeitos a 08 de dezembro, referindo uma “ameaça à segurança nacional e à ordem pública”.

A decisão surgiu depois do país, a 02 de dezembro, ter multado a Dozhd em dez mil euros por mostrar um mapa que incluía a região ucraniana ocupada da Crimeia como parte da Rússia e chamar às forças armadas russas de “o nosso exército”.

No mesmo dia, os serviços de segurança interna da Letónia abriram uma investigação sobre declarações proferidas em direto pelo moderador Aleksei Korostelyov a 01 de dezembro, onde convidava os telespetadores a enviarem histórias sobre violações da lei russa durante a mobilização militar decretada pelo presidente Vladimir Putin em setembro e sobre possíveis crimes de guerra cometidos na Ucrânia.

Enquanto fazia este pedido, Korostelyov disse: “Esperamos também ter ajudado muitos militares, nomeadamente através de assistência com equipamentos e necessidades básicas na linha da frente”.

A Dozhd nunca forneceu, não fornece e nunca fornecerá equipamento ou qualquer outra coisa a qualquer exército, incluindo o da Rússia

Tikhon Dzyadko, chefe de redação da Dozhd

Os incidentes num dos meios de comunicação social de língua russa mais amplamente respeitados haviam atingido um ponto nevrálgico, com muitos na Letónia, Ucrânia e outros países a argumentar que muitas figuras da oposição russa, consciente ou inconscientemente, simpatizam com os impulsos neocoloniais e imperialistas do Kremlin.

Os defensores da Dozhd, no entanto, contrapõem, dizendo que silenciar a estação, que foi expulsa da Rússia por não aderir à retórica do Kremlin sobre a invasão da Ucrânia, é uma vitória para o presidente russo Vladimir Putin e um golpe nos esforços para deter a agressão russa.

Rapidamente, a administração da Dozhd, conhecida em inglês como TV Rain, demitiu Korostelyov e entrou em modo de crise, perante as acusações de que o canal apoiou a invasão não provocada de Moscovo à Ucrânia.

“A Dozhd nunca forneceu, não fornece e nunca fornecerá equipamento ou qualquer outra coisa a qualquer exército, incluindo o da Rússia”, disse o chefe de redação Tikhon Dzyadko à Current Time a 02 de dezembro.

Mas isto não foi suficiente para convencer os reguladores letões, que afirmaram em comunicado que a direção do canal “não compreendeu nem reconheceu o significado e a gravidade das violações e, por conseguinte, não pode operar no território da Letónia”.

A Dozhd prometeu continuar a transmitir através da internet e nas redes sociais.

Acima da lei?

O canal foi lançado na Rússia em 2010, sob o lema de “canal otimista”. Ganhou a reputação de ser um canal sério e profissional fazendo a cobertura de protestos, corrupção, dissidência e outras questões russas, apesar da pressão governamental. Em 2021, durante a repressão que precedeu a invasão russa da Ucrânia, o Kremlin listou o Dozhd como um “agente estrangeiro”. Em março, foi encerrado na Rússia, menos de um mês após o início da guerra, por causa da sua cobertura do conflito. Em julho, foi relançado a partir de estúdios localizados em Riga.

Últimos minutos da emissão da Dozhd em março

Os problemas da Dozhd claramente inflaram as tensões de longa data entre os russos expatriados e os cidadãos de outras ex-repúblicas soviéticas.

“Ó meu Deus!”, escreveu um utilizador no Twitter. “Mais uma vez, algures, eles não cederam aos russos que pensam que só os tolos locais deveriam seguir a lei, enquanto os representantes de um “estado mais forte” estão acima disso. Só a oposição russa saiu mal desta história”.

Um letão no Twitter aplaudiu os reguladores por “não sucumbir à histeria dos ‘bons russos'”.

“A ideia de que ‘as fronteiras da Rússia nunca acabam’ aquece as almas tanto dos liberais vatniki como dos russos”, escreveu outro crítico da Dozhd no Twitter, utilizando uma citação de Putin e um calão pejorativo para um russo que, sem qualquer crítica, acredita no jingoísmo do Kremlin.

Outros alegaram que os administradores da Dozhd apareceram para na audiência com os reguladores letões sem ninguém na sua delegação que falasse letão.

