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Como o governo venezuelano utiliza as redes sociais para encobrir o seu maior caso de corrupção

Destaca-se o papel fundamental dos meios digitais na máquina de propaganda de Maduro
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Se não segues as notícias venezuelanas, provavelmente ainda não ouviste o nome Alex Saab. A história do seu império empresarial como agente económico presidente Nicolás Maduro é essencial para compreender a corrupção, o abuso de poder e a emergência humanitária na Venezuela. No entanto, Alex Saab é também um excelente exemplo para compreender a desinformação governamental e a dinâmica por detrás da máquina de propaganda de Maduro, que inclui ataques e perseguições contra jornalistas e o bloqueio dos meios de comunicação digitais.

Quem é Alex Saab?

Alex Saab é um empresário colombiano. A sua primeira aparição política e pública na Venezuela foi em 2011, quando assinou um acordo comercial entre as administrações de Juan Manuel Santos [Nota do tradutor: ex-presidente da Colombia entre 2010 e 2018] e Hugo Chávez. Saab tem estado envolvido em esquemas de corrupção em projetos de habitação e no programa alimentar do governo venezuelano para as comunidades empobrecidas durante a emergência humanitária, que começou em 2014 e que continua naquele país.

Saab foi detido em Cabo Verde, África, a 13 de junho de 2020, e foi acusado de ser testa-de-ferro de Nicolás Maduro e de lavar milhões de dólares através do sistema de controlo cambial venezuelano. Foi então extraditado para os EUA, apesar dos esforços de Maduro para o evitar. Numa reviravolta dos acontecimentos, em fevereiro de 2022, verificou-se que Saab tinha estado a trabalhar sob disfarce para a DEA (“Drug Enforcement Administration”, em português Administração de Fiscalização de Drogas dos Estados Unidos) desde 2018.

Os jornalistas que investigaram Saab

Em 2015, o projeto digital de jornalismo de investigação Armando.info foi o primeiro a descobrir o esquema de corrupção da Saab entre 2012 e 2013 com o projeto governamental de habitação “Gran Misión Vivienda”. O consórcio revelou como Saab recebeu cento e cinquenta e nove milhões de dólares, mas só entregou três milhões de dólares em construção (ou seja, quatro em cada cem casas prometidas). Nesse mesmo ano, o seu nome também foi encontrado nos “Panama Papers” como tendo desviado fundos para comprar casas no Panamá.

Em 2017, Saab reinventou-se e começou a vender alimentos para os CLAP (“Comités Locales de Abastecimiento y Producción”, em português “Comissões Locais de Fornecimento e Produção”), um programa que vende caixas de alimentos subvencionadas a comunidades pobres, com o objetivo de atingir sete milhões de famílias e reduzir a insegurança alimentar no meio da emergência humanitária. Os alimentos Saab vendidos ao governo eram sobrefaturados e o governo de Maduro pagou por eles com “dólares preferenciais”, dólares dados pelo governo a taxas vantajosas no âmbito do sistema de controlo cambial do país.

Nesse ano, o projeto Armando.info também investigou a questão e a equipa foi processada diretamente por Saab e Nicolás Maduro. Este foi o início de um ataque sistemático contra os meios de comunicação digitais e os quatro jornalistas que lideraram as investigações de corrupção: Roberto Deniz, Alfredo Meza, Ewald Scharfenberg e Joseph Poliszuk. A ação judicial intentada acusava-os de “continuada difamação agravada”. A equipa foi considerada culpada, teve de fugir do país sob proteção internacional e foi proibida pela CONATEL (“Comision Nacional de Telecomunicaciones”, em português, “Comissão Nacional de Comunicações”, o regulador venezuelano) de continuar as suas investigações ao programa CLAP ou mesmo de mencionar o nome de Saab.

Desde 2017 que o site Armando.info tem sido sujeito a contínuos bloqueios na Internet e ataques informáticos com o objetivo de censurar o mais prestigiado meio de comunicação digital de investigação da Venezuela.

A resposta do governo de Maduro à detenção de Saab

Em 2019, o Departamento do Tesouro dos EUA condenou Saab, depois de garantir em público ter provas do esquema de corrupção através do programa CLAP. Nesse mesmo ano, o Procurador do Distrito do Sul da Florida acusou Saab e o seu sócio Álvaro Pulido por branqueamento de capitais na ordem dos trezentos e cinquenta milhões de dólares, através de um plano de subornos em conjunto com o governo venezuelano.

