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A internet da Ucrânia pode suportar ataques a longo prazo e destruição pela Rússia?

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Este artigo foi publicado há, pelo menos, 11 meses, pelo que o seu conteúdo pode estar desatualizado

Na Ucrânia, a internet tornou-se a principal frente de defesa contra a invasão russa. É como os militares informam os ucranianos sobre os próximos ataques russos, sobre como a ajuda humanitária é organizada, como os cibervigilantes se reúnem e como o resto do mundo fica a saber da guerra. Tornou-se a mais importante arma da Ucrânia, dominando a narrativa da guerra e resistindo à desinformação russa. A internet é também a forma como empresas ocidentais, como a Microsoft, têm sido capazes de analisar e corrigir vulnerabilidades nas redes ucranianas, criando uma defesa eficaz contra os ataques cibernéticos de Moscovo. Muitos especialistas têm-se questionado por que a Rússia não tentou destruir a infraestrutura da internet na Ucrânia.

Em 2014, o controlo das redes de internet da Crimeia por parte da Rússia foi uma das principais causas para o sucesso do referendo de adesão da península à Federação Russa. Moscovo esperava que uma manobra semelhante funcionasse durante a invasão da Ucrânia. Desde 24 de fevereiro, Vladimir Putin tem confiado na internet ucraniana para organizar a oposição interna a Volodymyr Zelenskyy, exortando os ucranianos a pegar em armas contra seu próprio governo. Embora a narrativa da Rússia não tenha sido ouvida pela maioria dos ucranianos, ela convenceu alguns a ajudar os militares russos, marcando o terreno de aterragem e bombardeando alvos.

Se a guerra se arrastar e a Rússia continuar incapaz de controlar a narrativa dentro da Ucrânia, o alvo poderá ser as infraestruturas centrais de telecomunicações. Até agora, muitas das manobras militares russas foram centradas nos centros urbanos de internet da Ucrânia. De forma antecipada, empresas e governos em todo o mundo ajudaram a fortalecer as redes de comunicação do país. O magnata dos Estados Unidos Elon Musk doou um número desconhecido de sistemas de comunicação através do satélite Starlink, em caso de grandes perturbações na internet. Os operadores europeus de telecomunicações ofereceram serviços gratuitos aos ucranianos. Embora gentis e úteis, esses gestos serão ineficazes se a Rússia decidir atacar os cabos submarinos e de fibra ótica.

O estado da infraestrutura da internet na Ucrânia

O ciberespaço pode ser mais bem compreendido por uma estrutura de três camadas. A camada mais fundamental é a infraestrutura física: cabos submarinos de fibra ótica e satélites que transmitem dados. A segunda camada é composta pelos protocolos que permitem que computadores e sub-redes se comuniquem entre si: TCP/IP, Border Gateway Protocol (BGP) e o Domain Name System (DNS). Estas duas camadas são extremamente vulneráveis à manipulação. Cabos submarinos e de fibra podem ser bombardeados; servidores DNS podem ser invadidos; o tráfego IP pode ser redirecionado.

A camada final é feita dos destinos finais com os quais os usuários estão mais familiarizados: s governamentais, Telegram, Facebook, etc. Esta é a camada mais resiliente porque os sites podem ser espelhados, a desinformação eliminada e as páginas hackeadas podem ser rapidamente restauradas. As VPNs (Virtual Private Networks), que operam na segunda camada, podem ser usadas para contornar as restrições a sites na terceira camada.

A camada primária, a infraestrutura física, tem o maior potencial para influenciar a dinâmica do conflito militar em solo. A principal função dos nós da internet é abrigar “sistemas autónomos (SA), um conjunto de encaminhamento de Protocolo de Internet (IP) conectado [nós] que os operadores de rede controlam, o que define a política de encaminhamento para a internet”. O controle sobre o SA permite ao operador restringir ou redirecionar o caminho dos dados. Se a Rússia assumisse o controle de Mariupol, Zaporíjia, Dnipro e Odessa, poderia controlar quase totalmente o fluxo do tráfego de internet da Ucrânia.

Por que a Rússia não atacou a rede de telecomunicações da Ucrânia?

No dia 24 de fevereiro, dia da invasão da Rússia, a Ucrânia enfrentou falhas generalizadas na internet. A operadora Triolan, que serve a maior parte da Ucrânia e, em particular, Kharkiv, enfrentou interrupções parciais devido a ataques cibernéticos às suas instalações. Os servidores DNS da Triolan, que encaminham o tráfego dos dispositivos para os sites da internet, foram parcialmente bloqueados.