“Pensaram que iriam falar russo ali”, escreveu um utilizador do Twitter.

Uma conta nacionalista letã no Twitter entretanto suspensa descobriu um post de Dzyadko de 2014 e apresentou-o como uma suposta prova das tendências imperialistas do canal. Na partilha, Dzyadko escreveu de forma irónica “Crimeia, bem-vinda à Rússia!”, com um vídeo mostrando as autoridades de ocupação russas a dispersar brutalmente um protesto na cidade de Sevastopol, na Crimeia.

Outro utilizador no Twitter descreveu a Dozhd como “um cavalo de Tróia imperial”.

“Estão a abrir champagne no Kremlin”

Liberais russos proeminentes, a maioria dos quais deixou a Rússia por medo de perseguição pela sua oposição às políticas de Putin, afirmaram que a decisão letã era motivo de celebração no Kremlin, acrescentando que ninguém acreditava seriamente que a Dozhd estivesse a fornecer equipamento aos soldados russos na Ucrânia.

“Hoje é uma celebração para Putin”, escreveu no Twitter Leonid Volkov, um assessor do líder da oposição Aleksei Navalny, que se encontra preso. “A vida tem-lhe dado poucos motivos de alegria ultimamente, mas hoje estão a abrir champanhe no Kremlin”.

A porta-voz de Navalny Kira Yarmysh partilhou algo similar: “A cassação da licença da Dozhd ajuda Putin e não faz nada para o prejudicar”.

Dias antes da decisão da Letónia, o deputado de São Petersburgo Boris Vishnevsky disse que revogar a licença seria “um enorme presente para os propagandistas russos”.

Lev Shlosberg, presidente do partido liberal Yabloko na região russa de Pskov, que faz fronteira com a Letónia, criticou a decisão de Riga, considerando-a “uma reação populista às exigências de uma parte radical da sociedade letã que apela à completa ‘desrussificação’ dos meios de comunicação e da política do país”.

Brad Ritson/Unsplash _ Imagem de Putin da autoria do artista Kriss Salmanis junto à embaixada da Rússia em Riga, na Letónia.

Os críticos responderam dizendo que o ponto de vista dos detratores da Dozhd ficou provado.

Um internauta comentou a publicação de Shlosberg no Facebook: “O essencial desta publicação é que a Letónia é irremediavelmente provinciana, mas ousa tomar decisões sem a permissão de ‘superiores’. Qual é a sua sugestão? Vai chegar e criar ordem? Não concordo com a proibição da Dozhd, mas eles não estão isentos da obrigação de seguir as leis da Letónia. A sua opinião é bastante reveladora”.

A jornalista russa Yulia Latynina no Twitter relacionou a decisão letã com uma alegação de que o país aceitou muito menos refugiados ucranianos do que a muito menor Estónia. Enquanto muitos utilizadores contestaram os seus números, outros encarregaram-na de tentar ditar políticas à Letónia.

“Uma cidadã do país que criou os refugiados em primeiro lugar acusa outros de aceitarem muito poucos desses refugiados”, comentou um utilizador. “Puro surrealismo”.

“Aliados Naturais”

O economista russo Konstantin Sonin, que leciona na Universidade de Chicago, escreveu uma thread no Twitter que registou muitas nuances da questão do canal.

“Compreendo totalmente a frustração de muitas pessoas na Ucrânia, Letónia e noutros países que são atacados ou ameaçados pela Rússia”, escreveu, enquanto lamentava a decisão da Letónia em relação à Dozhd. “Compreendo a relutância em assumir uma visão moderada que faz uma distinção entre pró-guerra, russos pró-Putin e russos antiguerra”.

“Também compreendo que os russos antiguerra e anti-Putin são responsáveis pela [guerra] (e por Putin)”, continuou. “Eu próprio penso no que poderia ter feito de diferente, que tipo de esforços poderia ter feito para impedir o regime de Putin de se apoderar da Rússia e de lançar uma guerra contra a Ucrânia”.

Mas Sonin insiste que os russos antiguerra “são aliados naturais e ajudam os defensores da Ucrânia”, mesmo que eles próprios não tenham sido capazes de “parar a guerra criminosa”.


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