Apesar de Maduro ter negado a sua relação financeira com Saab em 2017, o governo de Maduro iniciou uma intensa campanha depois de ele ter sido preso e fez da suspensão da extradição do empresário para os Estados Unidos uma prioridade. As ruas de Caracas foram inundadas de graffitis pedindo a sua libertação, alegadamente pagos pelo governo.

Mas a estratégia política e de propaganda foi também fascinante. Primeiro, o governo de Maduro tentou denunciar a detenção de Saab como sendo uma prisão política, depois do governo o ter rapidamente nomeado Embaixador Plenipotenciário da Venezuela junto da União Africana. O advogado de Saab, David Rivkin, usou isto como sua principal defesa: “Se os Estados Unidos violam a imunidade diplomática, criam um precedente perigoso”, explicou em entrevista à publicação Revista Semana. A Venezuela conseguiu fazer dele um diplomata porque também lhe tinha concedido secretamente a cidadania venezuelana.

Saab emitiu também um comunicado, denunciando o seu “rapto e tortura pelo governo dos Estados Unidos, em cumplicidade com as autoridades de Cabo Verde que o torturam arbitrariamente e o mantiveram prisioneiro durante 491 dias, sem um mandado de captura ou devido processo”. Nesse mesmo mês, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, solicitou que Saab participasse nas negociações do México, onde o governo e a oposição se reuniram para estabelecer um diálogo de entendimento entre ambas as partes.

O papel das redes sociais em tudo isto

As redes sociais têm sido cruciais para a estratégia do Chavismo de elevar a reputação de Saab. Na semana da sua detenção em Cabo Verde, por exemplo, o tema esteve em todas as conversas relevantes no Twitter. “Cada atualização sobre o caso Saab cria uma enorme quantidade de conteúdos nos meios de comunicação social nacionais, internacionais e sociais. Os hashtags relacionados com o Saab são incrivelmente repetitivos. Vemos hashtags sobre ele a ser tendência todos os dias e alguns deles são muito problemáticos, especialmente os que são promovidos pelo governo de Maduro”, explica Maria Virginia Marín, diretora da Probox, uma equipa centrada na monitorização e análise de conversas nas redes sociais na Venezuela. Este relatório exaustivo menciona algumas das narrativas utilizadas pelo governo de Maduro.

Nessa semana, a detenção de Saab foi um “trending topic” durante quatro dias, com as hashtags “#AlexNosUnióMás”, “#AlexPresoPolítico” e “#AlexEsDiálogo” (“#AlexUniu-nosMais”, “#AlexPresoPolítico” e “#AlexÉDiálogo”), promovidas por atores políticos e instituições chavistas de alto nível e com um envolvimento de cinquenta e cinco por cento por contas falsas ou automáticas . A Probox classifica as contas como sendo automáticas quando parecem só se envolverem com determinados atores políticos na Venezuela. Neste caso, eles identificaram que 55 por cento das contas assim classificadas interagem com tweets chavistas, usam hashtags promovidos por entidades chavistas, mudam constantemente o seu nome de utilizador e nome na rede social e apagam tuítes antigos para esconder atividade inorgânica.

Após a sua extradição para os Estados Unidos e o anúncio da participação nas conversações do México em setembro de 2021, os trending topics sobre Saab atingiram um pico. Foi o mês em que foi mais mencionado no Twitter, com 34 hashtags sobre ele a chegar às tendências, todas elas promovidas por contas chavistas radicais, registando 53,75 por cento de interação inorgânica. Entidades estatais também estiveram envolvidas na conversa, com o Ministério Público a promover a hashtag “#LaVerdadSiempreTriunfa” (“#AVerdadeSempreTriunfará”) no dia seguinte à sua extradição.

O caso de Alex Saab tornou-se num dos incidentes mais relevantes para compreender a máquina de propaganda de Maduro na Venezuela e o seu efeito nos eventos sociais e políticos. Salienta também o papel fundamental dos meios de comunicação digitais, especialmente o jornalismo de investigação que denuncia práticas autoritárias. Plataformas como a Probox e a Armando.info têm sido capazes de proporcionar algum nível de transparência num dos maiores casos de corrupção na Venezuela.

Licença Creative Commons

Este artigo, escrito por Gabriela Mesones Rojo, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n’o largo ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

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