Desde o início da guerra, a internet ucraniana permaneceu praticamente intacta e as interrupções foram localizadas. Quando as forças russas ocuparam Zaporíjia, a 07 de março, desligaram as redes móveis e de internet. Zaporíjia abriga a maior central nuclear da Europa e é um dos principais nós de telecomunicações da Ucrânia. Após a ocupação, a Agência Internacional de Energia Atômica adiantou que “as linhas telefónicas, assim como e-mails e fax, não estavam a funcionar”, impedindo a comunicação com a central.

A fim de desligar completamente as redes da Ucrânia, vários ISP em todo o país precisam ser desligados. Isto é possível tanto por ciberataques sustentados como por bombardeamentos diretos. A Lanet, uma operadora de banda larga ucraniana, teve interrupções de serviço na cidade de Sievierodonetsk quando seus cabos foram danificados durante o combate. Apesar de alguns ataques a torres de TV, os principais serviços de telecomunicações da Ucrânia ainda não foram alvo de ataques.

Há duas razões possíveis.

Em primeiro lugar, a infraestrutura de telecomunicações da Ucrânia é resiliente aos ataques russos. A internet ucraniana está muito distribuída. Devido a uma falta de regulamentação nos anos 1990, muitas operadoras independentes construíram redes em todo o país sem uma competição séria. Mais da metade dos utilizadores de internet da Ucrânia está coberta por uma operadora que tem menos de 1% do mercado nacional. Ao contrário da maioria dos países, a internet na Ucrânia é extremamente local, com poucos pontos de estrangulamento.

Além disso, as redes de telecomunicações da Ucrânia também foram fortalecidas desde 2014. Após a invasão de Crimeia e Donbas, a Ucrânia criou um departamento de polícia digital para melhorar suas capacidades no ciberespaço. Em 2016, o país adotou uma Estratégia Nacional de Segurança Cibernética. A União Europeia também investiu 27 milhões de dólares para apoiar a segurança cibernética da Ucrânia e consolidar a sua infraestrutura digital.

Em segundo lugar, a Rússia esperava muito provavelmente usar a internet e as redes móveis da Ucrânia para as suas próprias comunicações. A experiência militar dos Estados Unidos demonstrou como é difícil estabelecer uma rede de comunicações numa zona de guerra ativa a partir do zero. As forças armadas russas na Ucrânia já têm confiado na infraestrutura de telecomunicações existente. John Ferrari, um general condecorado e já reformado, comentou: “Não pode derrubar as torres de rede móvel, porque fica sem referências”. Após a proibição de acesso das operadoras ucranianas a telefones com números russos, circularam relatos de que os soldados russos estavam a roubar os telemóveis dos ucranianos para comunicarem com os seus comandantes.

As redes preservadas também oferecem oportunidades de controlo e espionagem. Considerando que a Rússia esperava uma vitória “blitzkrieg” (guerra-relâmpago) sobre a Ucrânia, as redes de comunicação teriam sido vitais para a gestão do país. As redes de telecomunicações ativas também permitem uma oportunidade para reunir informação estratégica sobre a comunicação civil e militar da Ucrânia. Agora que uma vitória rápida está praticamente fora de questão, resta saber se a Rússia mudará o foco para interromper as redes de comunicação da Ucrânia.

O que pode ser feito para impedir a interrupção?

Antes, a Starlink de Elon Musk doou algumas dezenas de sistemas de satélite ao governo ucraniano. Embora ainda não esteja claro como estão a ser utilizados, há inúmeras preocupações com o sistema. Como Musk indicou, a comunicação via satélite é um alvo fácil de ataque. Se o espaço aéreo for controlado, a transmissão do utilizador para o satélite pode ser intercetada e triangulada. Além disso, a comunicação via satélite é mais fácil de ser bloqueada e interrompida. Consequentemente, a Starlink concentrou recentemente os seus esforços na defesa cibernética e na prevenção do congestionamento do sinal.

Além disso, como 99% do tráfego da internet viaja por meio de cabos terrestres, as conexões via satélite desempenham um papel insignificante na infraestrutura de telecomunicações duma nação. A Starlink não será a solução para a comunicação da Ucrânia no caso dum controlo total da Rússia. Mesmo se cada ucraniano tivesse uma antena parabólica Starlink, há limites para a faixa geográfica do satélite e os reguladores ainda têm controle sobre as frequências de espectro necessárias.

Licença Creative Commons

Este artigo, escrito por Roman Shemakov e traduzido por Andrea Nunes, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n’o largo ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

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